“Uma corajosa e comprometida defensora da paz” e “uma mulher que mantém a chama da democracia acesa num quadro de crescente escuridão”. É assim que o Comité Nobel define a principal opositora ao regime autoritário venezuelano, Maria Corina Machado, a quem decidiu conceder o Prémio Nobel da Paz de 2025.
O prémio deste ano é também o reconhecimento de todos quantos naquele país latino-americano se têm destacado na luta por eleições livre e justas por via pacífica, escolhendo, no dizer de Corina Machado, “votos em vez das balas”.
Relacionando a luta da líder venezuelana com o prémio agora atribuído, o Comité sublinha, num texto justificativo do galardão, que “a democracia é uma condição prévia para uma paz duradoura”. “No entanto – observa -– vivemos num mundo onde a democracia está em retrocesso, onde cada vez mais regimes autoritários desafiam as normas e recorrem à violência”.
Para o Comité, a repressão do regime venezuelano está longe de ser única no mundo. “Observamos as mesmas tendências globalmente: estado de direito violado por aqueles que o controlam, media livres silenciados, críticos presos e sociedades empurradas para o regime autoritário e a militarização”, nota o texto, alertando para o facto de em 2024 “cada vez menos eleições [terem sido] livres e justas”.

“Corina Machado apresentou-se como candidata à eleição para Presidente da República, em representação de toda a oposição, mas o órgão eleitoral bloqueou a sua candidatura.” Foto retirada da sua página oficial do Facebook.
Sobre a Venezuela, o Comité Nobel recorda o que se passou precisamente em 2024. Corina Machado apresentou-se como candidata à eleição para Presidente da República, em representação de toda a oposição, mas o órgão eleitoral bloqueou a sua candidatura. Ela designou uma outra mulher, que também foi bloqueada. Ela decidiu, então, apoiar o representante de um outro partido, candidatura que foi aceite.
Foram mobilizados muitos milhares de voluntários de diferentes orientações políticas, treinados para acompanharem o escrutínio dos votos e velarem pela transparência do ato eleitoral. “Apesar do risco de assédio, prisão e tortura, cidadãos de todo o país vigiaram as seções eleitorais, garantindo que o apuramento final fosse documentada antes que o regime pudesse destruir as cédulas e mentir sobre o resultado”, acrescenta o comunicado.
O que se passou a seguir foi objeto de grande impacto público. Os dados documentais recolhidos davam conta de uma vitória significativa do candidato apoiado por Maria Corina Machado, enquanto o regime de Nicolas Maduro se declarou vitorioso nas contagens, sem nunca ter apresentado os comprovativos necessários. A líder viu-se forçada a passar à clandestinidade, ao ser perseguida por denunciar a ilegitimidade do regime.
Esta líder tornou-se, assim, mais uma das mulheres e homens corajosos que, através do prémio Nobel da Paz, o respetivo Comité tem vindo a homenagear. São figuras que “resistiram à repressão, que carregaram a esperança de liberdade nas celas das prisões, nas ruas e nas praças públicas, e que demonstraram pelas suas ações que a resistência pacífica pode mudar o mundo”. No caso deste ano, a laureada “uniu a oposição do seu país; nunca vacilou em resistir à militarização da sociedade venezuelana; e tem sido firme no seu apoio a uma transição pacífica para a democracia”.
Comentando esta atribuição, a Casa Branca criticou a decisão do Comité do Prémio Nobel de conceder o galardão da paz a um líder da oposição venezuelana ,em vez de o atribuir ao presidente dos EUA, Donald Trump.
“O presidente Trump continuará a assinar acordos de paz, acabar com guerras e salvar vidas. Ele tem um coração humanitário e nunca haverá ninguém como ele que possa mover montanhas com a força de sua vontade”, disse o porta-voz da Casa Branca, Steven Cheung, num post na plataforma X. “O Comité Nobel mostrou que dá prioridade à política sobre a paz”, acrescentou.

Nicolas Maduro, Presidente venezuelano: “Há um ponto que liga Donald Trump a Corina Machado: a oposição a Nicolas Maduro. Foto: © Eneas De Troya / Wikimedia Commons
Corina Machado, Donald Trump e o Nobel
Maria Corina Machado nasceu em 1967 e é engenheira industrial por formação. De ideias liberais, quer no campo económico quer político, desde há duas décadas, em pleno chavismo, começou a sua luta pela democracia no país. Depois de ter sido eleita deputada com a maior votação obtida por um parlamentar, viu o mandato bloqueado e anulado pelo presidente da Assembleia Nacional por uma discutida ação que colidiria com as funções parlamentares, e impedida de ocupar cargos políticos durante 15 anos. Por esse impedimento viu a sua candidatura a Presidente da República bloqueada por duas vezes, em 2018 e em 2024. O importante reconhecimento internacional que acaba de receber, com a atribuição do Nobel, surpreende-a a viver na clandestinidade, perseguida pelo regime de Maduro.
Ao saberem da notícia, foram muitos e muitas, pelo mundo, aqueles e aquelas que respiraram fundo, receando que o destinatário de 2025 fosse o presidente dos Estados Unidos, que teve a apoiá-lo uma poderosa campanha. E ele próprio não teve problemas em reivindicar (“Se alguém que terminou sete guerras e vai na oitava não merece o prémio, quem merece?”, sugeria ele recentemente).
