25 de Abril sempre! Mesmo (e sobretudo) em tempo de pandemia

| 24 Abr 20

Foto © Wikipedia

 

Não há um estudo científico, mas não estaríamos a mentir se disséssemos que nunca como este ano chegaram tantas informações de iniciativas para celebrar o Dia da Liberdade. Dos municípios aos museus, passando por ONGs, companhias de teatro e IPSS – sem esquecer a Assembleia da República, cuja sessão terá provavelmente uma excelente audiência depois de toda a polémica que a envolveu – a lista é quase interminável. E original. Em tempo de pandemia, 46 anos depois da revolução, este será um 25 de abril em grande parte virtual, mas com uma vontade bem real de muitas pessoas em celebrarem e estarem juntas.

Para Carlos Jalali, investigador em Ciência Política da Universidade de Aveiro, esta vontade de celebração pode ser potenciada, precisamente, pelo próprio contexto de pandemia em que nos encontramos. “Neste contexto, as pessoas sentem uma grande necessidade de ligação com os outros pelas vias que estão disponíveis, no espaço online. As próprias instituições e autarquias veem aqui uma oportunidade de gerar espaços para estabelecer essa ligação”, explica o politólogo, em declarações ao 7MARGENS.

A necessidade de celebração do 25 de Abril não está necessariamente ligada, na opinião do professor de Ciência Política, ao facto de, devido ao confinamento, as pessoas valorizarem ainda mais o seu direito à liberdade. “Mas é verdade que, apesar de o estado de emergência estar muito longe daquilo que foi o contexto antes do 25 de Abril, esta é uma data que tem essa questão simbólica [da liberdade] associada”, sublinha.

Marina Costa Lobo, investigadora do Instituto de Ciências Sociais (ICS) de Lisboa, considera que “sentimos o 25 de abril em particular, hoje, porque abril significa liberdade, e esta pandemia retirou-nos a liberdade. Ainda que provisoriamente. Por isso celebramos ainda mais o 25 de Abril desta vez.” E acrescenta: “Todos sentimos que esta pode ser uma crise com consequências graves, e isso, a prazo, pode ter consequências políticas. Por isso, há que afirmar a defesa da democracia.”

A também coordenadora do Observatório da Qualidade da Democracia no ICS estabelece uma relação possível entre os rituais religiosos e as formas celebrativas da política: “Os rituais são comuns na política e na religião porque são uma forma de dialogar com o sagrado – a fé e a busca da liberdade, a defesa de um mundo melhor, à sua maneira – e, para convocar os cidadãos para essas práticas sociais, há que instituir rituais” que mobilizem as pessoas.

E se, mesmo em estado de emergência, a liberdade e os restantes direitos dos cidadãos tendem a ser preservados, nem por isso a “educação para os direitos humanos” deixa de ser essencial. É por isso que a Amnistia Internacional Portugal propõe celebrar este Dia da Liberdade com um conjunto de atividades para ensinar aos mais novos (e também a muitos mais velhos) algumas das conquistas de abril, sejam elas a liberdade de imprensa (com a atividade “Jornalistas do Futuro”) ou uma sociedade mais justa (com um divertido jogo de dados e fichas).

Há propostas para todos os gostos, para todas as idades, para fazer sozinho ou acompanhado, e para muito mais do que um dia: assistir a conferências ted talks sobre a discriminação, fazer caças ao tesouro para descobrir o quão preciosos são os direitos humanos, realizar expedições virtuais que permitem conhecer locais onde, além de Portugal, já se fez história na conquista desses direitos, ou ver uma série de TV produzida pela própria Amnistia, que nos inspira a lutarmos por uma sociedade melhor. Tudo sem sair de casa.

 

Estreias de teatro e inauguração de exposições

Se tiver um computador ou telemóvel com acesso à Internet, será possível visitar exposições e assistir a peças de teatro preparadas especialmente a pensar neste dia. “Agora que não podemos estar juntos” é apenas uma deles: trata-se de uma obra em vídeo que surgiu do desafio colocado pelo primeiro-ministro, António Costa, aos diretores dos teatros nacionais. Produzido pela Companhia Hotel Europa, reconhecida pelo seu trabalho na área do teatro documental, o vídeo foi gravado nos jardins da residência oficial do primeiro-ministro, onde habitualmente se realizam as comemorações do 25 de Abril, e será apresentado nesse mesmo dia, às 15h30, através das contas de Facebook e Twitter do Governo.

O Teatro Viriato, em Viseu, assinala também esta data com uma programação especial, na qual se destaca a estreia de “E naquele dia saímos para uma cidade lavada e livre”, uma performance duracional do Teatro do Vestido construída propositadamente para este dia, e que será apresentada “de assalto” em várias plataformas digitais.

