3 Milhões de Nós: outra linguagem para chegar a mais pessoas

| 14 Nov 18

O encontro 3 Milhões de Nós pretendeu renovar a linguagem para aproximar a mensagem cristã dos jovens
 
“Eu fiz a escola primária num colégio de freiras vicentinas, depois estudei num colégio de padres franciscanos; depois, então, estudei num colégio de padres jesuítas e, no fim, Universidade Católica. Muitas vezes as pessoas perguntam-me se é por isso que eu sou ateu. E não é: eu sou ateu apesar disso.”
Foi assim que, entre muitas gargalhadas, o humorista Ricardo Araújo Pereira começou a sua intervenção no encontro 3 Milhões de Nós, que encheu a Aula Magna, em Lisboa. Sábado passado, 10 de Novembro, cerca de 1700 pessoas – jovens, na maior parte – ouviram um conjunto de convidados a falar sobre temas como a espiritualidade, o mundo do trabalho ou a família. O título da iniciativa remete para o facto de, em Portugal, haver cerca de três milhões de pessoas com menos de 25 anos, que o encontro pretendia atingir, com criatividade e novas linguagens, como diria a irmã Núria Frau, responsável da iniciativa. 
O humorista falou sobre viver a espiritualidade sem fé, partindo da sua experiência de, não sendo crente, ter frequentado escolas católicas. Destacou o impacto que para ele teve o “padre Joaquim”, um professor de Português do colégio dos padres franciscanos. Recentemente falecido, a sua recordação emocionou o fundador dos Gato Fedorento. Ricardo Araújo Pereira acrescentou que, enquanto ateu, está sempre a pensar no fim da vida e na sua finalidade ou propósito. Mas que, apesar disso, se considerava semelhante a quem tem fé: todos estão “à procura: não acredito em Cristo, mas acredito nos cristãos”. 
 
 

Um painel com frases escritas pelos participantes, no qual a frase de Ricardo Araújo Pereira foi reproduzida

 
 
Acerca da experiência de ter fé falou também Zohora Pirbhai, da Comunidade Ismaili de Lisboa, um dos grupos muçulmanos mais importantes. A oradora pretendia dar outra perspetiva acerca do Islão. Assumindo-se como feminista e islâmica, salientou que, no seu modo de entender o seu islão, os dois conceitos não se excluem mutuamente.
 
 
Portugal “resiste à crise de fé”
 
Da experiência cristã falou o padre jesuíta Pedro Rocha Mendes, para quem os jovens continuam a tentar preencher a vida com algo mais: “O mundo em que vivemos”, virtual, descartável e instantâneo, como caracterizou, “está voltado para a satisfação imediata, mas todos nos apercebemos que a satisfação não gera felicidade, mas sim, mais insatisfação.” 
O padre Rocha Mendes acrescentou: “A melhor metáfora é a doslikesno Instagram ou no Facebook: quando alcanço os 1500, quero atingir os 2000 ou os 3000. E sentimos falta de alegrias que não sejam passageiras. E isso vem de viver a nossa vida segundo valores em que acreditamos: bondade, justiça e verdade.” O jesuíta apresentou três hipóteses para Portugal ter ainda um número tão elevado de jovens que se identificam como católicos: a ideia de que “resistimos a tudo” – até mesmo à secularização – e de que “somos tão maus que nem nisto do secularismo somos bons”. Ou ainda, a ideia de que a crise de fé ainda não atingiu Portugal, “porque estamos sempre atrasados”. No final, ainda propôs uma quarta alternativa: a crise de fé está a decorrer, mas Portugal está a resistir. 
Da parte da tarde, em vários painéis de debate, jovens, professores, educadores e pais refletiram sobre temas diversos. No painel sobre o voluntariado – que teve lotação esgotada – Catarina Furtado, apresentadora e responsável da organização Corações com Coroa, moderou uma conversa entre três coordenadores de diferentes tipos de trabalho voluntário. 
 

Debate sobre o voluntariado: tentar ver para lá das aparências e das emoções descartáveis

 

Filipe Fonseca falou dos voluntários de proximidade, aqueles que, no dia-a-dia, ajudam no trabalho, na rua, no metro, tentando ver “para lá das aparências e das emoções descartáveis”. Simão Oom referiu-se à remodelação de casas e vidas, o trabalho da organização Just A Change, para pessoas que não o conseguem fazer. E disse, brincando: “Isto não é o programa Querido Mudei a Casa, em que as pessoas vão embora da casa” e, quando voltam, a mudança está feita. Com os processos da Just a Change, “as pessoas estão idealmente envolvidas no processo de remodelação, ajudando como podem, nem que seja a oferecer lanche aos voluntários e, assim, criam-se laços.”

