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30 dias depois…

| 27/03/2022

Em 25 de fevereiro de 2022, em Kiev, na Ucrânia, uma rapariga olha para a cratera deixada por uma explosão em frente a um prédio de apartamentos que ficou fortemente danificado durante os ataques militares russos em curso. Foto © UNICEF

O desejo de acabar com a guerra poderá ser motivo suficiente para levar o Papa à Ucrânia? Foto © UNICEF

 

Vindo de muito longe, vejo insinuar-se-me no coração, pelo ecrã da televisão, esse caldeirão de fel e fogo que um ‘puto’ de olhos hérulos acendeu na Ucrânia. No preciso momento em que tal aconteceu, acenderam-se também os restantes corações dos filhos de Noé. Foi há 30 dias que este tsunami começou.

Como ‘seguidor de Jesus’ interrogo a atitude com que, caso eu fosse um Patriarca, um Papa, um Cardeal, em suma, caso eu fosse uma figura cristã pública poderosa, me deveria comprometer, já que «crer é comprometer-se» (Gonzalez Ruiz). Creio que, diante deste «holocausto supremo» (vidas humanas e vida do edificado), só há uma atitude possível: anunciar oficialmente, comunicar pessoalmente, explicar humanamente que “Sua Eminência fulano de tal” irá ajoelhar-se em terra diante das ‘valas comuns’ e cemitérios onde tenham sido enterradas as vítimas mortais de hérulos, do huno. Depois do anúncio formal da intenção de viajar até à Ucrânia, Sua Eminência deveria fretar e pagar o adequado meio de transporte com o dinheiro da Instituição que serve. Após escutar atentamente as reacções internacionais e indiferente a todas elas, chegada então a data ousada, deveria “meter os pés a caminho” com o coração cheio não dos seus fiéis, mas de todos os que clamam a partir do caldeirão da Ucrânia: seres humanos vivos, meio-vivos, meio-mortos e mortos. Ou seja, o seu espírito não admitiria nenhum outro espírito que não o Espírito de Cristo Crucificado (depois de viver a Sua desgraça, a primeira coisa que Jesus fez foi ir ao encontro e trazer à “Vida Verdadeiramente Livre e Abundante” [João 10,10] os que O aguardavam, expectantes, no Reino dos Mortos; Mateus 27,51-54): “[Então, à Sua chegada] abriram-se os túmulos e muitos corpos de crentes, que estavam mortos, ressuscitaram”.

Tal atitude, estancasse ela ou não “a guerra do puto”, saísse Sua Eminência dela viva … ou morta, esse gesto de «um ser humano para com todos os demais» (D. Bonhoeffer) plantaria e regaria a “Flor do Amor” que bomba alguma jamais conseguiria eliminar da História: ‘o sangue dos mártires é semente de homens livres em Cristo’. Aliás, as TV’s permitem que ouçamos testemunhos de homens e mulheres a partir do interior do conflito comprometid@s com a ajuda às vítimas da guerra e que simplesmente confessam que não têm medo de morrer quando a causa é deste quilate:

“Não tenho medo de morrer por amor a alguém. Tenho medo de morrer de velhice e infeliz por nunca ter abraçado uma causa tão alta enquanto ser humano e quando ainda era capaz de tal. Eu vi a Guerra e imediatamente senti que devia fazer alguma coisa. Por isso vim da Noruega, … vim do Colorado, … meti os pés a caminho a partir da minha Inglaterra… Sinto-me feliz, realizad@ e chei@ de amor inclusivamente para dar a vida, se tiver de ser. Ao fim e ao cabo, algum dia todos acabaremos por morrer, não é assim? Não vim por causa da morte. Não foram os mortos e a morte que me chamaram e me fizeram vir: foi o sofrimento dos vivos e o amor às pessoas vivas. Por isso, aqui estou.”

Independentemente e à margem das Religiões que existem, estes testemunhos são a prova de que «Rien n’est profane» (P. Theilhard de Chardin) e por isso mesmo é que os Anjos e Arcanjos somos todos nós os comprometidos com uma certa práxis, pois todo o ser-humano (crente ou não crente) é «meio divino», é «mediação divina». «Uma entidade divina que não seja capaz de tão alta entrega e de tal humanidade é pura idolatria» (Leonardo Boff). Porque o nosso Deus encarnou, todo o ser humano agindo assim na Ucrânia é já, em si, Deus encarnado agindo na história concreta da Humanidade. Pela mão e pelo espírito dos voluntários que estão na Ucrânia, Deus age no Mundo, cura e faz a Paz – eles “concretizam no concreto” (e não apenas na súplica à entidade divina) aquilo que Jesus recomendou: «Ide e fazei o que Eu acabei de fazer» (João 13,14: o gesto do lava-pés). Amar é «ir e fazer» o que Jesus fez: o “agapê”.

«Só o Amor [‘agapê’] é digno de Fé» (Hans Urs von Balthasar).

Só um amor profético e constructor de uma vida essencial, só uma placa giratória de doacção centrada no frágil e na margem − e a partir do frágil e da margem − realiza a vocação mais funda e mais livre de um ser humano.

É decisivo relembrar Lucas 4. Francisco, não te deixes atolar no receio pela tua instituição, não te deixes tomar pelo medo de te ferires nos pés por alguma pedrinha do cascalho dos destroços dos mísseis (Lc 4,10) e … mete os pés ao caminho, que mais destroçad@s não podem estar @s ucranian@s (e, de alguma forma, também nós @s portugues@s). Retira-te do teu Jordão e caminha apressado ao deserto, se és Filho de Deus, Francisco. Deixa-te conduzir pelo Espírito Santo, Francisco! É a Hora! Jesus não temeu: denunciou e, apesar do ranger da raiva furiosa dos dentes dos Todo-Poderosos do Mundo, o Nazareno passou pelo meio deles e eles acabaram por não terem coragem sequer de lhe tocar (Lc 4,28-30).

Será que não acreditas que podes pôr fim a este massacre, Francisco?! Por que esperas, Francisco?! Não foste tu que canonizaste Karol Wojtyla (por alguns dos seus seguidores – Ratzinger, etc. – proclamado como «João Paulo II, o Grande» num tom que cheira a czarismo)? Tens agora a oportunidade de te penitenciares: vai à Ucrânia, entra na guerra e faz guerra à guerra ajoelhando-te na terra ensanguentada … Lá, no Gólgota ucraniano (Lc 23,26-43), reza por eles, por ti, por mim e por toda a Humanidade. Quem sabe se não te será concedida a oportunidade de igualmente “passares pelo meio deles” sem um arranhão, mas, sobretudo, poderes pôr fim àquele mortal fel do fogo do inferno, Francisco?!

Coragem, Francisco! Tem Fé, Francisco. Acredita! Chegou a tua Hora! “Vem, vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer” (Gerardo Vandré, «Pra não dizer que não falei das Flores»).

 

Paulo Bateira é médico e membro da Igreja Católica que está no Porto

 

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