30 anos de Alemanha: tão longe e tão perto (um testemunho)

| 9 Nov 19 | Sete Partidas, Sete Partidas - homepage, Últimas

Um Trabant, carro produzido na RDA, desfilando em Berlim em 2010, no 20º aniversário da reunificação da Alemanha. Foto © Helena Araújo

 

No dia 4 de Novembro de 1989, um sábado, enquanto eu fazia as malas para me mudar para a Alemanha, na Alexanderplatz, em Berlim Leste decorria uma manifestação com um milhão de pessoas. Gritavam “nós somos o povo” contra um regime que roubava a liberdade às pessoas em nome do que entendia ser o interesse delas. O povo da então RDA (República Democrática da Alemanha) exigia uma ordem mais democrática e pacífica, o fim do regime de partido único, o direito de viajar e a extinção da polícia política.

Esta manifestação era o culminar de um movimento que começara nas igrejas evangélicas em 1982, a “oração pela paz” Ganhou depois forma de protesto generalizado, ora nas manifestações relativamente pacíficas de Leipzig, ora em tumultos violentos em Dresden ou Plauen. No Outono de 1989, “coragem” foi a palavra-chave: a coragem dos cidadãos que saíram para a rua apesar de terem em mente a tragédia de Tiananmen, e a coragem dos jovens aprendizes do exército, que deviam ser destacados aos milhares para reforçarem os corpos policiais e conterem as manifestações, mas recusaram-se abertamente a ter parte na violência contra os cidadãos.

No dia 6 de Novembro de 1989 apanhei o avião para me instalar na Alemanha. Três dias depois, no dia 9 de Novembro de 1989, estava a assistir à queda do Muro sentada em frente à televisão, numa cidade do Sul da Alemanha. No sofá ao meu lado, os meus sogros passaram o longuíssimo serão de mãos dadas, entre o riso e as lágrimas. À nossa frente passavam as imagens de felicidade nas ruas de Berlim: as pessoas que atravessavam a fronteira eufóricas, os habitantes da parte ocidental que os recebiam, as lágrimas, os abraços, as exclamações.

Alguns dias mais tarde, na festa de aniversário de uma tia-avó, fui testemunha do entusiasmo com que aplaudiram os familiares vindos da RDA. A incerteza sobre a concessão de visto para virem a esta festa dera lugar à alegria de ver cair uma fronteira cruel. Nos meses que se seguiram assisti a muitos telefonemas e conversas com os “do lado de lá”. O muro caíra, mas as pessoas não tinham confiança nos políticos que entretanto tinham chegado ao topo do poder. Muitas aproveitaram a abertura da fronteira para se instalar na Alemanha Ocidental, o que acelerou o colapso da economia da Alemanha Democrática. Por seu lado, o chanceler Helmut Kohl trabalhava febrilmente para conseguir a reunificação alemã, sabendo bem que a qualquer momento os ventos até então favoráveis poderiam mudar de direcção.

 

A festa e as críticas dos católicos

Em Maio de 1990 participei no grande encontro nacional dos católicos, o Katholikentag, que por acaso nesse ano fora marcado para Berlim. A 90.000 católicos da Alemanha Ocidental juntaram-se 35.000 católicos da RDA. Apesar do ambiente de festa quase triunfalista, as críticas estavam presentes: tanto ao modo como a hierarquia da Igreja Católica alemã se mantivera à margem dos movimentos que levaram à queda do Muro, numa posição bem diferente da das Igrejas Evangélicas, como no apelo do Papa para que, “depois de superarem a alienação marxista, as pessoas não se percam no consumismo e no materialismo”. Um bispo presente – tenho ideia que era Jacques Gaillot – avisava: “Não tenham ilusões: a RDA não escolheu Cristo, escolheu a Coca-Cola!”

Mas não: não era Coca-Cola aquilo que as pessoas exigiam nas manifestações das segunda-feiras em Leipzig, ou na manifestação de 4 de Novembro na Alexanderplatz. E esse erro de avaliação está a revelar-se fatal.

