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O terror nazi: “Todos devem saber tudo”

O terror nazi: “Todos devem saber tudo”

by | 14 Dez 19 | Entre Margens, Últimas

Ilustração alusiva aos fornos crematórios de Auschwitz numa exposição sobre o Holocausto que esteve em Janeiro de 2019, em Madrid (ver https://setemargens.com/auschwitz-aqui-tao-perto/); foto © Nair Alexandra 

 

Uma notícia que li esta semana no Der Spiegel descreve cenas de puro horror. Mas o mundo não pode esquecer o que aconteceu há 75 anos num dos países mais evoluídos do mundo. Temos de saber, temos de estar bem conscientes daquilo de que podemos ser capazes quando atribuímos a pessoas de certos grupos categorias que lhes sonegam a dignidade dos humanos.

O artigo do Spiegel informa que em Hamburgo está a decorrer o julgamento de um antigo SS, de 93 anos, que era guarda no campo de concentração de Stutthof, perto de Danzig. É acusado de participação no assassínio de 5230 pessoas. Na mesma sala está uma das vítimas daquele campo, que é testemunha de acusação: Abraham Koyski, de 92 anos.

Abraham veio de Israel para testemunhar neste processo. Perante o tribunal, fala com voz clara. Conta que tinha 16 anos quando chegou ao campo, juntamente com 800 judeus da Estónia. Conta que a viagem durou oito dias, e que não lhes deram comida nem água. Chegaram a meio da noite, e foram todos enfiados numa barraca com tão pouco espaço que ele dormiu em pé.

Conta como os guardas chamavam os prisioneiros para espectáculos bizarros e sádicos. Num deles, um oficial SS – obviamente sob a influência do álcool – partiu uma cadeira e obrigou um pai e o seu filho a escolherem entre o oficial matar um dos dois, ou um deles matar o outro agredindo-o com os bocados da cadeira. O pai decidiu que o filho o devia matar, e o filho assim fez. No fim, o oficial matou o filho com um tiro.

Koryski fala do seu trabalho de retirar do crematório os ossos ainda inteiros, e da tarefa de recolher de manhã os corpos dos que tinham morrido durante a noite. Fala de chamadas a meio das noites de inverno para se irem lavar: obrigados a sair nus da barraca, a tomar duche e a regressar à barraca molhados e nus, em noites de temperaturas negativas. Acrescenta: muitos morriam depois de acções como esta.

Mas Korsyski não se lembra de rostos. “Não queríamos ver a cara de nenhum deles. Tínhamos medo.”

Perto do fim da guerra obrigaram-no a sair do campo para a marcha da morte. Quilómetros e quilómetros de marcha, sem comida nem bebida, sem roupa quente, sem sapatos. Os que morriam eram empurrados para a berma do caminho. Por várias vezes Korsyski se sentou, com a esperança de receber um tiro libertador. Mas erguia-se de novo – e foi por fim libertado pelo Exército Vermelho.

A juíza pergunta-lhe porque é que fez tanta questão de vir de Israel para testemunhar neste processo.

“Temia esta pergunta”, responde Abraham Koryski, e começa a chorar. “Não é fácil para mim. Não venho para me vingar. Mas quero acusar e não perdoo. Quero que o mundo saiba o que aconteceu. Todos devem saber tudo.”

E a seguir:

“A minha vingança é a minha família, os meus familiares presentes nesta sala. São o sinal de que eu consegui sobreviver a tudo isso.”

“Todos devem saber tudo.” Por isso decidi resumir e traduzir este artigo.

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blogue 2 Dedos de Conversa, de onde se reproduz este texto, numa versão editada para esta publicação. 

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