Andreas Mogensen: o sentido da vida de um astronauta

| 31 Jan 2019 | Ciência, Saúde e Tecnologia, Pessoas, Últimas

“Algo que me apercebi na estação espacial foi que o universo é largo e infinito. E, quer a terra quer os humanos são apenas uma pequeníssima parte de tudo isso”, reflete Andreas Mogensen, ao mesmo tempo que sorri. Calmo, descontraído, simpático, a falar para um auditório cheio de alunos, a receber indicações para ser filmado para um documentário, mesmo quando essas indicações envolvem estar rodeado de crianças.

Mas Andreas Mogensen tem de ser uma pessoa calma. Afinal, ele foi o primeiro dinamarquês a tornar-se astronauta.

A entrada de Andreas no Pavilhão do Conhecimento. Foto © Maria Wilton

Nascido em Copenhaga, Dinamarca, em 1976, Andreas recorda que aos dez anos, como muitas crianças, já tinha o desejo de se tornar astronauta: “Lembro-me de pensar o quão bom seria voar livremente, como um pássaro.”

O caminho até ao voo foi árduo: terminou a licenciatura em 1995 e virou-se para um mestrado em engenharia aerospacial no Imperial College, em Londres. Como parte do seu programa, passou seis meses em Lisboa, a fazer Erasmus, no Instituto Superior Técnico.

Depois disso, trabalhou durante oito anos, até que em 2009, foi selecionado para ser astronauta, ao terminar o seu doutoramento no Centro de Pesquisa Espacial, na Universidade do Texas: “Desde o ano 2000 que somos um ser espacial, porque vivemos ininterruptamente na Estação Espacial Internacional (EEI). E, a um dado momento, eu quis fazer parte disso.”

Depois de ser selecionado, eram necessários pelo menos quatro anos de treinos para estar verdadeiramente apto, lembra o dinamarquês, em conversa com o 7MARGENS no auditório do Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa: “São necessários testes físicos muito exigentes.”

Teve que aprender a falar russo, a fazer primeiros socorros e a consertar a maioria dos sistemas da EEI. Para se preparar, fazia grandes caminhadas num enorme tanque de água, treinava sob temperaturas extremas e esteve em cavernas durante semanas, tudo para o seu corpo se adaptar ao espaço.

“Na verdade, adaptar-me a viver em gravidade zero não foi muito difícil porque flutuar não requer qualquer esforço. O mais difícil foi adaptar-me a ter gravidade outra vez, na Terra”, afirma Andreas.

A 2 de setembro de 2015 chegou o momento da sua missão de dez dias, de nome “Iriss”. Subiu para a Estação Espacial Internacional, que orbita a 400 km de altitude, no foguetão Soyuz, com o objetivo de trocar com um astronauta que iria regressar a terra.

“Na estação espacial, demoramos 1h30 a dar a volta à Terra. Em 24 horas, vemos 16 vezes o pôr e nascer do sol.” O astronauta conta que, na EEI, o lugar preferido de todos os tripulantes é a cúpula. Por ser toda em vidro e se poder ver de modo panorâmico: “Vi coisas muito curiosas do espaço. De dia, o planeta parece não ser inabitado, não se vêem sinais de humanos. À noite a história muda, porque o planeta ilumina-se.”

Notou na importância que a água tem na vida humana quando viu o rio Nilo completamente rodeado de luz e, mais longe, tudo escuro. E verificou a diferença que faz a evolução tecnológica, quando viu a Coreia do Sul toda iluminada e a Coreia do Norte quase sem luz.

Mais importante que tudo, notou a fragilidade humana, aquilo que nos mostra o facto de não ver fronteiras, a partir do espaço: “Notei que a atmosfera é uma linha frágil, tão ténue e no entanto tão necessária para proteger a vida. Faz-nos pensar como apenas isso possibilitou a vida.”

Foto © Maria Wilton

Durante os dias em que esteve no espaço, fez um vídeo diário para a sua filha mais nova ver mais tarde, já que na altura ela tinha apenas dois anos: “Eu estava a tentar documentar todo o processo de treino que estava a fazer para que todos pudessem ver o quão árduo é verdadeiramente. No processo, gravei também umas partes para a minha filha para que ela visse o que é estar no espaço.”

As gravações no Pavilhão do Conhecimento tinham também um outro intuito: a participação no documentário de Miguel Gonçalves Mendes, O Sentido da Vida, em que sete pessoas contam as suas histórias e “de que forma a sua atuação nos influencia na nossa tentativa de apaziguamento com o mundo, com a morte e com vida.”

Em produção desde 2015, o documentário deverá estar concluído em julho de 2020. Incluirá as imagens captadas por Andreas Mogensen a bordo do voo espacial e no Pavilhão do Conhecimento, aquando da sua visita a Portugal, no final de 2018. A produção tem em curso uma campanha de crowdfunding para concluir o documentário.

 

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participam:

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Marisa Torres da Silva, professora universitária e investigadora
Luzia Moniz, jornalista e presidente da Paderna (Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana)

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