25 anos do Nós Somos Igreja: Transformação 

| 5 Out 2021

 

Em memória de Ana Vicente

Para dar a conhecer, aqui vai um bom motivo de celebração, de memória, de data a saber que existiu e é bom que tenha existido. Festejamos no dia 12 de outubro os 25 anos do Movimento Nós Somos Igreja – Portugal. Nós, Povo de Deus, os batizados, que somos Igreja, na diversa e universal aceção de o ser. Católicos na fé, na vontade, na esperança, de que a reforma da Igreja seja a palavra do Evangelho, a palavra que a toda a hora e todos os dias, no tempo que vivemos, tem sido pronunciada, sentida, proclamada pela voz do Papa Francisco.  

Nesse mês de outubro de 1997, o Papa João Paulo II fazia a sua terceira viagem ao Brasil, dois milhões de pessoas foram multidão no Rio de Janeiro para o Encontro de Famílias. E quase em simultâneo, nascia em Portugal o Movimento Nós Somos Igreja. Concebido na Áustria por um grupo de católicos em 1995, crescendo entre cristãos crentes desejosos de possível transformação, foram então também dois milhões as assinaturas recolhidas em países diversos, por essa causa de reforma e renovação. Em apoio à “Petição do Povo de Deus”, o documento foi formalmente entregue à Santa Sé. Concretizava-se o IMWAC: International Movement We Are Church. E em nome de Portugal, em Roma, nesse momento e a tempo inteiro, estiveram Ana Vicente, Maria João Sande Lemos e Vítor Sousa. 

Em cinco pontos, a petição permanece como projeto de atitude e de vida. De testemunho e intervenção. Em dezenas de movimentos, em dezenas de países existem e atuam conscientes cristãos que pensam, contestam, apoiam, nas suas comunidades e no seu cotidiano debatem, discutem, tomam posição em face do mundo real. Além da metáfora ou do circuito fechado no conforto da cegueira ou do mecânico ritual de obediência aos gestos e preceitos, estes cristãos existem. 

São cinco os pontos da Petição que é a carta de princípios do Nós Somos Igreja, como na época foram formulados, e que hoje, naturalmente ganham diferente, maior e melhor expressão: 1 – Desejamos uma Igreja fraterna. 2 – Uma Igreja que tenha uma nova atitude face às mulheres. 3 – Uma Igreja de reflexão sobre os ministérios ordenados. 4 – Uma Igreja que valorize a sexualidade. 5 – Uma Igreja que cuide da Natureza, da justiça social, das várias formas de violência, que atenda aos mais frágeis.  

Laudato Si’, em junho de 2015, com a diversidade e a expressão de júbilo, pode ser exemplo de envolvimento do NSI Portugal na pastoral do Papa Francisco e a intuição de reformas possíveis na Igreja. A encíclica foi recebida pelo NSI pela universalidade tão contemporânea do Papa, quando se pronuncia sobre o meio ambiente, Casa Comum evocada num dos cinco pontos da Petição. Em carta, é também referida a criação do Tribunal Eclesiástico para os crimes de pedofilia, coordenado pela Congregação para a Doutrina da Fé. Há o reconhecimento do martírio e beatificação de D. Óscar Romero, arcebispo de S. Salvador, assassinado em 1980. E há o elogio ao Papa Francisco, por admitir que algumas separações de casais são inevitáveis, por condenar a violência doméstica, por proteger as crianças e todas as vítimas de violência. O NSI lamenta, neste contexto, que a Conferência Episcopal nunca então se tenha manifestado sobre estes temas. 

Entre muitos outros momentos, também pelo NSI Portugal foi celebrado o primeiro aniversário do pontificado de Bento XVI, e foi divulgado o seu discurso aos bispos portugueses  em visita ad limina  a Roma, assim como o seu Motu Proprio sobre a liturgia em latim. Foi conhecida a carta de D. José Policarpo aos padres de Lisboa. Foram debatidos os 40 anos da encíclica Humanae Vitae, que condena o uso de contracetivos. Foi enviada uma carta a Bento XVI sobre o celibato obrigatório dos padres. Foram comentados os 50 anos da encíclica Pacem in Terris.

Em 25 anos, foram muitíssimos os acontecimentos concebidos, criados, organizados, promovidos pelo NSI Portugal. Documentos sobre o Sínodo de 2001, comunicação constante com os bispos, comentários sobre notícias, pedidos de esclarecimento, apelos. Conferências, debates, encontros, cartas escritas, comunicados enviados. Posições assumidas, críticas, sugestões, reconhecimento, sinais de esperança no entusiasmo ou de desalento, cru e corajoso na expressão. Nem sempre entendido ou recebido de bons modos pela hierarquia estabelecida.  

Houve representação nossa em reuniões do IMWAC sobre temas de fundo: o celibato obrigatório, as questões de género nos ministérios ordenados, o casamento. As ditaduras, a injustiça, a desigualdade social e económica, a precariedade, a perseguição aos cristãos. A Teologia da Libertação na América Latina. Estivemos presentes em Roma, pelos 50 anos de encerramento do Concílio Vaticano II, em 8 de dezembro de 2015.  E também, em outras ocasiões, na Irlanda, Bruxelas, Munique, Estrasburgo, Innsbruck, Londres, Amsterdão. 

Ao longo do tempo, no NSI Portugal muitas vozes, figuras públicas de sabedoria e variadas sensibilidades participaram nas suas iniciativas. Frei Bento Domingues, José Tolentino Mendonça, frei José Nunes, mons. Vítor Feytor Pinto, Manuela Silva, Maria da Conceição Moita, Maria Julieta Mendes Dias, Teresa Toldy, Guilherme D’ Oliveira Martins, Maria de Belém Roseira, António Marujo, Maria do Rosário Carneiro, Cesário Borga, frei Mateus Peres, Emília Nadal, Alfreda Ferreira da Fonseca, Maria João Sande Lemos, Piedade Pinto Correia, Pedro J. Freitas, Margarida Pereira- Muller, Ana Sara Brito, Irene Flunser Pimentel, Luís Osório, Alice Vieira, Miguel Oliveira e Silva, Catarina Albuquerque, Luísa Schmidt. O bispo Jacques Gaillot, frei Timothy Radcliffe, Juan José Tamoyo, Victorino Peres. E mais. E mais.

Vinte e cinco anos depois, sinais de transformação se anunciam. Há que acreditar em esperança. Mas a inquietação permanece. A palavra do Papa Francisco atravessa o mundo. Alvoroçado mundo.

Leonor Xavier é escritora e autora, entre outros, de Passageiro Clandestino e Há Laranjeiras em Atenas. 

 

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