Diário de viagem (IX) – Nietzsche e Charlie Chaplin, a memória, a vida e o teatro

| 12 Fev 2019 | Intervenção Social, Últimas

Disse Nietzsche que ganha o futuro quem melhor memória do passado fizer.

 Foto © António Ribeiro

Tenho de Dacar a mais grata memória, pois aqui vivi 18 dias na casa dos Missionários do Espírito Santo [Espiritanos] para me preparar para a Missão na Guiné; aqui voltei de carro transportando, desde Bissau até ao Hospital de Dacar, o padre Jonas, que estava muito doente; e por aqui passei três vezes, vindo de Portugal para a Guiné, de jipe. 

Além disso, desde criança sempre tive o grande sonho de conhecer o local onde terminava o Rali Dacar, que para mim é o espectáculo motorizado mais incrível e fascinante do mundo e, desde criança, fazia parte do meu arquétipo mental. 

Por estas razões, e por ser uma cidade com um fascínio especial, para mim Dacar é uma urbe onde sempre me sinto bem, onde sempre me encanto e por onde nunca me canso de passar.

Foi deste local tão excepcional que partimos para o nosso nono dia, não sem antes termos vivido uma situação surreal: de madrugada, ouviu-se um estrondo. A cama do Tito tinha-se partido e ele acabou com o costado no chão! Indagadas as causas, ficámos a pensar que o Tito festejou os 10 golos sem resposta do seu amado Benfica aos saltos em cima da cama, não tendo a pobre desgraçada aguentado tamanho vilipêndio. Tomámos o pequeno almoço, fizemos aos padres espiritanos (meus velhos amigos!) os merecidos agradecimentos, demos os últimos abraços, fomos à capela fazer uma  prece e fizemo-nos à estrada.

O trânsito em Dacar exige especiais cautelas por ser tanto e tão pouco organizado. Mas uma recente auto-estrada, construída mesmo no coração da cidade, depressa nos escoou dali e nos colocou aos pés de Nbor, a uns 50 quilómetros.

“O trânsito em Dacar exige especiais cautelas por ser tanto e tão pouco organizado…” (Foto © António Ribeiro)

Apreciámos o novo aeroporto, que praticamente começa onde acaba a auto-estrada, e que revela a pujança e modernidade do Senegal. 

Temíamos as estradas, que daqui até Tambacunda eram um suplício, mas nem queríamos acreditar: pareciam um tapete rolante! Coisa impensável há uns anos atrás! Se não fossem as dezenas de povoações que nos obrigavam a reduzir, teríamos chegado ao nosso destino a meio da tarde.

Mas cada dia tem as suas dificuldades e três acidentes que encontrámos pelo caminho foram suficientes para nos meter medo ao pensarmos que podia ter sido connosco. 

Também nos assustámos quando, em Tambacunda, centenas de jovens cortaram a estrada em que seguíamos, tendo nós ficado encurralados no meio deles. Batiam na chapa do nosso jipe como em tambores, e vociferavam a sua revolta (parece que por terem assassinado três jovens) de punhos no ar e dando- nos severa e contundente ordem para sairmos dali depressa. Foi o que fizemos numa inversão de marcha atribulada, seguindo por manhosas estradas de terra que nos ajudaram a contornar o problema e a voltar, mais à frente, à nossa estrada que nos haveria de fazer chegar ao nosso destino: Kolda. Eram 20h.

Estávamos a uns 300 quilómetros da Guiné. Nem queríamos acreditar! Afinal, tudo tinha corrido bem até aqui! Seja Deus louvado! 

Jantámos melhorado e tivemos de nos despedir, pesarosos, dos nossos companheiros leigos. Por irem para Catió, têm de passar a fronteira, junto a Kolda, que leva a Bafatá; nós, os padres, por irmos para Bissau, temos que continuar até Ginguinchor e atravessar a fronteira de S. Domingos, minha velha conhecida. 

Quem vem de Dacar e atravessa o Senegal, passando por Tambacunda, Kolda e tantas outras povoações plantadas à beira da estrada, repara que as pessoas são tantas que mais parecem formigueiros humanos, sendo as crianças e jovens um verdadeiro enxame numa deambulação ora passiva, ora frenética.

Toda esta gente nos parece suja e com roupas pobres, mas a paleta de cores das vestimentas são um autêntico arco-íris que inebria a vista. São muito bonitas as cores garridas de África!

Foto © António Ribeiro

Mete dó a idade dos carros e dos camiões que se arrastam num esforço quase de morte para os motores. Até os milhares de burros parecem cansados da sua sorte, abraçando as velhas carroças. Uma coisa que não podemos transmitir por palavras são os cheiros, que em África são verdadeiramente sui generis.

