AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Guilherme d'Oliveira Martins

2022: aprender a construir a paz

papa francisco Patriarca Ecuménico Bartolomeu I e o Arcebispo Ortodoxo de Atenas e toda a Grécia, Ieronymos Foto Vatican Media

Foto: Papa Francisco, Patriarca Ecuménico Bartolomeu I e o Arcebispo Ortodoxo de Atenas e toda a Grécia, Ieronymos. © Vatican Media

 

A Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz de 2022 é expressão de um momento muito forte que atravessamos, numa transição de incerteza e perplexidade. Guerras e conflitos, pandemias, doenças, alterações climáticas, degradação ambiental, fome e sede, consumismo, individualismo, em lugar de partilha solidária – eis o conjunto de preocupações que dominam este início de 2022. Nestes termos, o Papa propõe-nos três caminhos para uma Paz duradoura. Não se trata de apresentar soluções fechadas ou ilusórias, mas de propor caminhos, mobilizando vontades e considerando a prevenção de riscos, não caindo na ilusão de que tudo se vai solucionar por encanto. As dificuldades não se resolverão senão com muito trabalho e empenhamento.

Os três caminhos propostos são: Diálogo entre gerações; Educação como fator de liberdade, responsabilidade e desenvolvimento; e Trabalho para a dignidade humana. Eis as pistas que importa considerar. Só através desse método será possível equacionar a criação de um novo Pacto Social adequado às novas circunstâncias. Enquanto tal não for posto em prática, arriscamo-nos a persistir numa lógica de curto prazo, repetindo os erros de que temos sido vítimas – cegos perante as reais ameaças, surdos relativamente aos apelos dramáticos e mudos quanto à ação indispensável de denúncia das injustiças e desigualdades. Importa, no fundo, recuperar a confiança recíproca. Sem confiança nas pessoas e nas instituições continuaremos a destruição da humanidade e do planeta. Continua a haver o medo dos outros e a ideia de que são sempre os outros culpados pelos erros. E persiste a indiferença relativamente à solidão dos idosos, dos jovens ou das pessoas comuns. A atenção, o cuidado e a solidariedade são mais necessários que nunca.

A educação deve ser motor da paz. A educação para todos proposta pela UNESCO, os objetivos do desenvolvimento sustentável obrigam a um decisivo investimento na aprendizagem – com especial atenção às mulheres, como semeadoras de dignidade e de sentido comunitário. A mulher fala com o seu filho quando ainda está no seu seio, e é tão importante na leitura de uma bula médica, de um poema ou a contar uma história. Por isso, a filha ou o filho de uma mulher alfabetizada não será analfabeta ou analfabeto… E o Papa insiste no investimento na educação e na prevalência da aprendizagem versus armamento e tráfico de droga nos paraísos fiscais – antros de injustiça, de desprezo e de desrespeito pela dignidade das pessoas.

Quando lemos os Evangelhos ou os Atos dos Apóstolos sentimos esse apelo constante, em nome da liberdade e da responsabilidade, da igualdade e da diferença. Se a experiência e o exemplo constituem elementos essenciais da maturidade, devemos valorizar a dignidade do trabalho – já que “promover e assegurar o trabalho constrói a paz”. Releia-se a encíclica Laborem Exercens, de João Paulo II, e compreenda-se como deveremos redobrar atenções relativamente ao respeito dos direitos fundamentais, a combater a precariedade e a tentação, infelizmente tão comum, de pôr em primeiro lugar o ganho imediato, em vez do respeito e salvaguarda da dignidade dos trabalhadores.

Lembremo-nos da lição do Padre Abel Varzim, por vezes tão esquecido, sobre o respeito dos trabalhadores. A covid-19 agravou a situação do mundo do trabalho. Não podemos esquecê-lo. Os direitos sociais, políticos, económicos e culturais devem ser repensados para que sejam realmente cumpridos e respeitados. A justiça como equidade, considerando a realidade complexa que vivemos, tem de estar na ordem do dia, ligando Estado e sociedade. Importa definir missões mobilizadoras, em nome da dignidade e do desenvolvimento humano. A superação da pandemia obriga à entreajuda, à solidariedade e à partilha de responsabilidades entre gerações diferentes.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This