Comemoração dos 20 anos da reunificação da Alemanha, em 2010: imagens de 1989 projectadas na fachada do Parlamento Alemão. Foto © Helena Araújo

 

No dia 1 de Julho de 1990 ocorreu a unificação monetária e o marco da RFA passou a ser também a moeda da RDA. No dia seguinte, como um amigo de Frankfurt an der Oder me viria a contar muitos anos depois, os alemães do Leste acordaram num país diferente: durante o fim-de-semana, tinham sido retirados das lojas todos os produtos nacionais e substituídos por produtos da Alemanha Ocidental. Por sua vez, dado que os salários passaram a ser pagos na moeda mais forte, as exportações da RDA deixaram de ser concorrenciais. A economia – que já não era muito estável – implodiu instantaneamente, mergulhando a população numa crise económica com contornos ainda mais graves que os da Grande Depressão. Cerca de 80% das pessoas foram obrigadas a procurar um novo emprego.

Em Agosto de 1990 comecei a trabalhar numa empresa perto de Estugarda. Antes de assinar o contrato foi preciso esperar para ter a confirmação de que não havia nenhum alemão desempregado capaz de assumir aquela tarefa. Estava longe de ser o emprego dos meus sonhos – era apenas o possível para uma pessoa como eu na sociedade tão conservadora que conheci no Sul da Alemanha em 1990: mulher jovem, estrangeira, com um curso de Economia que fora reconhecido oficialmente mas não gozava da confiança das empresas alemãs.

Na repartição de trabalho tinham-me avisado: “Se conseguir trabalho como secretária de línguas internacionais, já vai com sorte.” Ao longo do ano em que trabalhei nessa empresa, fiz muitas vezes as viagens de comboio na companhia de um colega que viera recentemente de Leipzig. Ele falava-me das empresas do seu país que estavam a ser saqueadas por interesses capitalistas. “Ficam com as jóias da coroa, como a Carl Zeiss, e vendem o resto ao desbarato, destroem tudo”, dizia ele com desânimo. Parecia tão perdido como eu, a estrangeira a quem só davam os trabalhos que nenhum alemão quisesse.

 

Para onde fugiu a festa?

No dia 3 de Outubro de 1990 foi assinado o tratado 2+4. Era feriado, dia da Reunificação Alemã, estava um belíssimo dia de Outono, e eu saí para as ruas de Estugarda na alegre expectativa de participar pela segunda vez na minha vida num momento tão especial como o Primeiro de Maio de 1974 em Portugal. Mas as ruas estavam desertas. Apenas se viam aqui e ali famílias que saboreavam o sol e a luz, sem qualquer eco do ambiente festivo que naquele momento se vivia em Berlim.

No dia seguinte, perguntei a uma colega porque é que não tinha havido festa em Estugarda, e ela respondeu que não havia motivos para isso, porque o que os da RDA queriam era o dinheiro da Alemanha Ocidental, e que esta reunificação havia de sair muito cara. Senti uma pena enorme deste país que não sabia alegrar-se com um momento histórico e que no próprio dia da reunificação já estava profundamente dividido.

E foi então que começaram as anedotas. Anedotas que faziam dos alemães da RDA pessoas parolas, incultas, incapazes. Numa delas, por exemplo, um turco corrigia a gramática de um cidadão de Berlim Leste. Na mentalidade dos “wessis” (ocidentais), os “ossis” (orientais) começaram a ser colocados abaixo do grupo nacional que até então ocupara o lugar de menor prestígio.

Em 1992 mudei para uma empresa perto de Heidelberg e durante essa década pouco me apercebi das convulsões no Leste. Andava ocupada com outras questões: o nascimento dos meus filhos fez-me sentir de novo na pele o profundo conservadorismo daquela sociedade. Esperavam de mim que ficasse em casa a assumir a tempo inteiro a minha responsabilidade maternal. Na empresa, aceitaram reduzir o meu horário para meio tempo, mas fizeram-me ver que, como mãe, tinha de estar muito agradecida por me deixarem continuar a trabalhar. Numa festa, uma mulher mais jovem que eu criticou as minhas opções: “Se és tão carreirista, porque é que tens filhos? As crianças precisam de ter a mãe em casa!”

Carreirista? Eu queria fazer apenas aquilo que me parecia natural num adulto: ter o meu lugar no mundo do trabalho. A sociedade da Alemanha Ocidental nos anos noventa tinha outro entendimento, muito diferente do de Portugal – ou do da extinta Alemanha Democrática.

