A Magna Via Francigena, na Sicília (Itália) liga Palermo (no Norte) a Agrigento (na costa Sul da ilha), por antigos trilhos percorridos por gregos, romanos, árabes e normandos. Um ramal sul da mais famosa Via Francigena também se tornou destino de peregrinos de todo o mundo. Percorremo-la no início de outubro, quando as temperaturas já não são tão proibitivas como no verão siciliano e um vento fresco nos acompanhou ao longo dos 190 quilómetros do percurso, que se divide em nove etapas.
Partida e chegada em duas cidades famosas, Palermo e Agrigento, o resto do caminho decorre todo no interior, em belas aldeias como Sutera e Racalmuto, desconhecidas das rotas turísticas. No meio, os Montes Sicani, suaves e com picos arredondados, campos de trigo, melões, uvas, amendoeiras e muitos prados que, ao olhar para o horizonte, se perdem de vista. É um caminho muito apreciado por peregrinos de muitos países, inclusive da Nova Zelândia e da Austrália, porque permite conhecer uma Sicília pouco conhecida até mesmo pelos sicilianos, unindo belezas naturais a obras-primas do património artístico italiano.
Partimos de Palermo, com a sua conhecida animosidade, e a pé, com mochilas às costas, sentimo-nos um pouco deslocados no meio dos carros que buzinavam e não gostavam muito de mais peões a complicar ainda mais o trânsito, mas Palermo vale sempre uma passagem, mesmo que rápida, com o seu Palácio dos Normandos, San Cataldo, a majestosa catedral, as ruas animadas do centro e os mercados locais. Começámos a verdadeira caminhada em Monreale, onde se ergue a famosa catedral com os seus mosaicos dourados. Aqui estava a ser celebrado um casamento com todo o esplendor e elegância que a Sicília sabe oferecer.
Daqui subimos para Altofonte, correndo o risco de ficar sem fôlego pela subida, mas também pela beleza que Palermo, situada à beira-mar numa grande baía rodeada de montanhas, oferece ao visitante, e depois continuamos seguindo a trazzera (como os sicilianos chamam ao caminho dos campos) que leva ao Santuário de Tagliavia. O destino do primeiro dia de caminhada é Santa Cristina Gela, um enclave albanês na Sicília. Explicam-nos que aqui só se casavam pessoas de origem albanesa, enquanto agora há uma maior abertura, mas os nomes das ruas estão escritos em albanês e a Planície dos Albaneses não fica longe.
Percursos da legalidade

Magna Via Francigena. Vale dos templos. Fotos © Laura Pisanello / Eugenio Boldon Zanetti / Severino Gatto
A segunda etapa leva-nos a Corleone, após uma subida cansativa por uma colina que parecia não ter fim. Corleone é a cidade das 100 igrejas, com belas lojas e hotéis, mas a sua notoriedade está mais ligada às guerras da máfia que, infelizmente, causaram muitas mortes. O filme O Padrinho [de Francis Ford Coppola] trouxe-a à ribalta do imaginário mundial. No entanto, o desejo de redenção e mudança é visível no itinerário da legalidade que se desenrola pela cidade recordando as vítimas da máfia. Atravessamos montanhas sulcadas por estradas de terra batida e algumas quintas que nos são abertas pelos proprietários e chegamos a Prizzi, a cerca de mil metros de altitude. As casas são construídas umas sobre as outras, as pessoas não têm pressa, os gerentes da Trattoria del Corso são muito simpáticos.
Castronovo di Sicilia tem uma bela catedral e uma bela pastelaria onde se podem provar doces com amêndoas, cassatas e cannoli que se comem em toda a parte e sempre nesta ilha. A estrada oferece as habituais subidas e descidas e um espetáculo de figos da Índia que formam muros ao longo da estrada, de tão altos que são; atravessamos o rio Platani e chegamos a Cammarata, onde paramos nas freiras salesianas que também acolhem menores estrangeiros desacompanhados, que aqui estudam com vista a um futuro que esperamos que seja melhor.
