
A Revolução antes da Revolução — O ano que mudou a música popular portuguesa, de Luís de Freitas Branco
Qual a probabilidade de juntarmos numa qualquer playlist José Mário Branco e Tonicha, Sérgio Godinho e Duo Ouro Negro, José Afonso e Marco Paulo, ou ainda Amália Rodrigues, Bonga, Paco Bandeira, Adriano Correia de Oliveira, Quim Barreiros e Carlos Paredes? A resposta está no título que se deve dar a essa banda sonora: 1971, o ano da revolução antes da revolução.
Esta proposta é fácil de fazer, argumenta Luís de Freitas Branco, autor de A Revolução antes da Revolução (edição Livros Zigurate), uma obra essencial e cativante, apresentada cronologicamente, mês a mês, sobre a importância de discos gravados e editados nesse ano. Em cada capítulo, que é um mês, as histórias multiplicam-se para, a partir de um disco ou de um evento específico, contar, contextualizar e cantar o Portugal da ditadura.
Os meses demoram-se nas páginas, nas quais Freitas Branco pega na música para entrar na sociedade e na política, das conquistas da angolana Riquita como Miss Portugal, deixando a metrópole de fora, para nos fazer chegar aos meandros da censura, da pequenez de um país cinzento, com bufos ao virar de cada esquina; para nos fazer assistir às emissões de uma RTP reflexo de um país, para nos meter na insurreição dos povos das então colónias de mãos dadas com a música, também eles a fazerem uma revolução antes das suas independências.
Freitas Branco socorre-se do escritor José Cardoso Pires, que do Brasil, em julho de 1971, diz que “em certos momentos da História de alguns países, é justamente nos momentos mais duros, mais dramáticos e com menos liberdade de expressão que se consegue, talvez por reação a isso, produzir obras válidas”. Tal e qual esse ano de 1971, com a censura do Estado Novo de Marcelo Caetano a mostrar-se cada vez mais bruta e pouco dada a subtilezas.
A lista de “obras válidas” que justificam a revolução de que fala o autor é extensa — e é suficiente cingirmo-nos aos títulos que alimentam cada um dos capítulos: Traz Outro Amigo Também, de José Afonso (que é de 1970, mas dá o mote para o livro), Movimento Perpétuo, de Carlos Paredes, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, de José Mário Branco, Os Sobreviventes, de Sérgio Godinho, Blackground, do Duo Ouro Negro, ou Cantigas do Maio, de José Afonso, fechando o círculo.
Nestas páginas, há também o Festival da Canção (e o furacão que era Ary dos Santos), o Festival Vilar de Mouros, que trouxe Elton John e Manfred Mann a uma então desconhecida aldeia minhota por teimosia de um médico, ou o Jazz de Cascais, “o festival que a PIDE não conseguiu prender”, com monstros sagrados do jazz e um vendaval musical e político (Charlie Haden chegou a ser preso por ter dedicado Song for Ché aos movimentos de libertação das colónias).
Pelo meio, há debates constantes sobre a procura da canção portuguesa, entre o cançonetismo, a balada e uma outra coisa nova e entusiasmante, que a imprensa especializada da época antecipa em Zeca, Sérgio e Zé Mário; sobre a música das então colónias que aparecia na Europa sem a mordaça do Estado Novo; sobre a notícia exagerada da morte do rock português, mas que sucumbiria depois aos anos da canção de intervenção; ou sobre o impasse do fado, colado à ditadura, mas também à procura do seu cravo (e temos o retrato de uma Amália opositora, mas que a crítica teimava em não entender), entre o tradicional e a ânsia de arrojo e democracia.
