Cinema

217 minutos de espanto, comoção e nostalgia

| 8 Mar 2022

O documentário O Professor Bachmann e a Sua Turma.

O documentário O Professor Bachmann e a Sua Turma. Foto: Direitos reservados.

 

“Eu, disse o principezinho para consigo (na conversa com o comerciante de pílulas aperfeiçoadas para acalmar a sede), se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, o que fazia era dirigir-me devagarinho para uma fonte…”

Pois bem, quem tiver duzentos e dezassete minutos para gastar – se ainda for a tempo, que este tipo de filmes passa demasiado depressa – faça o favor de sentar-se e olhar este filme. De facto, não se trata propriamente de um filme – não é ficção, é um documentário filmado numa escola real, com este professor e estes alunos e tudo o que anda à volta de um ano escolar.

O professor é Dieter Bachmann, os alunos são todos filhos e filhas de imigrantes (uns já nascidos na Alemanha, outros não), vindos de muitos países (Turquia, Rússia, Bulgária, Brasil…) e a escola fica na cidade de Stadtallendorf. Uma cidade com uma história muito curiosa e interessante, que também é explicada no filme-documentário (realizado por Maria Speth e apresentado na Berlinale de 2021).

Não se trata de propor uma grande reflexão sobre pedagogia – ainda que o filme seja altamente pedagógico – ou de interrogar o modo como se ensina, mas tão só de mostrar como aquele professor, tendo diante de si aqueles adolescentes tão diferentes (na origem, na educação, na cultura, na personalidade…), os acompanha e os faz crescer, para que eles possam – depois daquele ano – prosseguir os seus estudos na ‘escola normal’, digamos assim. E é esse trabalho que é incrível, espantoso, comovente e nostálgico. 

A nostalgia é minha porque sempre me fascinou a relação educativa. Sim, eu conheço aquela frase de Paulo Freire: “Ninguém ensina ninguém” e entendo o que ele quer dizer. Educar, como nos ensina a origem latina da palavra é “trazer para fora”. Não se trata de pegar num funil e encher a cabeça dos alunos com matérias, mas de pegar no cinzel (acontece realmente no filme, no atelier de um escultor) e mostrar a beleza que está escondida dentro de cada um e cada uma. É isso que o professor Bachmann faz, com muita arte, muita paciência, muitas experiências diferentes, com muita dedicação e amor, com muita proximidade e autoridade. É um professor que faz muitas perguntas, não para avaliar e dar notas – ele sabe como isso é redutor –, mas para que cada um e cada uma seja “obrigado” a encontrar as razões para as suas afirmações, a duvidar do que diz e do que faz, e descubra que talvez deva mudar. Entre outras, talvez a cena mais paradigmática seja o diálogo – depois de uma canção que falava disso – sobre a homossexualidade, com todos, mas sobretudo com uma das raparigas mais luminosas e interventivas. Ele só faz perguntas para “obrigar” a pensar e ela acaba a sair da sala com um “não sei…”

Aquela sala de aula parece a sala de estar de uma casa de família, e tudo pode acontecer ali, desde cantar e fazer música, cozinhar, descansar, conversar em roda, receber as famílias. O que importa é a participação de todos, no maior respeito pela identidade de cada um; é a descoberta da solidariedade, da entreajuda, da liberdade, do trabalho, da alegria, do lutar pelo que se sonha, da História também.

Muitos verão aqui – a própria realizadora o refere – um “bom exercício de democracia”, que é verdadeiramente importante. Eu, no contexto sinodal que estamos a viver [na Igreja Católica] e especialmente interessado (para não dizer preocupado) em aprender como escutar todos, e as crianças e adolescentes em particular, vi nestes duzentos e dezassete minutos de palavras e imagens um magnífico exercício de sinodalidade, de capacidade e arte para escutar, para falar e ser escutado.

Nostalgia outra vez: quem me dera ter essa capacidade, quem me dera que a catequese que fazemos tivesse alguma semelhança com esta experiência.

O Professor Bachmann e a Sua Turma
Título original: Herr Bachmann und seine Klasse, de Maria Speth
Argumento: Maria Speth, Reinhold Vorschneider
Fotografia: Reinhold Vorschneider
Montagem: Maria Speth
Som: Oliver Göbel, Niklas Kammertöns
Documentário, M/12, Ale., 2021, Cores, 217 min.

Ver trailer aqui: https://medeiafilmes.com/filmes/o-professor-bachmann-e-a-sua-turma-2021

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar). Texto publicado no número de Março da revista Mensageiro de Santo António.

 

Judeus do Partido Trabalhista atacam política de Israel

Reino Unido

Judeus do Partido Trabalhista atacam política de Israel novidade

Glyn Secker, secretário da Jewish Voice For Labor – uma organização que reúne judeus membros do Partido Trabalhista ­–, lançou um violento ataque aos “judeus que colocam Israel no centro da sua identidade” e classificou o sionismo como “uma obscenidade” ao discursar no dia 10 diante de Downing Street, durante um protesto contra os ataques de Israel na faixa de Gaza.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Evento "importantíssimo" para o país

Governo assume despesas da JMJ que Moedas recusou

A ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, chegou a acordo com o presidente da Câmara de Lisboa sobre as Jornadas Mundiais da Juventude, comprometendo-se a – tal como exigia agora Carlos Moedas – assumir mais despesa do evento do que aquela que estava inicialmente prevista, noticiou o Expresso esta quarta-feira, 3.

Multiplicar o número de leitores do 7MARGENS

Em 15 dias, 90 novos assinantes

Durante o mês de julho o 7MARGENS registou 90 novos leitores-assinantes, em resultado do nosso apelo para que cada leitor trouxesse outro assinante. Deste modo, a Newsletter diária passou a ser enviada a 2.863 pessoas. Estamos ainda muto longe de duplicar o número de assinantes e chegar aos 5.000, pelo que mantemos o apelo feito a 18 de julho: que cada leitor consiga trazer outro.

Parceria com Global Tree

JMJ promove plantação de árvores

A Fundação Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 e a Global Tree Initiative estabeleceram uma parceria com o objectivo de levar os participantes e responsáveis da organização da jornada a plantar árvores. A iniciativa pretende ser uma forma de assinalar o Dia Mundial da Conservação da Natureza, que se assinala nesta quinta-feira, 28 de julho.

Representante dos sobreviventes de Nagasaki solidário com a Ucrânia

Nos 77 anos do ataque atómico

Representante dos sobreviventes de Nagasaki solidário com a Ucrânia

“Apelo a todos os membros” do Parlamento japonês, “bem como aos membros dos conselhos municipais e provinciais” para que se “encontrem com os hibakusha (sobreviventes da bomba atómica), ouçam como eles sofreram, aprendam a verdade sobre o bombardeio atómico e transmitam o que aprenderem ao mundo”, escreve, numa carta lida nas cerimónias dos 77 anos do ataque atómico sobre Nagasaki, por um dos seus sobreviventes, Takashi Miyata.

Mar Egeu: dezenas de pessoas desaparecidas em naufrágio

Resgatadas 29 pessoas

Mar Egeu: dezenas de pessoas desaparecidas em naufrágio

Dezenas de pessoas estão desaparecidas depois de um barco ter naufragado no mar Egeu, na quarta-feira, ao largo da ilha grega de Cárpatos, divulgou a ACNUR. A embarcação afundou-se ao amanhecer, depois de da costa sul da vizinha Turquia, em direção a Itália. “Uma grande operação de busca e resgate está em curso.”

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This