Não era eu a única pessoa alheia aos problemas dos cidadãos da antiga RDA nos anos após a reunificação. De um modo geral, as pessoas da parte ocidental não faziam a menor ideia das convulsões, das angústias e das inseguranças que se instalavam na vida dos habitantes dos cinco novos Estados da Alemanha agora reunificada. A economia do país ia de vento em popa, aquecida pelos capitais disponíveis para reconstruir todo aquele território. No Leste da Alemanha melhoravam-se casas e estradas, faziam-se equipamentos de lazer, mas não foram criadas condições para acudir à economia moribunda. Tanto mais que, num contexto de União Europeia, a proximidade das economias muito mais concorrenciais da Polónia e da Checoslováquia agravava os problemas.

Comemoração dos 20 anos da reunificação da Alemanha, em Outubro de 2010: imagens de 1989 projectadas na fachada do Parlamento Alemão, mostrando alemães-orientais a passear em Berlim Ocidental. Foto © Helena Araújo

 
Uma festa a roubar comunidade?

Em 2002 fui viver com a minha família para Weimar, na antiga RDA. Por ter sido Capital Europeia da Cultura em 1999, esta cidade da Turíngia atraíra fundos em quantidades astronómicas, que permitiram recuperar os museus, as casas dos seus antigos cidadãos famosos, como Goethe e Schiller, e também quase todo o parque habitacional. Em 2002, Weimar tinha a beleza de uma estância de férias e cultura. A pouco e pouco fui descobrindo que por trás das fachadas renovadas subsistia um mundo ainda muito ligado à RDA: a naturalidade e a solidariedade das pessoas, a predisposição para participar em projectos comunitários, o estilo de vida bem mais frugal e simples que o que eu conhecia do Sul da Alemanha.

Na escola, tudo era diferente daquilo que vira na parte ocidental do país: os professores conheciam as circunstâncias de cada aluno, e as reuniões de notas mais pareciam sessões de assistentes sociais; as crianças usavam descuidadamente roupas funcionais e rejeitavam as roupas e os sapatos de marca ostentados por alguns colegas “wessis”; a professora da primeira classe do meu filho dizia-lhe com firmeza e convicção: “À professora conta-se tudo. TUDO!”; algumas crianças filhas de vietnamitas eram insultadas com o nome “fidji”; e os meus filhos tentavam esconder dos outros que a mãe deles era portuguesa, porque pressentiam que havia algo de desconfortável nesse facto.

Numa reunião de pais sugeri que organizássemos uma venda de roupas e brinquedos usados, para angariar dinheiro para a escola. Fizemos publicidade e preparámos as salas e as mesas, cuja utilização custava cinco euros e um bolo. Enervei-me um pouco com os preços baixíssimos a que estavam a vender os bolos no café do mercado improvisado, mas não havia volta a dar: as outras mães insistiam que o importante era as pessoas sentarem-se a beber café, comer bolos e conviver, e que de qualquer modo tínhamos recebido os bolos de graça. O mercado correu bem e foi o primeiro de muitos. Só alguns anos mais tarde me dei conta do que fizera, e envergonho-me disso: levei as famílias de Weimar a passar da antiga lógica comunitária (dar aos amigos e vizinhos com filhos mais pequenos as roupas e os brinquedos usados)  para uma lógica mercantilista.

No hospital onde o meu marido trabalhava havia algumas tensões devido ao facto de os médicos que vinham da parte ocidental, com contratos da sua região de origem, ganharem mais que os colegas do Leste que faziam o mesmo trabalho. Contratos para colaborações com instituições internacionais desapareciam sem deixar rasto – para se descobrir meses mais tarde que a secretária responsável por lhes dar andamento os esquecera numa gaveta porque não sabia o que fazer, uma vez que estavam em inglês e ela só falava alemão e russo. E havia também histórias estranhas e ilógicas, que alguém explicava em surdina: “Isto são as ligações que vêm de outros tempos”.