Há ainda uma atenção às palavras que acompanhavam a melodia, e que fizeram chegar a poesia (de nomes maiores da literatura em português do século XX) a muito mais gente, concentrando uma “rebelião em meia dúzia de linhas” – e desassossegando as pessoas. O autor retoma a tensão entre cançonetistas e baladeiros e os outros, notando que a palavra precisava de música, e não bastava a simplicidade dos acordes de baladas. “A supremacia da literatura na canção foi destronada, as transformações culturais reivindicavam uma obra de arte completa, dos pés à cabeça, da melodia aos versos. A reacção surgiu em Paris, a 1500 quilómetros de Portugal, encabeçada pelo produtor José Mário Branco, que se apresentou como a antítese do cinzentismo das baladas, o maestro da cor quente e audácia de Cantigas do Maio, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades e Os Sobreviventes. E o mundo pula e avança.”
É também em Paris que um homem das baladas encontra refúgio, despojado de emprego e salário, perseguido pela PIDE. Francisco Fanhais, padre, faz do púlpito uma tribuna contra a situação. “Alguém ligado à igreja era onde eles menos esperavam que pudesse haver oposição”, recorda o próprio. Saltou para Paris à boleia de José Afonso e seria acolhido por José Mário Branco e Luís Cília [ver entrevista ao 7MARGENS].

O autor é trineto do compositor Luís de Freitas Branco e bisneto do musicólogo João de Freitas Branco. Foto © Livros Zigurate.
É nesta teia intrincada de histórias que se entrelaçam, de nomes que se cruzam, que sobressai o trabalho de pesquisa e investigação de Luís de Freitas Branco, que não se fica por algumas versões mais ou menos conhecidas, antes desvelando um quotidiano nas artes e na política, nos costumes e na música, e resgatando nomes a um profundo esquecimento, de fadistas, cançonetistas, baladeiros — mas também outros músicos que voaram mais alto em termos estéticos, com uma carreira breve (José Almada e Denis Cintra, por exemplo) ou longa, como é o caso de Luís Cília, a merecerem uma revisitação. 1971 é, sobretudo, o ano do “boom de José Mário Branco”, do “disco-renovação de Adriano Correia de Oliveira” e do “disco-revolução de José Afonso”, como resume José Jorge Letria, e de Sérgio Godinho, que ninguém conseguia dizer de onde vinha.
Este é um livro também bem documentado na imagem, com fotografias de músicos, bastidores, concertos e festivais, instantâneos privados, e que nos traz ainda muitas capas de discos quase nada vistos, e raramente ouvidos. Como também aconteceu com as “duas ou três” mulheres do canto de intervenção — onde se fala de Ana Maria Teodósio, Lídia Rita e Rita Olivaes — que o tempo e o machismo não deixaram vingar.
A atenção às histórias leva-nos pelos bastidores da gravação de discos, pela forma como a ditadura se metia no dia-a-dia de todos, com um José Mário Branco em grande sofrimento a sentir-se impotente no exílio de Paris, “não é a vida, nem é a morte”, mas a procurar sempre pontes para a tradição portuguesa. Ou pela inesperada vontade de criar algo diferente, como fizeram Raul Indipwo e Milo MacMahon no seu Duo Ouro Negro, que usaram recolhas folclóricas angolanas do Museu do Dundo. Como assinala Freitas Branco, “nem o inventivo produtor José Mário Branco ousaria utilizar as recolhas de Lopes-Graça e Giacometti numa gravação”.
Cheirava a revolução na música — e no país. Três anos antes de Abril, em Paris, “quatro amigos abraçados”, José Mário Branco, José Afonso, Francisco Fanhais e Carlos “Boris” Correia, “à moda alentejana, um frio de rachar, sobre a gravilha, a arrastar os pés de madrugada, com o técnico de som agachado para captar o instante, em gravação multipista”, apontavam ao regime — e desse registo nasceram os passos de Grândola, Vila Morena. “Era apenas uma canção, um completo tiro no escuro, quem diria, em cheio na ditadura.” Este livro canta a liberdade em todas as linhas e páginas.
A Revolução antes da Revolução — O ano que mudou a música popular portuguesa
Luís de Freitas Branco
Livros Zigurate, 2024, 300 pp., 18,80€