Para os que preferem uma exposição, este sábado poderão ir à inauguração de pelo menos duas, dedicadas à revolução dos cravos. Uma no site do Mira Forum, onde estará patente uma coleção de 21 fotografias inéditas do fotojornalista Alfredo Cunha, tiradas em Lisboa no dia 25 de abril de 1974. A outra, na página do Museu Nacional da Imprensa, reunindo diversos artigos que foram alvo da censura pré-revolução.

 

Música, muita música

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Uma parte do “manual de instruções” divulgado pelo Bloco de Esquerda para cantar Grândola, Vila Morena à janela

 

E se, ao contrário do habitual, não há palcos montados nas ruas, isso não significa que não haja música. Tendo como ponto de partida o tema da liberdade, um grupo de artistas preparou uma canção “especialmente para esta data”, refere a Bairro da Música, agente de vários músicos portugueses. São eles Jorge Palma, Zeca Medeiros, Joana Alegre, Blind Zero, Vicente Palma, Rui David, Pedro Moutinho e The Happy Mess, que vão atuar nas suas redes sociais esta sexta-feira e sábado.

Também esta sexta-feira, 24, pelas 22h35, Paulo de Carvalho dá um espetáculo para a Marinha Grande, transmitido na página de Facebook da autarquia. Em simultâneo, nas redes sociais da Câmara de Oeiras, há atuações de Sérgio Godinho, Mário Laginha, Kátia Guerreiro, entre outros. A autarquia de Almada não faz a festa por menos: transmitirá concertos ao vivo, todas as noites, entre 25 de abril e 1 de maio. Passarão pelo Facebook da autarquia músicos como Marisa Liz, Amélia Muge e Carlão.

E por falar em música, a Associação 25 de Abril e o Bloco de Esquerda (BE) lançaram um desafio a todos os portugueses: que, às 15 horas de sábado, 25, abram as janelas de par em par, ponham a tocar Grândola, Vila Morena e cantem a plenos pulmões. Para quem não sabe de cor o tema que funcionou como segunda senha da revolução, o BE criou até um manual de instruções, que disponibilizou no site do partido, com a letra completa da canção e divertidas dicas para que a interpretação corra o melhor possível. A iniciativa, que é subscrita por mais de trinta associações, confederações, sindicatos, autarquias e partidos políticos (BE, Livre, PCP, Os Verdes, POUS e PS), estende-se também a quem estiver a trabalhar e ainda aos media, para que transmitam a música à mesma hora.

 

Homenagear as vítimas e os heróis da pandemia

Na noite de sexta-feira, às 22h55, há uma primeira chamada para ir à janela, destinada apenas aos residentes no Funchal: a autarquia preparou um espetáculo de luz e cor nos céus da capital do arquipélago da Madeira, que se inicia precisamente à hora em que, há 46 anos, passou na Rádio Renascença, o tema E Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho, a senha que dava início à revolução.

Postal alusivo ao 25 de Abril

Postal alusivo ao 25 de Abril. Ilustração de Daniela Gonçalves, aluna do Colégio Luso-Internacional de Braga, para distribuir a pessoas beneficiárias de apoio de refeições que um grupo de voluntários tem organizado.

A mesma canção, à mesma hora, dará início às celebrações do município de Melgaço, na página de Facebook da autarquia. Mas, entre os vários momentos musicais previstos, o município vai aproveitar a data especial para hastear, com transmissão online, a bandeira nacional, convidando todos os munícipes a acompanhar esse momento e a fazer um minuto de silêncio pelas vítimas mortais de covid-19.

Também a Câmara Municipal da Guarda preparou uma homenagem para este dia, com a entrega de 46 cravos e de uma placa de agradecimento à Unidade Local de Saúde, à PSP, à GNR e aos Bombeiros Voluntários do concelho, em sinal de agradecimento pelos serviços prestados à população no combate à pandemia da covid-19, que será transmitida nas redes sociais do município.

 

Poesia, música e um postal para quem está offline

Para quem não está online, e nem sequer tem vontade de ligar a televisão, onde a sessão comemorativa da Assembleia da República se realiza a partir das 10 horas, será mesmo assim difícil ignorar que é Dia da Liberdade. Na Covilhã, a Câmara Municipal terá a circular pelo concelho durante o dia de sábado uma viatura com altifalante a transmitir poemas de abril. Em Castelo Branco, em vez de poemas serão canções. Em Lisboa, diversas juntas de freguesia decidiram surpreender os moradores: esta sexta-feira, deixaram um cravo em cada caixa de correio.

Surpreendidos serão também os beneficiários do programa de ajuda alimentar do Colégio Luso-Internacional de Braga. Um grupo de voluntários ligados à escola, que inclui vários refugiados, distribui mais de 300 refeições por dia a pessoas com carência económica em tempo de pandemia. Agora, unem-se às celebrações do 25 de abril e, no dia, com cada uma das refeições, entregarão um cravo de papel e um postal com um desenho feito por uma aluna do colégio, que inclui um poema de Manuel Alegre. Um gesto que “é mais uma forma de a instituição se ligar às pessoas, além da comida que lhes leva”, conclui o investigador Carlos Jalali.

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