AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

autores-jorge leandro rosa

[Entre Margens]

1700 anos depois, os inúmeros reflexos da paz

| 22/12/2025

 

Da paz antiga à paz nova. Assim poderíamos abarcar o escopo desta primeira viagem apostólica do Papa Leão XIV. Raramente uma viagem papal terá concentrado tantas camadas de sentido, terá aberto tantas passagens do mundo antigo ao mundo contemporâneo e vice-versa. Logo a abrir, deparamos com uma profundidade histórica a tal ponto rica e tumultuosa que se torna quase inimaginável para nós: do mundo antigo ao mundo moderno, passando por Bizâncio, pelo Islão e pelos impérios coloniais europeus, as heranças das épocas parecem vir aí regularmente à superfície, como se todas fervessem num caldeirão imenso sobre um fogo sempre vivo.

Depois, são as camadas de memória, discurso e análise investidas nesta viagem: da teologia à eclesiologia, da diplomacia à geopolítica, da pastoral à História da cristandade, são inúmeras as perspectivas que nos ajudam a compreender o que estava em jogo nestes cinco dias. Quando os media nos sobrecarregam de referências à política internacional, à geopolítica e ao direito internacional, damos por nós a pensar que nenhuma destas categorias inaugurou as relações entre os povos desta região, pois elas foram-se constituindo ao sabor de migrações, trocas comerciais, invasões militares ou deslocações religiosas e culturais. Era um mundo que se ia adaptando com engenho aos costumes e aos golpes do destino, enquanto o Império Romano velava pela sua supremacia recorrendo ao milagre da cidade ou a execuções tão ignóbeis e habituais quanto a crucificação.

A Turquia

Concílio de Niceia

Primeiro Concílio de Niceia, pintura mural na igreja de Stavropoleos, Bucareste, Roménia. Foto © Kostisl / Wikimedia Commons

O Concílio de Niceia é, no século IV, o fruto do mare nostrum legado por Roma e continuado pela cristandade, que então tinha mais urgência em definir-se do que propriamente em dividir-se, e que procurava preservar a sua potência teológica diante do agenciamento político que a visava. A Pax Romana, que então já deixava adivinhar a sua futura divisão entre oriente e ocidente, assegurava assim as condições para que a Igreja, nesse ano de 325 d.C., pudesse prestar atenção às polémicas teológicas do tempo, como aquela formulada pelo Presbítero Ário, de Alexandria, no Egipto, então um importante centro dos grandes debates religiosos do tempo. Sendo certo que aquilo que o Papa e os outros dignitários celebraram naquele passadiço foi a efémera vitória sobre a divisão doutrinal, não podemos deixar de admirar a vivacidade filosófica e teológica da tardo-Antiguidade ali indirectamente evocada, mas geralmente esquecida ou mal compreendida.

Mas o que representa Niceia no ano 2025? Decerto não apenas a efeméride da História da Igreja, por mais impressionante que ela se mostre aos nossos espíritos. O édito de Constantino, que legalizara aquela reunião, para usar termos do nosso tempo, tem, em 325 d.C., apenas 12 anos de vigência. Tudo indica, pois, que decorria aí uma estruturação paralela do Império e do governo da Igreja. Estes 1700 anos formam, então, o grande ciclo da aproximação – e quantas vezes do equívoco – histórica entre o Estado e a Igreja que importaria interrogar. Apesar dos inúmeros sobressaltos que temos vindo a testemunhar nesse processo, não há muitas dúvidas de que, na forma teológico-política aí assumida, ele estará agora encerrado. Se a unidade da Cristandade faz ainda sentido, ela passa por caminhos novos. Como Leão XIV lembrava há pouco, «Jesus é o rosto doce de um Deus que não ocupa todo o espaço […] que deixa fazer, que espera, que se retira para nos deixar a liberdade» (audiência geral de 17 de setembro). Essa é uma representação necessária, e quem sabe premonitória, de um ecumenismo de espaçamentos e visitações, um ecumenismo não apenas fundado na revisitação das origens do Cristianismo, mas também receptivo aos visitantes que não sabemos identificar.

Basílica bizantina de S. Neófito

“Há muito que a Basílica bizantina de S. Neófito se encontrava submersa sob as águas do lago Iznik. A partir de 2014, com o recuo das águas por causa das alterações climáticas, os seus vestígios ficaram progressivamente mais visíveis.” Foto: Vista aérea da Basílica bizantina de São Neófito no lago Iznik, antiga Niceia. © Vatican News

2025 é também um anos diferente porque é um ano da Terra. Nos nossos dias, todos os anos são anos em que esse «novo» actor, nem teológico nem humano, eleva a sua voz e se faz ouvir o seu clamor cada vez mais sonoro. Não terá sido por acaso que Leão XIV evocou a nossa irmã Terra naquela cerimónia ecuménica. Há muito que a Basílica bizantina de S. Neófito se encontrava submersa sob as águas do lago Iznik. A partir de 2014, com o recuo das águas por causa das alterações climáticas, os seus vestígios ficaram progressivamente mais visíveis. A Basílica, que se crê edificada no mesmo local onde decorreu o Concílio, evoca hoje uma configuração mais rica e inextricável, ponte entre etapas diferentes da vida da Igreja e períodos da vida humana no planeta. Como tudo se acelera, o tempo geológico, o tempo teológico e o tempo humano parecem ter encontrado uma respiração quase compassada, signifique isso a nossa perda ou a nossa salvação.