 

“Ossis” e “wessis” e um riso cínico

As pessoas dividiam-se em “ossis” e “wessis”. Diziam com desprezo: “Tem uma condução agressiva como um wessi”, “compra a crédito como um wessi”. Queixavam-se da arrogância dos “wessis” – muitos anos depois, o episódio do condutor de um Mercedes com matrícula de Munique que, em plena zona de peões, apitara a uma grávida de nove meses, para ela sair da frente e o deixar passar, era ainda contado com mágoa e raiva.

As melhores casas de Weimar foram sendo paulatinamente ocupadas pelos “wessis”. Numa dessas, um pequeno palacete com parque, vivia uma família americana. O pai trabalhava para investidores que compravam as empresas da antiga RDA ao desbarato, tornavam a empresa concorrencial e vendiam-na com bom lucro. Contou-me a rir a discussão que tivera com a responsável dos Recursos Humanos. Ela estava a mostrar-lhe a lista dos empregados, para decidirem quais deviam ser despedidos, e ia dizendo “esta mulher não, porque está a criar os filhos sozinha; este homem não, porque tem mais de cinquenta anos e não vai conseguir arranjar emprego, este está a lutar contra o cancro…” e ele interrompeu-a: “Você trabalha para mim ou para o sindicato?” Ria-se, muito satisfeito com a sua tirada, sem se dar conta do imenso fosso que os separava: ela trabalhava para a ideia de um país decente e de um sistema económico cujo objectivo fundamental era o bem-estar das pessoas, e tinha de se haver com um americano pago a peso de ouro para fazer lucro à custa do sofrimento de tantas famílias que até há pouco ainda tinham um Estado que cuidava delas.

E havia também os engarrafamentos intermináveis na auto-estrada ao entardecer das sextas-feiras e dos domingos: os homens que ganhavam a vida na antiga Alemanha Ocidental e regressavam ao fim-de-semana para estar com a família. As mulheres, já sem o emprego garantido nem as creches estatais que eram factos indiscutíveis na RDA, ficavam em casa ao serviço dos mais novos e dos mais velhos da família. A reunificação representou para as mulheres da antiga RDA um enorme retrocesso nas conquistas feministas.

Na Primavera de 2005, a loja de fábrica da Jenaer Glas teve saldos fantásticos. Comprei inúmeras peças daquele vidro finíssimo e resistente ao calor, muitas delas com design de Wagenfeld – um dos mestres da Bauhaus que se tornou colaborador dessa empresa no final dos anos 1920, quando a Bauhaus foi obrigada a mudar-se de Weimar para Dessau. Perguntei à funcionária da loja a que se deviam aqueles saldos, e ela respondeu com maus modos que iam fechar a produção, porque “eles” tinham decidido passar a produzir apenas placas de vidro cerâmico. “E então, este design? E então, a tradição e a história desta empresa?” – perguntei estupefacta. Ela encolheu os ombros: “Eles decidiram, eu cá não sei de nada.”

Os Trabant, carro produzido na RDA, desfilando em Berlim em 2010, nos 20 anos da unificação alemã. Foto © Helena Araújo

 
Vidros de uma fábrica partida

Nesse verão fizemos uma viagem aos EUA e oferecemos peças Wagenfeld da Jenaer Glas a todos os amigos que visitámos. Gostaram tanto, que confirmei o que já sabia: havia um importante mercado internacional para estas peças, e as pessoas que se apoderaram da Jenaer Glas e decidiram fechar esta produção tiveram um comportamento prepotente, incompetente e irresponsável.

Alguns anos mais tarde visitei Forst, uma cidade junto à fronteira da Polónia, que em finais do século XIX tinha sido um dos maiores centros de têxteis da Europa. No museu do têxtil mostravam o funcionamento das máquinas – algumas delas com mais de cem anos – que trabalharam incansavelmente até à queda do Muro. Um dos voluntários do museu ouviu-me a gabar os padrões das fazendas – “o pessoal da Haute Couture podia fazer trabalhos excepcionais com isto!” – e apontou a máquina de fazer entretela com crina de cavalo. “Patente de Forst!”, anunciava ele com imenso orgulho, “os fatos ficam com outro cair. Sempre que vejo o Obama, tenho pena de não terem usado a nossa entretela nos fatos que ele veste”. Contou que alguns operários se tinham unido para comprar a sua fábrica e tentar mantê-la aberta, mas o organismo que geriu as privatizações da economia da RDA recusou liminarmente a proposta e preferiu vender a empresa ao desbarato a um investidor internacional, que acabou por levar o que lhe interessava e fechar o resto. Em menos de 20 anos, Forst perdeu 30% da sua população, e tem hoje um centro deserto, cheio de ruínas de edifícios fabris e palacetes centenários abandonados.

