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A Palavra, de Carl Dreyer: Provas de Vida

| 18/02/2019

A Palavra, de Carl Dreyer: Provas de Vida

by | 18 Fev 19 | Cinema, televisão e média, Cultura e artes, Últimas

Kaj Munk, o pastor luterano dinamarquês que escreveu a peça adaptada para A Palavra (Ordet, 1955), foi um opositor impetuoso da ocupação nazi da Dinamarca. A expressão máxima da resistência alimentada pela sua fé foi um sermão de Advento que proferiu na Catedral de Copenhaga. A Gestapo prendeu-o e assassinou-o brutalmente, despejando o seu corpo numa valeta.

As palavras podem anunciar a vida mesmo quando trazem também a morte certa de quem as diz. A palavra é o sopro. E neste filme é o sopro que vemos antes de tudo, na forma do vento que levanta a roupa estendida e faz abanar a erva. Respiramos através da palavra. A palavra é prova de vida. Sai do nosso corpo quando falamos, atravessa-o quando a escutamos – nestes dois movimentos, mudamos o que somos, não ficando iguais. Assim nos recriamos. O logos cristão remete para a criação precisamente por essa razão. A palavra é o que está no princípio, mas não pode ser desligada da acção, porque a palavra é acção, possibilidade de transformação. Daí que, como aprendemos com Mário Cesariny em “You are welcome to Elsinore”, existam “palavras nocturnas palavras gemidos / palavras que nos sobem ilegíveis à boca / palavras diamantes palavras nunca escritas / palavras impossíveis de escrever”.

Neste filme, as palavras e os gestos enchem o tempo e o espaço. Os planos prolongam-se no tempo tanto quanto o espaço surge como unificação, contenção do mundo todo, câmara de reverberação de palavras e gestos, das palavras como gestos.

Discute-se muito o milagre final de A Palavra, mas muitas vezes todos os outros que passam precisamente por esta potência da palavra e do gesto são esquecidos como momentos inesperados de mudança. Podemos ver o milagre final como o culminar desses milagres, sinais da presença divina e da união com Cristo. Herbert McCabe dizia que Cristo se torna presente para nós na medida em que nos tornamos presentes uns para os outros e esta parece ser a ideia fundamental do texto de Munk. É na confluência da palavra e do gesto que afirmam essa presença que o final acontece, não apenas no amor sem limite de um homem, Morten (Henrik Malberg), por uma mulher, Inger (Birgitte Federspiel), mas de uma humanidade que consegue ultrapassar a sua relutância em ser verdadeiramente humana, sarando feridas, vivas de soberba, mesmo aquelas que parecem sem remédio, sobretudo essas. “O Espírito desata o coração do homem daquilo que o impede de acreditar e de ver e volta-o para Deus que está nele. A ressurreição de Cristo desata-nos da atadura e da mortalha em que o nosso corpo corrompido pelo pecado repousa.” Presumo que José Augusto Mourão não redigiu estas duas frases a pensar neste filme de Dreyer, mas não deixam de ser apropriadas – e a palavra envolve sempre a apropriação.

Sérgio Dias Branco é professor de Estudos Fílmicos na Universidade de Coimbra e leigo dominicano

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