Embora não seja reconhecido o genocídio dos Arménios e de outras minorias no período da Grande Guerra, no plano da sua segurança, as igrejas cristãs estão ainda sob a protecção do Estado turco, mas não estão protegidas de poderosos sectores nacionalistas ou islamistas da sociedade turca. Pudemos testemunhá-lo quando, em 2010, quisemos celebrar a Páscoa com a comunidade arménia, já Erdogan era Primeiro-Ministro. Para chegar à Igreja Patriacal Arménia fomos forçados a passar diversas barragens do exército turco, um claro sinal do contexto ambíguo em que estas comunidades vivem. Ao tomarmos conhecimento dos protestos que se fizeram ouvir contra a visita do Papa à Mesquita Azul, verificamos que a situação não será hoje muito diferente dessa. Contudo, no ano seguinte, o governo decidiu dar início à devolução dos bens das comunidades judaica e cristãs que haviam sido confiscados em 1930. O Estado turco tem vindo a assumir uma política estrangeira que se coaduna com o neo-imperialismo multipolar que tem varrido o globo. Desde o apoio explícito às guerras conduzidas por turcomanos no Médio-Oriente e no Cáucaso, à tentativa de se constituir como um poder neo-otomano, ou à defesa intransigente dos Irmãos Muçulmanos em toda a região, a Turquia não deixa pairar dúvidas quanto ao facto de se ter transformado numa versão sui generis de um Estado neo-islâmico. Na frente política, Erdogan conseguiu manietar quase toda a oposição. Para lá das palavras conciliadoras que dirigiu ao Papa na cerimónia de boas-vindas, Erdogan usa a religião de modo intensamente político.

 

O Líbano

Papa Leão XIV na despedida do Líbano. Foto Vatican Media

“Essa é talvez a primeira lição desta etapa: a paz e a guerra não provêm de planetas diferentes. Sendo opostas, não se desconhecem uma à outra.” Foto: Papa Leão XIV na despedida do Líbano.© Vatican Media

A segunda etapa da viagem pontifical foi o Líbano. De novo, a omnipresença da profundidade histórica, aqui duplicada pela omnipresença dos conflitos que cercam o Líbano e o penetram com regularidade quase fatal. Todos os Estados que formam o entorno do Líbano estiveram, até muito recentemente, em guerra ou em guerra civil. E as situações que sucederam a esses conflitos não podem ser consideradas pacíficas. Há um emalhar de combates, escaramuças, incursões que lembra constantemente que o presente parece estar mais entretecido pela violência do que pela paz. Cabe ao povo libanês destrinçar nessa rede o que é de uma e de outra.

Essa é talvez a primeira lição desta etapa: a paz e a guerra não provêm de planetas diferentes. Sendo opostas, não se desconhecem uma à outra. Há países em paz que parecem sempre prometidos à guerra; outros há que ocultam as sementes da paz sob as movimentações da guerra. À excepção do cansaço e da exasperação, nada é claro na situação do Líbano. Desde logo, não é claro que actores nacionais, como o Hezbollah, não estejam simultaneamente incapazes de fazer a guerra e a paz, impasse terrível porque permite a sobrevivência da fundamentação miliciana de um movimento político. Se estivéssemos na Europa dos anos 1930, chamar-lhe-íamos uma mobilização fascista que espera a sua oportunidade depois de uma derrota.

O Hezbollah tinha, com efeito, levado demasiado longe o seu divórcio do Estado e da sociedade nacionais. Como «Estado» paralelo, foi inevitável que se substituísse, em primeiro lugar, à segurança social quase inexistente, às estruturas de saúde e educação há muito periclitantes no Líbano, os principais insucessos nacionais, particularmente gravosos nas regiões de maioria xiita, um grupo longamente menorizado internamente. Em segundo lugar, tratava-se de uma situação de «Estado dentro do Estado» que conduziu inevitavelmente à criação de símbolos e de inimigos capazes de sustentar essa crescente autarcia política. A guerra adquire aí a sua completa arquitectura de cimento social, ideológico e militar. E onde há inimigos há também mentores e aliados que fornecem doutrina, dinheiro, treino e armas. E onde a resistência era a nobreza da causa, ela passa a consequência, para mais confiscada pelas potências da região em luta de morte.

