“Nós não devíamos ter-nos conhecido”

| 2 Fev 20

Nodeirinho, Pedrógão Grande, depois do grande incêndio de 2017. Foto © Bárbara Baldaia/TSF, cedida pela autora.

 

No próximo dia 4, decorre em Lisboa (Teatro Thalia, 10h), a cerimónia de entrega dos prémios Cooperação e Solidariedade, promovidos pela Cooperativa António Sérgio para a Economia Social e que pretendem homenagear pessoas ou instituições que se tenham distinguido em domínios relevantes para a Economia Social.

Além do prémio de honra, há cinco categorias: Invocação e Sustentabilidade, Formação Pós-Graduada, Trabalhos de âmbito Escolar, Estudos e Investigação e Trabalhos Jornalísticos.

Nesta última categoria, um dos vencedores foi Bárbara Baldaia, jornalista da TSF, com a reportagem Retratos do Renascimento (que pode ser ouvida na íntegra na página da TSF), que descreve a seguir a experiência de realizar esse trabalho, dedicado à reconstrução comunitária, após o grande incêndio de 2017 em Pedrógão Grande.  

Além de um texto sobre a tese vencedora da categoria de Estudos e Investigação, o 7MARGENS publicou já, também, o texto do jornalista da SIC João Faiões, sobre a reportagem Nós Ainda Estamos Aqui.

 

“Nós não devíamos ter-nos conhecido”

Nodeirinho, Pedrógão Grande, depois do grande incêndio de 2017. Foto © Bárbara Baldaia/TSF, cedida pela autora.

 

“Nós não devíamos ter-nos conhecido”, disse-me um dia um amigo. Se não nos tivéssemos conhecido, significava muito provavelmente que aqueles campos onde falávamos continuariam verdes, que as árvores estariam de pé, que as plantas, os animais e as pessoas não teriam sido sacrificadas às chamas.

De todo o meu trabalho como jornalista, ao longo dos últimos 20 anos, esta foi uma das frases que me ficou na cabeça e que me assalta, de quando em vez.

João Viola, a concluir o Memorial à Fonte da Vida, em Nodeirinho, Pedrógão Grande, na sequência do grande incêndio de 2017. Foto © Ana António/TSF, cedida pela autora.

 

“Nós não devíamos ter-nos conhecido”. No momento em que o artista e escultor João Viola me disse isto, senti um nó na garganta – e só eu sei como quando estou a trabalhar me aguento tão bem sem ceder às emoções. Um jornalista é um pouco como um médico, quando exerce a sua profissão: não pode quebrar quando encontra um drama, tem que manter alguma distância emocional relativamente aos acontecimentos. Mas naquele momento, com aquela frase, engoli em seco.

 

“Nós não devíamos ter-nos conhecido. É tudo num tempo errado. Conhecemo-nos pela razão errada”, dizia ele, com a voz embargada.

Tínhamo-nos conhecido um ano antes, em Nodeirinho, a pequena aldeia onde morreram 11 das 66 pessoas do grande incêndio de Pedrógão Grande.

Nos últimos meses, João tinha vivido dentro “de uma cela fechada, com tudo negro”. O negro das chamas que lamberam a paisagem e as vidas humanas tinha-se incrustado dentro dele. E naquele momento, dizia-me João, finalmente a alma renascia das cinzas.

 

Ali estávamos nós, um ano depois de nos termos conhecido pelas piores razões. Eu, de microfone em punho, a tentar fazer balanços e a descobrir uma comunidade que se reerguia sozinha, à custa da solidariedade entre vizinhos, à custa da iniciativa social de todos, pensando em todos, sem esperar nada do poder político, sem aguardar ajudas nem pedir esmolas.

Ali estávamos nós, eu à procura de balanços e ele a resumir tudo nesta frase tão curta. “Nós não devíamos ter-nos conhecido.”

Habitantes de Nodeirinho, Pedrógão Grande, uma das aldeias atingidas pelo grande incêndio de 2017. Foto © Bárbara Baldaia/TSF, cedida pela autora.

 

Naquele dia, porém, um sol glorioso fazia acreditar no futuro. Estávamos a poucos minutos da inauguração do memorial às vítimas que João tinha construído, “sobretudo para nos lembrar que isto não pode voltar a acontecer”.

Naquele domingo, o Presidente da República inauguraria o memorial “Fonte da Vida”, sublinhando o verso bíblico que ali se lia: “Eis que faço novas todas as coisas.”

Memorial à Fonte da Vida, em Nodeirinho, Pedrógão Grande, na sequência do grande incêndio de 2017. Foto © Ana António/TSF, cedida pela autora.

 

Ali estava o resumo do trabalho que tinha sido feito no último ano por aquela comunidade: do negro fizeram verde, da morte fizeram vida, do desgosto fizeram paz.

Ali, junto ao tanque onde cerca de 20 pessoas se salvaram do fogo, havia naquele dia um atrevimento de esperança. Havia risos, havia bolos e sumos, havia alegria. Havia um ensinamento, um caminho. E esse cenário era tão diferente daquele que tinha encontrado no ano anterior.

 

Da primeira vez que lá cheguei, três dias depois do incêndio, os corpos tinham sido recolhidos, mas o silêncio da morte continuava no local. Estacionei o carro e só se ouvia a água que corria constante do tanque. De resto, silêncio. Não se ouviam pássaros, porque tinham morrido, não se ouvia o restolhar das folhas das árvores, porque estavam queimadas, não se ouviam conversas, porque o luto era tão intenso e tão inesperado que calava todas as bocas.

Na paragem de autocarro, habitantes de Nodeirinho, Pedrógão Grande, uma das aldeias atingidas pelo grande incêndio de 2017. Foto © Bárbara Baldaia/TSF, cedida pela autora.

 

Sentei-me na paragem de autocarro e ali fiquei. À espera de quem não conhecia. À espera de Dina, Rui, Filipa, Fernanda, Sofia, Carolina, Sebastião, Céu e João. À espera de conhecer quem nunca devia ter conhecido.

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