Em 2005 comemoraram-se os 60 anos da libertação do campo de concentração de Buchenwald e nós pusemos a hipótese de alojar na nossa casa um dos sobreviventes convidados para a ocasião. Algumas amigas de Weimar aconselharam-me a não o fazer, alegando que eu ia meter em casa um velho amargo que me vinha pedir contas. Reconheci esse impulso de fugir à História num outro episódio que me contaram na mesma altura: já em finais da década de 1980, uma avó revelou à neta que a União Soviética tinha reaberto o campo de Buchenwald em Agosto de 1945 e lá manteve milhares de prisioneiros durante cinco anos, sem acusação nem julgamento, em condições horrorosas. Quando soube da indiscrição, a mãe ficou furiosa com a avó, porque, como disse, “não convém que a criança saiba estas coisas”. Trinta anos depois de terem fechado o campo soviético, ainda havia um reflexo muito forte de calar e fazer por não saber de nada.

 

Qual é o meu lado?

Em 2007 deixámos Weimar e viemos viver para Berlim. Berlim Ocidental, entenda-se. O muro desapareceu, mas as pessoas ainda sabem bem qual é o seu lado. Excepto nos bairros da cidade que foram alvo de uma gentrificação mais violenta, nos quais os campos estão divididos casa a casa entre os “antigos” e os “wessi invasores”.

Viemos para Berlim a tempo de assistir à fase final da destruição do Palácio da República, que fora a sede do Parlamento da Alemanha Democrática e um importante centro cultural. Em termos simbólicos, o crime perfeito para evidenciar o carácter da reunificação: a imposição da vontade e da lógica da RFA vitoriosa contra uma RDA de rastos.

Bem sei que a economia da Alemanha de Leste estava a chegar a um ponto de colapso, e que do ponto de vista material os seus antigos habitantes vivem melhor na Alemanha reunificada do que na RDA que seria hoje possível. Mas o processo de reunificação arrasou a alegria e a esperança dos primeiros tempos, roubou às pessoas o país que era o delas para lhes dar em troca um lugar de subalternidade no tal país da Coca-Cola de que falava o bispo francês em 1990. Como é possível alguém viver em paz e confiança quando se sente um elemento estranho e ignorado na sociedade que invadiu o seu antigo país e eliminou muito do melhor que nele havia?

Já se passaram trinta anos e há ainda muito para fazer.
A arrogância e precipitação do processo de reunificação, bem como a morosidade com que os problemas têm sido detectados e corrigidos, abriram feridas tão dolorosas para as pessoas quanto perigosas para a Democracia. O trauma da perda do seu país e sobretudo da dignidade tem surgido com força ainda maior nos mais jovens – nomeadamente naqueles que nasceram depois da queda do Muro. Recentemente, a Turíngia deu 23,4% dos votos ao fascista Björn Höcke. O único grupo etário que não votou maioritariamente na AfD foi o dos eleitores com mais de 60 anos.

E eu? Olho para estes meus trinta anos de Alemanha, e desenho um balanço positivo: a União Europeia reduziu muito a distância que tive de percorrer quando vim viver para a Alemanha em 1989. Tenho o meu trabalho, pago os meus impostos, participo numa associação cultural que tem por objectivo dar mais visibilidade à cultura portuguesa em Berlim. Dei a este país dois cidadãos que o tornam melhor, na medida em que se empenham na construção de uma sociedade mais aberta e igualitária. Vivo entre Berlim e Portugal, e sinto-me em casa tanto num como no outro lado da Europa. Estou a pensar em obter a nacionalidade alemã: há por aí tanta gente desnorteada a votar em fascistas, que é preciso reforçar o número de eleitores que acreditam na Democracia.

Quem diria que a Alemanha, cinquenta anos depois de ter ido ao Sul da Europa buscar trabalhadores para fortalecer a sua economia, precisaria deles também como eleitores para fortalecer a Democracia?…

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blogue 2 Dedos de Conversa

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