E não falamos sequer das feridas, bem presentes ainda em todas as confissões libanesas, provocadas pela guerra civil que grassou entre 1975 e 1990. A guerra civil é uma guerra particularmente viciosa porque não conhece linha de demarcação substantiva ou tacitamente reconhecida. No Líbano, a guerra civil foi, de facto, multipolar, o que poderia ser uma antevisão do que alguns consideram ser o futuro do mundo. Como o foi muito recentemente na Síria, numa escala inimaginável, ou parece ser no Iraque, mas em regime de menor intensidade. Nesses anos, é impossível esquecê-lo, as milícias de todos os quadrantes reivindicavam o nome das confissões e fés respectivas. Dezenas de beligerantes que ora se aliavam ora se traíam. Todos eles crentes, diziam, e portadores da fé, fosse ela qual fosse. É esta encenação da religião guerreira que o Líbano e todos os países da região, de Israel ao Irão, da Síria ao Iraque, levam ao palco da História com assustadora regularidade.

Crianças observam as suas casas destruídas no Líbano. Foto UNICEF2024/Diego-Ibarra-Sanchez/Lebanon

“É esta encenação da religião guerreira que o Líbano e todos os países da região, de Israel ao Irão, da Síria ao Iraque, levam ao palco da História com assustadora regularidade.” Foto: Crianças observam as suas casas destruídas no Líbano. © Diego-Ibarra-Sanchez/Lebanon / UNICEF

Como é possível ignorá-lo quando se está com os seus ou com os outros que também são nossos? Pois que esta é a questão mais assustadora na delicada missão desta visita. Não é apenas o ecumenismo que está em questão. Nem é só o diálogo inter-religioso que é convocado, sendo estes degraus essenciais que é preciso percorrer. É uma coisa mais terrível e mais essencial, que mora no coração dos seres humanos, e a que poderíamos chamar o espírito de resistência ao impulso fratricida. Na guerra civil, os libaneses perderam quase instantaneamente a noção de quem tinha ofendido quem e nesse olvido todos puderam planear e cometer massacres na década de 1980: aos palestinos da OLP coube o massacre de Dalmour, aos sírios, apoiados pelos alauitas, os bombardeamentos indiscriminados dos bairros cristãos, às falanges cristãs maronitas o massacre dos refugiados palestinos e xiitas libaneses em Sabra e Chatila, aos israelitas ataques sucessivos no sul do Líbano, e assim sucessivamente.

Alguns sugeriram que o Papa tinha vindo reequilibrar o jogo político libanês em favor dos cristãos, que se sabe cada vez mais minoritários, apesar do último censo datar de 1932. Essa será sempre uma iníqua interpretação quer da actual posição (e orientação pastoral) da Igreja, quer do significado da reconciliação por ele pregada. A reconciliação nunca poderá ser confessional, mas humana, no sentido ontológico da palavra. Ela vem da verdade e da sua força – Satyagraha, como lhe chamou Gandhi – quando cada comunidade é finalmente capaz de pronunciar os nomes dos crimes cometidos em seu nome. Sim, os Evangelhos são uma sublime mensagem de paz, mas não foram escritos para serem transportados na lapela.

O problema na arquitectura política do Líbano, que apesar de tudo sustenta um certo grau de convivência, é o facto das confissões partilharem, em nome próprio, o poder. Até que ponto o poder pode ser uma prorrogativa da pertença religiosa? Se o poder é um estranhamento de si mesmo, uma alienação eventualmente necessária, aquele que o exerce em nome da sua religião está sempre dividido entre a verdade que lhe vem de uma verdade fundacional e a verdade que brota da sua consciência. É a hipérbole da divisão se a compararmos àquela, já de si arriscada, do exercício do poder em nome de uma lei profana.

A fé, que é irradiante, reenvia sempre a pergunta necessária àquele que a professa. A fé – e no caso vertente a fé cristã – só pode questionar-se quando o seu sujeito se assume como um «eu teológico», como dizia Kierkegaard, quer dizer, como um eu que se coloca na presença de Deus, essa presença que, por ser infinita, se reflecte necessariamente nos nossos semelhantes. Para que haja paz no Líbano, não é suficiente que os partidos confessionais a repartam como se ela fosse o bem do Estado; é também indispensável que cada homem e cada mulher possa ver no seu vizinho o reflexo do seu passado comum e do seu anseio partilhado. Esse reflexo não surgiu algures no intervalo entre a guerra e a paz, que é onde o Líbano parece viver, mas já estava presente durante o conflito e continua a ser a luz partilhada da comunidade. Cabe ao Estado ser o garante das passagens e dos caminhos abertos.

E diante do desolado porto de Beirute ressoaram as palavras necessárias de Leão XIV: «O Médio-Oriente necessita de novas perspectivas que lhe permitam rejeitar a mentalidade de vingança e de violência e ultrapassar as divisões políticas, sociais e religiosas» (discurso em Beirute, 2 de dezembro).

 

Jorge Leandro Rosa é ensaísta e tradutor, tendo sido professor universitário durante vinte anos. Interessa-se, desde muito jovem, pela prática e a teoria da não-violência. Escreve regularmente sobre a Mudança Climática e o Antropoceno.

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

O 7MARGENS vive exclusivamente do apoio dos leitores.
Faça um donativo: https://setemargens.com/apoiar
Inscreva-se para receber a nossa newsletter gratuita: https://setemargens.com/assinar
Partilhe os nossos textos na sua página de Facebook, Instagram ou Twitter.
Escreva-nos: setemargens@setemargens.com

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This