 

Ir. Núria Frau: “Se a Igreja usar outra linguagem e outra criatividade, também consegue chegar a mais pessoas.”

 

Uma das responsáveis da iniciativa, a irmã Núria Frau, da Família Missionária Verbum Dei, ficou contente com os resultados. As suas expectativas para o dia prendiam-se mais com o bem que se podia fazer a partir do encontro: se “isto ajuda Jesus, se isto ajuda as pessoas e se as faz crescer”. E afirmava: “É uma graça indiscutível que as pessoas tenham respondido. Sinto que houve uma boa resposta e isso é sinal de que há necessidade. Se a Igreja usar outra linguagem e outra criatividade, também consegue chegar a mais pessoas. Porque a dificuldade é oferecer às pessoas o que elas precisam na linguagem que usam e respondendo à necessidade que sentem.”

Breves

Boas notícias

Outras margens

Cultura e artes

As causas que sobrevivem às coisas

O Portugal de A Causa das Coisas e de Os Meus Problemas, publicados nos anos 80, fazem sentido neste século XXI? Miguel Esteves Cardoso ainda nos diz quem e o que somos nós? Haverá coisas que hoje se estranham, nomes fora de tempo, outras que já desapareceram ou caíram em desuso. Já as causas permanecem. Pretexto para uma revisitação a crónicas imperdíveis, agora reeditadas.

Carta a Filémon

A liberdade enquanto caminho espiritual

A Epístola a Filémon – um dos mais pequenos escritos do Novo Testamento – constitui o estímulo e o contexto para uma bela reflexão sobre a vivência da liberdade enquanto caminho espiritual. Adrien Candiard – dominicano francês a residir na cidade do Cairo – consegue em breves páginas apresentar um exercício de leitura rico e incisivo sobre a qualidade da vida cristã, mantendo um tom coloquial próprio do contexto de pequenos grupos nos quais este livro encontrou a sua origem.

O filme de Almodóvar

As dores para dar à luz a verdade

Fique dito, desde já, que estamos perante um dos melhores e mais amadurecidos filmes de Almodóvar. Intenso como outros, magnificamente construído e filmado como é habitual, talvez mais profundamente moral do que muitos, Mães Paralelas é um filme tecido de segredos íntimos e dolorosos, à volta da maternidade, mas também da Guerra Civil espanhola. No centro, esplendorosa, está Penélope Cruz.

Pessoas

Sete Partidas

Ser pai no inverno da Estónia

Estou a viver na Estónia há oito anos e fui pai recentemente. Vim para aqui estudar e, como acontece a muitos outros portugueses espalhados por esse mundo, apaixonei-me por uma mulher deste país, arranjei trabalho, casei e o mais recente capítulo da minha história é o nascimento do meu filho, no mês de dezembro de 2021.

Visto e Ouvido

Agenda

[ai1ec view=”agenda”]

Ver todas as datas

Entre margens

Viver no ritmo certo novidade

Enquanto pensava no que iria escrever este mês, havia uma palavra que não saía da minha mente: “descanso”. Obtive a confirmação desta quando, por coincidência ou não, este foi o tema escolhido pela Aliança Evangélica Europeia para a sua semana universal de oração, realizada de 9 a 16 de janeiro de 2022. Os líderes evangélicos apelam a que todos possam viver no ritmo de Deus porque estamos a ser engolidos por uma onda de homens e mulheres sobrecarregados, completamente esgotados e sem força para lutar mais pela vida.

Uma Teofania nos corações humanos

A Epifania é celebrada pelas Igrejas Ortodoxas a 6 de Janeiro no calendário Juliano (19 no calendário Gregoriano), 12 dias após a Festa do Natal. A banalização da festa do Natal inscreveu-a no imaginário do espírito humano, sobrevalorizando-o e operando a sua dessacralização em detrimento do Espírito de Deus.

2022: aprender a construir a paz

A Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz de 2022 é expressão de um momento muito forte que atravessamos, numa transição de incerteza e perplexidade. Guerras e conflitos, pandemias, doenças, alterações climáticas, degradação ambiental, fome e sede, consumismo, individualismo, em lugar de partilha solidária – eis o conjunto de preocupações que dominam este início de 2022. Nestes termos, o Papa propõe-nos três caminhos para uma Paz duradoura.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This