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2025: A banalização do abominável

| 02/03/2025

 

Chegámos a um ponto da história do mundo em que defender a democracia, a decência humana, o respeito pelos outros, a justiça, a liberdade, a proteção dos mais fracos, o direito à privacidade, o protesto contra genocídios, a solidariedade com os invadidos, trucidados, explorados até ao tutano, é considerado “estúpido”. 

Chegámos a um ponto em que vemos uma criança sem rumo com um pai com um rumo muito determinado, apesar de parecer alucinado, dizer a um presidente daquela que considerávamos a nação baluarte da democracia que ele tem de sair dali, da Sala Oval, porque não é ele que manda. 

Chegámos ao ponto de ver a Europa ser humilhada por defender valores democráticos, por defender a liberdade de expressão – a Europa comparada agora à União Soviética por um vice-presidente mais maléfico do que o presidente, provavelmente, porque mais articulado, mais capaz de conversa de salão. Católico – note-se. Católico.

Donald Trump e JD Vance Foto The White House

O Presidente americano, Donald Trump, com o seu vice-presidente, JD Vance. Foto © The White House.

Chegámos ao ponto de haver um presidente que quer comprar países, tornar um país mais um dos estados do seu próprio país, reduzir o primeiro-ministro desse país (o Canadá) a “governador” e ter o desplante de dizer que até gosta do hino canadiano e que permitiria que ele continuasse a ser cantado. 

Chegámos ao ponto de ver esse presidente, qual construtor civil, a olhar para o território para onde foram encurralados milhões de palestinianos como se fosse um lote que vai comprar, retirando “o restolho”, isto é, as ruínas assassinas, e enxotando a população não se sabe para onde (ninguém os quer), de forma a fazer resorts turísticos. 

Chegámos ao ponto de ver esse presidente “deleitado” com um vídeo que se tornou viral, produzido pela IA, sobre um resort em Gaza, com um hotel com o seu nome e uma estátua dourada tão gigantesca quanto a sua soberba. Um paraíso trumpiano, onde chovem notas do céu e o presidente, acompanhado de um outro presidente, bebem cocktails na praia onde, agora, se amontoam milhares de palestinianos, como num êxodo.

Chegámos ao ponto de haver um primeiro-ministro que coloca em segundo lugar (e não em primeiro!) a libertação de reféns, para se manter a todo o custo no poder, na imunidade que o poder lhe dá para não ir preso por corrupção, mesmo que isso faça correr sangue sem fim.  

Chegámos ao ponto de haver um presidente que quer negociar a paz pilhando as riquezas naturais de um país – a Ucrânia – que foi invadido. Chegámos ao ponto de o tal vice-presidente, Vance, dizer a Zelensky, presidente desse país, que ele é “estúpido”, porque não pretende aceitar o negócio, isto é, vender o seu país. 

Chegámos ao ponto de ver Zelensky a ser humilhado na Sala Oval e, com ele, todo o povo ucraniano, numa armadilha montada para o enxovalhar em público por não se vergar à cobiça dos abutres, atingindo-se o limite de lhe ser perguntado por um jornalista se não tinha um fato para a sessão solene com um presidente sem nível.

Chegámos ao ponto de ver o mapa da parte oriental da Alemanha completamente pintado com as cores do partido de extrema-direita, que fala de “re-migração”, um eufemismo para deportação, 80 anos depois da ignomínia. 

Teremos de nos habituar a considerar normal a distopia? Teremos de nos resignar à banalização do abominável? E agora pergunto enquanto cristã católica: do que estamos à espera para dizer que tudo isto é maligno? Vamos fazer a figura dos que não fizeram nada quando a Europa se aproximava do abismo nos anos 30 e 40? Ou vamos ter a coragem de tomar posição e de dizer claramente que basta? Mais que não seja para que não nos aconteça, como aconteceu a essa geração, que os nossos filhos, se chegar o momento de tentar “varrer os cacos”, nos perguntem: “Porque não fizeram nada?”

 

Teresa Toldy é professora universitária de Ética e teóloga; publicou Deus e a Palavra de Deus nas teologias feministas (Paulinas Editora).

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