De Cirilo a Welby, passando pela CEP

10 anos de pontificado: As mensagens dos líderes religiosos para Francisco

| 13 Mar 2023

Papa Francisco com o grande imã de al-Azhar, Ahmad al-Tayeb, 04102021, foto Vatican Media

Papa Francisco com o grande imã de al-Azhar, em outubro de 2021. “Aceito de bom grado qualquer iniciativa de trabalhar em conjunto para realizar a fraternidade humana”, reiterou Ahmad al-Tayeb. Foto © Vatican Media.

 

O Papa Francisco recebeu nos últimos dias rasgados elogios da parte de inúmeros líderes religiosos, a propósito do 10º aniversário do seu pontificado, que se assinala esta segunda-feira, 13 de março. Mas houve outro denominador comum nas mensagens de felicitações que estes lhe enviaram: a expressão da vontade de colaborar com ele por um mundo melhor, manifestada inclusive pelo patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Cirilo.

“Nestes tempos difíceis, o diálogo entre os líderes religiosos pode dar bons resultados e unir as pessoas de boa vontade para curar as feridas”, escreveu o chefe da Igreja russa, reconhecendo que Francisco tem dado um contributo “significativo” como pregador do Evangelho e impulsionador da interação inter-religiosa. Cirilo desejou ainda ao Papa “boa saúde, paz de espírito e a ajuda infalível de Cristo Salvador nos seus trabalhos”.

Recorde-se que Francisco e Cirilo estiveram juntos a 12 de fevereiro de 2016, naquele que foi o primeiro encontro entre os lideres de ambas as Igrejas em quase um milénio, desde o Grande Cisma de 1054. Desde então, só voltaram a reunir-se por videoconferência a 16 de março de 2022, após o início da agressão militar à Ucrânia por parte da Rússia, depois de o patriarca russo ter recusado mediar as negociações para um cessar-fogo [ver 7MARGENS].

Apesar de Cirilo ter expressado o seu desejo de que o conflito termine, também tem afirmado publicamente o seu apoio a Putin e às ações militares da Rússia. Francisco, por seu lado, já manifestou várias vezes a sua vontade se deslocar a Kyiv e Moscovo. Um novo encontro entre o patriarca ortodoxo e o Papa chegou a estar previsto para setembro do ano passado, durante o VII Congresso de Líderes das Religiões Mundiais e Tradicionais, mas Cirilo acabou por decidir não participar. Agora, na sua mensagem, parece estar novamente aberto ao diálogo.

Papa Francisco em videoconferência com patriarca cirilo a 16 março 2022 foto facebook de antonio spadaro sj

Papa Francisco em videoconferência com o patriarca Cirilo, a 16 março de 2022. Foto © Antonio Spadaro, SJ.

 

“Alcança de uma forma extraordinária aqueles que estão fora da Igreja”

Quem não faltou a esse encontro foi Ahmad al-Tayeb, o grande imã de Al-Azhar do Egipto, que por estes dias também fez questão de escrever a Francisco. “Aprecio com orgulho o seu ilustre caminho ao longo dos últimos dez anos, durante os quais procurou construir pontes de amor e fraternidade entre todos os seres humanos, e o seu incansável esforço para promover os valores da fraternidade humana e estabelecer o diálogo entre os seguidores das religiões como base para alcançar a paz pela qual todos nós ansiamos”, sublinhou al-Tayeb na sua mensagem.

“O nosso mundo hoje está cheio de desafios, conflitos e dificuldades a todos os níveis morais, económicos e sociais, o que aumenta o sofrimento de muitas pessoas; por conseguinte, torna-se grande a responsabilidade dos líderes e de uma figura emblemática e coerente como Vossa Santidade para aliviar o sofrimento das pessoas e dos oprimidos”, reconheceu o Grande Imã de Al-Azhar, assegurando ainda que aceita “de bom grado qualquer iniciativa de trabalhar em conjunto para realizar a fraternidade humana, para que a segurança, a tranquilidade, a convivência e a estabilidade prevaleçam no nosso mundo”.

Também o patriarca ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I´, falou numa “convicção e compromisso comuns” que tem vindo a aproximá-lo de Francisco “ao longo destes dez anos”, especialmente “no ministério de levar conforto e paz a todo o povo de Deus, e no mandato de promover cuidados e cura para toda a Criação de Deus”.

“Apreciamos as prioridades da tua liderança, aplaudimos a prudência das tuas ações e admiramos os progressos do teu mandato”, referiu Bartolomeu I, assinalando ainda estar ansioso por “partilhar os próximos passos do caminho abençoado [do Papa] à medida que nos aproximamos da comemoração histórica e extraordinária celebração do Primeiro Concílio ecuménico de Niceia, onde foram formulados os principais artigos do nosso Credo cristão”.

O primaz da Igreja Anglicana, Justin Welby, que recentemente partilhou literalmente o caminho de Francisco, ao fazer com ele uma peregrinação ecuménica pela paz no Sudão do Sul [ver 7MARGENS], não esquece o primeiro encontro com o Papa e fala sobre isso na sua mensagem.