A etapa seguinte leva-nos a Sutera, o coração da siculianza!, como dizem dois amigos siciliano, que cunharam a expressão para dizer a sicilianidade mais profunda. Sutera é uma das aldeias mais bonitas de Itália, realmente pouco conhecida. Dominada por uma montanha em forma de cone partido, oferece uma vista verdadeiramente deslumbrante. Aqui, muitos emigram para o norte em busca de trabalho, mas, em compensação, chegam turistas do norte da Europa que compram casas.
Racalmuto é uma cidade realmente encantadora e é a terra natal do escritor Leonardo Sciascia, que morou na via Regina Margherita. Cada lugar da cidade fala dele, que tentou contar a vida da cidade que amava. [Sciascia é autor de Uma História Simples, transposto para cinema por Emidio Greco, em 1991; não confundir com o filme de David Lynch, de 1999, que tem o mesmo título em Portugal.] Uma surpresa agradável é o teatro da cidade, recentemente restaurado.
Penúltima etapa: Joppolo Giancaxio, onde chegamos no domingo à tarde e o tempo parece ter parado; estamos a cerca de quinze quilómetros de Agrigento e isso é visível, pois os espaços desertos não são mais infinitos. Chegamos a Agrigento percorrendo vários quilómetros de estrada asfaltada, pouco pitoresca; a virtude da correta recolha ecológica de resíduos não é propriamente seguida nestes lugares… mas Agrigento compensa com a sua majestosa catedral, as suas escadarias, os seus conventos espectaculares como o da Igreja de Santo Spirito, atualmente em restauro. As freiras beneditinas da ordem cisterciense dedicam-se à oração e à preparação de deliciosos doces de amêndoa. O mosteiro das freiras cistercienses de Santo Spirito é para nós também um lugar para fazer um balanço final: esta caminhada foi também uma ocasião para uma reflexão pessoal sobre limites e escolhas, guiada por don Antonio, monge beneditino especialista em caminhos.
Concluímos com uma visita turística ao famoso Vale dos Templos de Agrigento, a dois quilómetros da cidade, onde autocarros transportam milhares de turistas e o espírito da peregrinação já está longe.
Caminhar para entrar em contacto com o transcendente
Magna Via Francigena. Fotos © Laura Pisanello / Eugenio Boldon Zanetti / Severino Gatto
Para mais reflexões sobre outras caminhadas, pode ler em italiano I passi che ascolto, de Vincenzo Trichini (Festina Lente Edizioni, 2025). O autor, que partilha reflexões sobre os caminhos de Santiago, Oropa, São Francisco e Via Francigena, anota como num diário: “Encontrar pessoas de diferentes origens e crenças ajuda a refletir sobre as diversidades e a reconhecer-nos como irmãos, habitantes do mesmo planeta. Quantos laços iniciados caminhando se tornam estáveis, criando amizades que continuam ao longo dos anos. Esta dimensão comunitária da peregrinação enriquece a espiritualidade pessoal e deixa uma sensação de gratidão.” E sondando também a dimensão espiritual que o caminho toca, escreve: “Costumo dizer que, para mim, empreender um caminho é como participar num retiro espiritual. Mas não sou só eu que digo isso, muitos peregrinos e viajantes testemunham ter vivido experiências profundas de encontro com Deus. Caminhar é muitas vezes vivido como um acto simbólico e espiritual que permite entrar em contacto com o transcendente, consigo mesmo e com o sentido da vida. É assim que e por que razão um caminho pode tornar-se um lugar privilegiado para encontrar Deus.”
Trichini cita, depois, as palavras de um cardeal conhecido dos portugueses, José Tolentino Mendonça, sobre o significado da mística: “O místico é aquele que descobre que não pode parar de caminhar. Certo do que lhe falta, compreende que cada lugar por onde passa é sempre provisório e que a busca continua. Que deve haver algo mais.”
Magna Via Francigena
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Para mais informações, pode consultar-se www.viefrancigenedisicilia.it ou o bom guia La Magna Via Francigena, Terre di Mezzo edizioni.
Laura Pisanello é jornalista da revista Messaggero dei Ragazzi, de Pádua (Itália).










