Irmãzinhas de Jesus

​Página do meu diário, se o tivesse

| 9 Nov 2021

O patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, com padres franciscanos da paróquia de S. Maximiliano Kolbe e várias Irmãzinhas de Jesus. Foto © Fátima Roque

 

Sábado, dia 6 de novembro, vivi uma experiência única, numa celebração bela, intensa e comovente. Era uma despedida. Durante 23 anos, algumas Irmãzinhas de Jesus, seguindo o espírito de Carlos de Foucauld, viveram “contemplativas no meio do mundo, à maneira de Jesus de Nazaré, compartilhando a condição social dos pobres, nas relações de amizade, de trabalho e de vizinhança” num bairro em Chelas (Lisboa). Uma casa, num 2º andar, em tudo igual a outras, com a diferença de um quarto ser usado como capela.

Agora, estavam apenas duas, Viviane e Aida Maria, mas a idade e problemas de saúde não lhes permite continuar. E a despedida foi numa missa. Na folhinha de cânticos, distribuída a todos, lia-se “Louvando o Senhor com as Irmãzinhas de Jesus”.

Manuel Clemente quis estar presente, concelebrando, na Igreja de Santa Clara, com os frades da comunidade dos Franciscanos Conventuais, responsáveis pela paróquia de S. Maximiliano Kolbe, de Chelas, a que aquela igreja pertence. É uma paróquia luminosa com múltiplas atividades e onde qualquer um que chegue se sente em casa. Nestes últimos dias, tendo participado em algumas reuniões e pensado sobre o Sínodo [católico], apetecia-me dizer que não me interessa muito o aspecto organizativo da Igreja com as suas leis, paróquias, dioceses, associações, grupos e siglas. Mas foi bom ver que uma paróquia pode ser um centro dinâmico e cheio de vida.

A celebração foi cuidadosamente preparada, com coro e música excelentes, com a presença de muitos, tão diferentes​ ​que me fizeram pensar ser como uma pequena amostra de “gente de todas as nações, tribos, povos e línguas”. Foi um momento de esperança e de gratidão, com alegria, canto e até dança. Também houve lágrimas, difíceis de conter em muitos momentos, sobretudo quando se cantou a oração de Carlos de Foucauld: “Meu Pai, eu me abandono a Ti… Estou pronta para tudo, aceito tudo. Nas tuas mãos hoje entrego a minha vida…”

Os amigos do bairro quiseram participar e  muitos exprimiram os seus testemunhos de gratidão e saudade, alguns lidos, soletrados, emocionados, recordando o que as Irmãzinhas eram para eles. Como a sua casa estava sempre aberta; como trabalharam em ofícios simples e pobres; como visitavam os que estavam presos e nos hospitais; como sempre estiveram ao lado dos mais fracos; ajudando as vítimas de violências, doméstica e outras, a defender os seus direitos; presentes na Comissão de Apoio às Vítimas do Tráfico de Pessoas; e sempre acolhedoras e prontas a escutar todos, sem exceção. Uma jovem comparou a casa das Irmãzinhas à casa acolhedora de uma avó que recebe com chá e bolo, ou à casa de uma mãe que está lá sempre pronta a ouvir e a encorajar, ​mas também ao quarto de uma irmã porque, apesar da sua idade, elas continuam cheias de entusiasmo e de juventude, de olhar e de coração.
Reparei que as palavras mais repetidas nestes testemunhos foram: carinho, sorriso, escuta.

Todos quiseram contribuir para lhes oferecer lembranças, cuidadosamente pensadas para cada uma, com alguma brincadeira à mistura. Inspirando-se na “carta das fraternidades” que é enviada anualmente com notícias das Irmãzinhas de todo o mundo, os jovens fizeram uma “edição especial” com testemunhos e fotos destes 23 anos; o grupo da Comunidade da Flamenga escreveu um longo poema de que retiro:“Obrigado, Irmã Aida, pelo seu grito impaciente perante o esquecimento e a demora na resposta, que deve ser na hora (como sempre diz insistentemente !) às necessidades urgentes de tanta gente por quem luta sem desfalecimento!”; o grupo do coro compôs uma canção com versos destinados a cada uma; receberam um telemóvel para que lhes pudessem mandar fotografias do bairro e fazer videochamadas; um casaco quentinho para a Irmãzinha que volta para Itália; um pintor do bairro ofereceu um quadro​ seu​ a cada uma, houve flores e muita, muita amizade.

Pensei como o grão caído à terra cresce, frutifica e contagia.

Mais tarde, num momento algo contraditório com esta vivência, ao regressar de Chelas com o coração cheio, enquanto esperava pelo metro, vi um casal jovem aproximar-se de um grupo de escuteiros que levavam bandeiras do CNE. Falaram em inglês e disseram que também eram escuteiros e gostariam de trocar experiências. Imediatamente uma chefe perguntou rispidamente “mas são católicos?” Fiquei triste com estes limites… Eram…

​No fim deste dia tão intenso pensei no que gostaria de pedir ao​​ ​Sínodo. A primeira coisa seria que se desse atenção à linguagem e aos gestos eclesiais, incompreensíveis para muitos. Talvez ajude ler muito, poesia, novelas, História, ver filmes e teatro, ouvir música de diferentes estilos, épocas e géneros. E, sobretudo, conversar e escutar pessoas com experiências e situações diversas, de dentro e de fora da Igreja.

Perguntaria também se não é possível reduzir e simplificar as vestes, mitras, anéis… símbolos que embora tenham muito significado quando explicados, para as pessoas “não iniciadas” espantam e são objeto de chacota.

E continuo a pensar no Sínodo. Não sei bem porquê, sentia uma certa aversão à expressão “caminho sinodal”. Hoje, um amigo ajudou-me! Disse-me que essa expressão era, de facto, redundante porque a palavra sínodo tem origem na palavra grega – sýnodos – que significa “caminhar juntos”. Obrigada, Paulo.

Sim, tentemos caminhar juntos e ajudar a construir uma Igreja aberta e simples, sem fronteiras nem limites, onde possamos ser reconhecidos como discípulos de Jesus pelo amor que vivemos.

 

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