“A primeira vez que me encontrei com o Papa Francisco foi cerca de dois ou três meses após ter iniciado o meu mandato e estava muito nervoso. Nunca me tinha encontrado com um Papa, não sabia o que pensar, não sabia que tipo de pessoa ele era. Entrámos, sentei-me e ele disse: ‘Sou maior que tu…’, e eu pensei: ‘Meu Deus, será um daqueles…’. E ele acrescentou: ‘…três dias!’. Porque ele tinha começado o pontificado três dias antes de eu começar o meu cargo. Esse início revelou-me muito sobre o Papa Francisco e caracterizou a minha experiência com ele”, conta.

“Experimentei a sua humanidade extraordinariamente profunda, que não faz concessões acerca da verdade, e que atribui um valor infinito a cada ser humano. Muitos o dizem – eu também – mas ele vive-o”, destaca Welby.

O líder da Igreja Anglicana admira a “notável abertura” da abordagem de Francisco à moral, sublinhando que ele consegue ver os problemas “de uma perspetiva surpreendente”. “Se falarmos com ele sobre os muitos problemas que a Igreja enfrenta, ele olha para o coração humano e encontra formas de amar que conseguem desbloquear as partes endurecidas do coração”, afirma.

“A terceira coisa que gostaria de dizer sobre ele – acrescenta ainda Justin Welby – é que a simplicidade que aparece é uma simplicidade genuína. Estes três aspetos: a sua notável capacidade de intelecto e caráter, a profundidade do seu coração e a sua simplicidade permitem-lhe alcançar de uma forma extraordinária aqueles que estão fora da Igreja, como fez São João Paulo II. Há uma profundidade que é uma bênção para toda a Igreja, e não apenas para a Igreja católica romana”, conclui o arcebispo de Cantuária.

 

Papa fez oração ecuménica pela paz, juntamente com Justin Welby, arcebispo da Cantuária (Igreja Anglicana) e o pastor Iain Greenshields, moderador da Igreja da Escócia (Presbiteriana). Foto © Vatican Media, via Agência Ecclesia.

O arcebispo Justin Welby, o Papa Francisco e o pastor Iain Greenshields, moderador da Igreja da Escócia, em oração pela paz no Sudão do Sul. Foto © Vatican Media.

 

O rabino chefe da comunidade judaica em Roma também reconhece isso mesmo, desejando, na sua mensagem para Francisco, “que ele mantenha esta relação especial de amizade que quis manter com o povo judeu”. E Abraham Skorka, rabino argentino que conhecia Bergoglio desde antes da sua eleição, destaca como, enquanto Papa, Francisco “sempre condenou veementemente qualquer ataque verbal e físico contra judeus simplesmente porque são judeus. Esta mensagem constante é especialmente reconfortante para os judeus em todo o mundo, numa época em que se multiplicam os apelos antissemitas e a violência assassina”.

 

Bispos portugueses agradecem “constante luta contra os abusos sexuais”

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que também divulgou esta segunda-feira uma mensagem de agradecimento ao Papa Francisco pelo décimo ano do seu pontificado, lembrou as suas palavras após a eleição, recebidas pelos bispos portugueses quando se preparavam em Santarém para celebrar os 25 anos de episcopado de D. Manuel Pelino, e  que terminavam com o seguinte pedido: “Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade”.

“Agradecemos ao Papa Francisco a redobrada atenção aos mais pobres, sinalizada com a celebração anual do Dia Mundial dos Pobres, a constante luta contra os abusos sexuais de menores e adultos vulneráveis na Igreja, convocando toda a Igreja para a tolerância zero, o cuidado pelos mais descartáveis, as suas viagens apostólicas sobretudo a países da periferia, o seu empenho contínuo pelo efetivo diálogo ecuménico e inter-religioso, o seu apelo e compromisso pela paz e justiça no mundo e tantas outras atitudes e gestos apontando para que a Igreja de Jesus Cristo seja autenticamente inclusiva, aberta e ’em saída'”, escreveram os bispos portugueses, agradecendo-lhe também a vinda a Portugal em 2017 e lembrando que contam com ele “em agosto próximo para a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa”.

 

Felizes os meninos de mais de 100 países – incluindo Portugal – que participam na Jornada Mundial das Crianças

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Foi há pouco mais de cinco meses que, para surpresa de todos, o Papa anunciou a realização da I Jornada Mundial das Crianças. E talvez nem ele imaginasse que, neste curto espaço de tempo, tantos grupos e famílias conseguissem mobilizar-se para participar na iniciativa, que decorre já este fim de semana de 25 e 26 de maio, em Roma. Entre eles, estão alguns portugueses.

Cada diocese em Portugal deveria ter “uma pessoa responsável pela ecologia integral”

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A encíclica Laudato Si’ foi “determinante para o compromisso e envolvimento de muitas organizações”, católicas e não só, no cuidado da Casa Comum. Quem o garante é Susana Réfega, portuguesa que desde janeiro deste ano assumiu o cargo de diretora-executiva do Movimento Laudato Si’ a nível internacional. Mas, apesar de esta encíclica ter sido publicada pelo Papa Francisco há precisamente nove anos (a 24 de maio de 2015), “continua a haver muito trabalho por fazer” e até “algumas resistências à sua mensagem”, mesmo dentro da Igreja, alerta a responsável.

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Bispo José Ornelas: “Estamos a mudar o paradigma da Igreja”

Terminou a visita “ad limina” dos bispos portugueses

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