É só uma mudança de data. Mas à conta dela exorcizamos fantasmas, exprimimos desejos, estamos alegres, saudamos familiares e amigos, manifestamos vontades de mudança. Depois, o efeito e os desejos dos brindes passam rapidamente, esquecidos na vertigem do ritmo com que regressamos aos trabalhos, às lides, às preocupações. Ou talvez não…
No mundo, vendo ou lendo as notícias mais destacadas, sentimo-nos impotentes perante mais um desfile de cinismos por parte dos candidatos a imperadores: os Estados Unidos trocam a paz e a humanidade pelos interesses económicos, a Rússia quer ser premiada pela violação do direito internacional e dos mínimos da humanidade, a China brinca aos jogos de guerra à sua porta enquanto expande um poder tentacular e económico pelo mundo fora, provavelmente troçando da forma como Europa se entretem fingindo que ainda tem poder. Depois destes países, mais um conjunto de tiranetes de diferentes quilates – Israel, Índia, Venezuela, Turquia, Bielorrússia, Myanmar, Sudão, Arábia Saudita e um longo etc. – espezinham direitos e a dignidade humana, fazem retroceder a democracia e a liberdade, escolhem caminhos de destruição do planeta e de profundas injustiças económicas.
Apesar de tudo isso, contra tudo isso, milhões de pessoas lutam, em todo o mundo, por uma vida mais digna, mais justa e mais humana. Promovem o amor contra os ódios, a não-violência contra as guerras, a humanidade contra os tiranos e os ditadores, as mãos dadas contra o crescimento do fascismo e da exclusão, a sobriedade contra o consumismo de muitos e a fome de milhões, o cuidado contra a destruição do planeta e a exclusão de tantas pessoas.
Muitas delas são animadas pela fé que professam, pelo Deus que dizem habitá-las ou por uma espiritualidade que recusa tudo reduzir ao que apenas se vê.
Numa das suas músicas, o italiano Roberto Vecchioni pede “Sonha, rapaz, sonha”:
“E dir-te-ão palavras vermelhas como o sangue, negras como a noite
Mas não é verdade, rapaz, que a razão esteja sempre com os mais fortes
Eu conheço poetas que movem rios com os seus pensamentos
E marinheiros sem fim que conseguem falar com o céu.
Nenhum reino é maior do que esta pequena coisa que é a vida
A vida é tão grande que quando estiveres prestes a morrer
Plantarás uma oliveira, ainda convencido de que a verás florescer…”
No 7MARGENS, acreditamos que as “palavras vermelhas como o sangue, negras como a noite” não terão a última palavra. Tudo faremos para mostrar que a Vida é tão grande, que ainda plantaremos oliveiras – incluindo em Gaza e na Cisjordânia, onde elas têm sido destruídas, como forma de aprofundar o genocídio.
Um bom ano de 2026 para todas as pessoas que nos lêem e nos apoiam.










