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2025 – O ano da mulher selvagem

| 01/01/2026

 

A mulher selvagem tomou a minha vida de assalto ou, pelo menos, o meu instagram. Ainda bem, já era tempo de nos reencontrarmos.

Todos nos cruzámos com ela, pelo menos uma vez na vida. Espero bem que sim. Demos por ter entrado no café, pelo qualquer coisa na voz ou na cadência da passada que nos fez instintivamente voltar a cabeça na sua direcção. Transpirava vitalidade por todos os poros, e ocupava cada milímetro cúbico do espaço-tempo que lhe coube habitar. Faro apuradíssimo, e a chave da intuição bem polida e pronta a usar sempre que lhe tentam impingir a treta costumeira do que se deve ser ou parecer. Com toda a educação. Sabe com precisão onde começam e acabam as linhas inegociáveis do contorno de si, pelo que o mundo pode bem resmungar e ir pregar para outra freguesia. É fácil atestar a pureza da selvagem: atrai e repele homens e mulheres em partes iguais. Quanto mais entorpecidos e civilizados estiverem, mais a quererão longe da vista, que infelizmente já não se mandam bruxas para a fogueira.

“A vida selvagem e a Mulher Selvagem são espécies em vias de extinção.” Foto © Marta Saraiva.

A expressão “mulher selvagem” tem-se espalhado internet fora, e muito provavelmente tem origem no livro “Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem” (1992), da analista junguiana, poetisa, e contadora de histórias norte-americana Clarissa Pinkola-Estés. Vale a pena partilhar alguns excertos dos parágrafos iniciais:

“A vida selvagem e a Mulher Selvagem são espécies em vias de extinção.

No decorrer dos tempos, fomos observando sucessivamente a aniquilação, regressão, e destruição da natureza instintiva feminina. Durante longos períodos, esta natureza instintiva foi mal gerida, tal como o foram a vida selvagem e as florestas virgens (…). Ao longo de toda a história, os territórios espirituais da Mulher Selvagem foram condenados ou consumidos, os seus refúgios arrasados e os ciclos naturais forçados a ritmos contranatura para agradar aos outros. (…) A mulher moderna corresponde a um furacão em actividade. Vê-se coagida a agradar a tudo e a toda a gente. Há muito tempo que deixou de usar o conhecimento secular.” O livro é, assim, uma proposta séria para restaurar a “debilitada vitalidade” feminina, através de parte do que sobra desse património espiritual feminino, os contos arquetípicos.

A factura da destruição do nosso habitat cíclico natural e a adaptação forçada ao mundo linear, racional e veloz da modernidade tem vindo a chegar aos poucos. Em doenças auto-imunes, porque o corpo já não aguenta mais a violência a que é sujeito, nas legiões de mulheres que aterram em consultórios com a saúde física, mental e emocional em frangalhos, esgotadas, frustradas com a vida que (não) têm – e quantas não morreram já disso -, e numa falta de vitalidade assustadora, e que é observável a olho nu.

‘Não há um plano ou movimento organizado, apenas cada vez mais mulheres a dizer “não quero nem consigo mais viver assim. Tem de existir outra forma de estar, e vou procurá-la”.’ Foto © Marta Saraiva.

A factura tem um lado mais subtil, e mais danoso. A mulher ocidental moderna é, por definição, uma mulher ferida de morte nos seus instintos. Terão sobrevivido algumas selvagens perdidas nas montanhas, não mais do que isso. Será exagero afirmar que o mundo moderno odeia as mulheres e o feminino, mas convive obviamente mal com tudo o que não controla, e exclui o que não pode ser racionalizado até à neurose. E a parte instintiva e inconsciente da vida não se controla, nem cabe em caixinhas racionalizantes. Acontece que, se não desenvolvermos a intuição ficamos atrofiadas, incompletas… instala-se uma espécie de imaturidade ou inconsciência colectiva, assim como um sono. Quantas meninas de 12 e 14 anos não andam por aí sob a capa de mãe e avó de família, CEO, e líder de equipa… E se mães e avós desaprendem de si, o que passarão às suas filhas e netas, mesmo fazendo o melhor que sabem?

Mas há óptimas notícias: tal qual lince ibérico, a loba está em pleno processo de restauro e recuperação. Não há um plano ou movimento organizado, apenas cada vez mais mulheres a dizer “não quero nem consigo mais viver assim. Tem de existir outra forma de estar, e vou procurá-la”. Procurar no sentido religioso do termo. Intuitivamente, sabemos a resposta, soubemos sempre. Procuramos, numa das expressões mais bonitas do livro, “uma vida feita à mão”, longe do rolo compressor que nos impusemos para sobreviver. Rolo igualmente imposto aos homens, com resultados tão ou mais devastadores, mas o foco hoje é outro.

Essa vida feita à mão passa por recuperar e reconstruir o universo feminino ancestral, e integrá-lo na vida de todos os dias. Não é de estranhar, que haja tanta procura e curiosidade pelo recriar de práticas antigas como os círculos do sagrado feminino, por canto a vozes, dança, rituais de cacau, propostas de medicina natural e holística, constelações familiares… tanta vontade de viver de acordo com a natureza cíclica, com os ciclos das estações, celebrar as avós, as ancestrais, não esquecendo as bruxas, que mais não eram do que curandeiras, ervanárias, parteiras… as guardiãs da sabedoria feminina. Há inúmeras propostas por esse mundo fora, e cada vez mais espaços abertos a retiros e encontros de mil tradições espirituais, sejam elas celtas, orientais ou amazónicas.

“Não há nada de esotérico aqui, é tudo bem físico. Há uma procura espiritual honesta, e bem faminta, e isso vale por si só. Andamos mesmo à procura de qualquer coisa, de um ritmo que nos ressoe e a que teologia e a religião organizada não estão a conseguir dar resposta.” Foto © Marta Saraiva.

Não há nada de esotérico aqui, é tudo bem físico. Há uma procura espiritual honesta, e bem faminta, e isso vale por si só. Andamos mesmo à procura de qualquer coisa, de um ritmo que nos ressoe e a que teologia e a religião organizada não estão a conseguir dar resposta. Não há moldes nem teorias académicas neste percurso, apesar de haver muita pesquisa, muito Jung, e muita antropologia envolvidos. Há essencialmente a experiência e o cansaço acumulado de séculos a pedir para serem escutados e acolhidos. É também um ofício de arqueologia espiritual e emocional, esta procura. De criar o que sempre esteve à nossa espera.

Vai haver excessos e vamos errar, muito. É inevitável. São demasiados anos a viver num espartilho existencial, e é preciso aprender a viver e a andar de outra maneira. Não é possível que um processo de amadurecimento psíquico individual e colectivo, porque é disso que se trata, um processo de adultecimento colectivo que foi sendo deslassado durante séculos, se faça sem quedas, sem tropeços, sem quebras e sem dor. Mas vale a pena, porque continuar a normalizar o que nos mata lentamente não é opção: oiçamo-nos, por uma vez. Faz parte, mas é aí também que entra a misericórdia e se mostra a fibra de que somos feitos.

Chegamos ao fim de 2025 já bem descivilizadinhas, graças a Deus, e tudo indica que 2026 nos devolverá de vez à selva, à floresta, ao mar e ao deserto. É hora de voltar para casa.

 

Marta Saraiva é diplomata.

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