Há um ponto que o liga a Corina Machado: a oposição a Nicolas Maduro. Porém, não foi pela oposição a Maduro que ela foi laureada, mas pela capacidade de congregar os que querem liberdade e democracia; por resistir à militarização da sociedade; e por defender caminhos pacíficos para as sociedades. Em nenhum destes pontos Trump tem provas consistentes a apresentar.
M.P.
Texto justificativo do Comité do Prémio Nobel da Paz
O Comité Norueguês do Nobel decidiu atribuir o Prémio Nobel da Paz 2025 a Maria Corina Machado.É-lhe atribuído o Prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos para o povo da Venezuela e pela sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia.Enquanto líder do movimento pela democracia na Venezuela, Maria Corina Machado é um dos exemplos mais extraordinários de coragem civil na América Latina nos últimos tempos.Corina Machado tem sido uma figura-chave e unificadora numa oposição política que anteriormente estava profundamente dividida – uma oposição que encontrou um ponto comum na exigência de eleições livres e de um governo representativo. É precisamente isto que está no cerne da democracia: a nossa disposição partilhada para defender os princípios do governo popular, mesmo que discordemos. Numa altura em que a democracia está ameaçada, é mais importante do que nunca defender este ponto em comum.A Venezuela evoluiu de um país relativamente democrático e próspero para um Estado brutal e autoritário que sofre agora uma crise humanitária e económica. A maioria dos venezuelanos vive em extrema pobreza, enquanto os poucos que estão no topo continuam a enriquecer. A máquina violenta do Estado é dirigida contra os próprios cidadãos do país. Quase oito milhões de pessoas abandonaram o país. A oposição tem sido sistematicamente reprimida através de fraude eleitoral, processos judiciais e detenções.O regime autoritário da Venezuela torna o trabalho político extremamente difícil. Como fundadora da Súmate, uma organização dedicada ao desenvolvimento democrático, Corina Machado defende eleições livres e justas há mais de 20 anos. Como ela disse: “Foi uma escolha entre votos e balas”. No seu trabalho político e ao serviço de organizações desde então, Corina Machado tem defendido a independência judicial, os direitos humanos e a representação popular. Ela passou anos a trabalhar pela liberdade do povo venezuelano.Antes das eleições de 2024, Corina Machado era candidata presidencial da oposição, mas o regime bloqueou a sua candidatura. Apoiou então a eleição do representante de outro partido, Edmundo González Urrutia. Centenas de milhares de voluntários mobilizaram-se, independentemente das suas posições políticas. Foram treinados como observadores eleitorais para garantir uma eleição transparente e justa. Apesar do risco de assédio, prisão e tortura, cidadãos de todo o país vigiavam as mesas de voto. Asseguraram que a investigação final fosse documentada antes que o regime pudesse destruir as notas e mentir sobre o resultado.Os esforços da oposição colectiva, tanto antes como durante as eleições, foram inovadores e corajosos, pacíficos e democráticos. A oposição recebeu apoio internacional quando os seus líderes divulgaram as contagens de votos recolhidas nos círculos eleitorais do país, mostrando que a oposição tinha ganho por uma margem clara. Mas o regime recusou-se a aceitar o resultado das eleições e agarrou-se ao poder.A democracia é uma pré-condição para uma paz duradoura. No entanto, vivemos num mundo onde a democracia está em retrocesso, onde cada vez mais regimes autoritários desafiam as normas e recorrem à violência. O domínio rígido do regime venezuelano e a sua repressão sobre a população não são únicos no mundo. Observamos as mesmas tendências a nível global: Estado de direito violado por quem o controla, meios de comunicação livres silenciados, críticos presos e sociedades empurradas para regimes autoritários e para a militarização. Em 2024, realizaram-se mais eleições do que nunca, mas cada vez menos as eleições são livres e justas.Na sua longa história, o Comité Norueguês do Nobel homenageou mulheres e homens corajosos que se levantaram contra a repressão, que transportaram a esperança de liberdade nas celas das prisões, nas ruas e nas praças públicas, e que demonstraram pelas suas ações que a resistência pacífica pode mudar o mundo. No ano passado, Corina Machado foi obrigada a viver escondida. Apesar das graves ameaças contra a sua vida, ela permaneceu no país, uma escolha que inspirou milhões de pessoas.Quando os autoritarismos tomam o poder, é crucial reconhecer os defensores corajosos da liberdade que se levantam e resistem. A democracia depende de pessoas que se recusam a ficar em silêncio, que ousam dar um passo em frente apesar dos graves riscos e que nos recordam que a liberdade nunca deve ser considerada garantida, mas sempre defendida – com palavras, com coragem e com determinação.Maria Corina Machado cumpre os três critérios estabelecidos no testamento de Alfred Nobel para a seleção de um laureado com o Prémio da Paz. Ela uniu a oposição do seu país. Ela nunca vacilou em resistir à militarização da sociedade venezuelana. Ela tem sido firme no seu apoio a uma transição pacífica para a democracia.
Maria Corina Machado demonstrou que as ferramentas da democracia são também as ferramentas da paz. Personifica a esperança de um futuro diferente, onde os direitos fundamentais dos cidadãos sejam protegidos e as suas vozes sejam ouvidas. Nesse futuro, as pessoas serão finalmente livres para viver em paz.