Enfim, não podemos acrescentar dias à nossa vida, mas podemos dar vida aos nossos dias.

A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, como disse Charlie Chaplin. É por isso que temos de a viver intensamente, antes que a cortina do palco da representação se feche definitivamente. 

Foi o que procurámos fazer neste nono dia, que foi um dom.

Por tudo o que hoje nos foi dado viver, bendizemos ao Senhor!

Padre Almiro Mendes

 

(O 7MARGENS acompanha desde domingo, 3 de fevereiro, através de um diário de viagem, a expedição do padre Almiro Mendes e dos seus sete companheiros rumo à Guiné-Bissau para entregar um jipe, uma pick-up e outras ajudas a várias missões católicas e organizações não-governamentais)

 

Breves

O 7MARGENS na Rimas e Tabuadas, em Guimarães

Na Rimas e Tabuadas Livraria-Café, em Guimarães, decorre esta sexta-feira, a partir das 21h30, uma conversa sobre o 7MARGENS. Nela participam três dos elementos dinamizadores do projecto (Manuel Pinto, Eduardo Jorge Madureira e António Marujo), bem como as...

Bispos americanos opõem-se à execução de prisioneiro condenado à morte

Na notícia evocam a carta pastoral da Conferência Episcopal dos Estados Unidos contra o racismo de nome “Abram os corações – A chamada para o amor” que afirma que “o progresso contra o racismo na sociedade não pode obstruir os problemas fundamentais com o sistema de justíça se o mesmo mancha a aplicação das leis.”

Boas notícias

É notícia 

Cultura e artes

A Palavra, de Carl Dreyer: Provas de Vida

“Discute-se muito o milagre final de A Palavra, mas muitas vezes todos os outros que passam precisamente por esta potência da palavra e do gesto são esquecidos como momentos inesperados de mudança.” A crónica de cinema de Sérgio Dias Branco.

Via Sacra na Noite de Natal

Poderosa é Julia Roberts, no papel desta “mãe coragem”. Nunca o amor lhe deu um rosto tão belo. Acreditem. Fala-se do filme “O Ben está de Volta”.

Pessoas

Sete Partidas

Bruno Ganz – um sopro de eternidade e um dia

Caso alguém precise de uma prova de que Deus existe e me tem muito amor, aqui está ela: uma vez convidaram-me para contracenar com Bruno Ganz numa encenação relativamente privada da peça “Coração a Gás”, do dadaísta Tristan Tzara. Como Deus existe, e gosta muito de mim, arranjou de eu nesse dia ter um compromisso noutra cidade. Assim se pouparam dois recordes Guinness: o meu embaraço e a vergonha alheia do Bruno Ganz.

Visto e Ouvido

Agenda

Fev
25
Seg
Estreia do documentário “Energia Para Mudar”, e debate com Francisco Ferreira (Associação Zero) e Pedro Walpole, sj (Plataforma EcoJesuit) @ Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (sala 3.2.13)
Fev 25@17:30_18:30
Debate: papel da comunicação social na protecção da democracia e na eliminação ou promoção do discurso do ódio @ Casa da Imprensa
Fev 25@18:30_20:00

participam:

Jesús Carmona, diretor para os  Media do Parlamento Europeu;
José Manuel Pureza, deputado e professor universitário;
Marisa Torres da Silva, professora universitária e investigadora
Luzia Moniz, jornalista e presidente da Paderna (Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana)

Fev
26
Ter
Jornadas Para Acordar – Do despertar pessoal aos Acordos para a Transição Ecológica Justa @ Centro Univº P. Antº Vieira - Lisboa
Fev 26@18:00_20:30

Ver todas as datas

Entre margens

Escutar a morte entre câmaras e microfones

Em Guimarães, decorre até domingo, dia 24, o congresso A Morte – leituras da humana condição; o jornalista Manuel Vilas Boas interveio na mesa redonda sobre A decisão jornalística: Quando a morte (não) é notícia; aqui se regista o texto da intervenção.

Em Cristo para a vida do mundo

Enquanto esperamos as conclusões do encontro no Vaticano, sobre os abusos sexuais, e nos dispomos a levar à prática as indicações que nos vão ser dadas, apressemo-nos a lutar contra o clericalismo como uma boa maneira de acabar com todas estas formas de abuso.

Homossexualidade e clero católico

A questão da homossexualidade de muitos padres católicos não é para mim irrelevante, porque discordo da contradição intrínseca que consiste na existência de um clero obrigado a papaguear um discurso condenatório da homossexualidade, quando esse mesmo clero também é, em percentagem decerto discutível, constituído por muitos homossexuais.

Fale connosco