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32ª Marcha para Jesus: dificuldade de diálogo de Lula com os evangélicos

Marcha para Jesus (São Paulo, Brasil) © Marcelo Pereira / SECOM

 

A 32ª edição da Marcha para Jesus aconteceu na quinta-feira, 30, feriado de Corpus Christi, em São Paulo. Realizado no Brasil desde 1993, é o maior evento evangélico do país, embora também acolha pessoas de outros segmentos cristãos. Este ano, a marcha reuniu cerca de 2 milhões de participantes e movimentou 40 milhões de reais, segundo a Prefeitura de São Paulo.

Embora a Marcha para Jesus seja um evento religioso, seu papel político tem se tornado cada vez mais evidente ao longo dos anos. Em 2015, por exemplo, foi palco de manifestações contra o governo da então presidente Dilma Rousseff (PT). Já em 2019, Jair Bolsonaro se tornou o primeiro presidente do Brasil a participar do evento, recebendo a aclamação do público com gritos de “Mito! Mito!”.

Na edição de 2022, marcaram presença Tarcísio de Freitas (Republicanos), então pré-candidato e atual governador de São Paulo; Rodrigo Garcia (PSDB), ex-governador de São Paulo; Simone Tebet (MDB), pré-candidata à presidência; e Jair Bolsonaro, que à época era presidente e candidato à reeleição.

Neste ano, entre outros políticos presentes, Tarcísio de Freitas se destacou com um discurso que mais parecia uma pregação pastoral. “Nós somos escolhidos, nós fomos separados”, afirmou. Ele narrou a história de Moisés sendo chamado por Deus para liderar o povo de Israel do Egito à terra prometida, apesar de seus medos. “E o que Deus responde a ele?”, perguntou Tarcísio, respondendo em seguida:

“‘Eu sou contigo!’ Quem aqui às vezes se sente incapaz? Nós, dirigentes, também vacilamos na fé. Precisamos nos lembrar de que Deus está conosco. A missão do Senhor foi levar o povo de Israel, e quando se deparou com dificuldades, pediu ajuda ao Senhor, clamou a Deus. E Deus disse a eles: ‘Levanta o teu cajado sobre o mar, que o mar se abrirá e o povo de Israel passará a salvo pelo caminho.’ O que eu digo a vocês hoje é: levantem seus bastões, estendam-nos sobre o mar da aflição, que o sofrimento se abrirá, porque somos escolhidos. Deus nos escolheu não por causa das nossas obras ou méritos, mas por causa da Sua graça e misericórdia. Quem concorda comigo, grite bem alto!”

Tarcísio de Freitas foi eleito governador do Estado de São Paulo com a bênção de Jair Bolsonaro, que o considerava uma marca de seu governo. Entre os bolsonaristas, Tarcísio é um dos nomes favoritos para concorrer à Presidência em 2026. Jair Bolsonaro, atualmente inelegível e afastado do cenário político, pode ter seu apoio enfraquecido, mas o legado bolsonarista ainda é lembrado e foi destacado na Marcha para Jesus deste ano. Tarcísio de Freitas, com uma abordagem mais pastoral que Bolsonaro, mantém o lema “Deus acima de todos” e, junto com os fiéis presentes, se coloca como escolhido por Deus para conduzir o Brasil do Egito à terra prometida. Será ele visto como o verdadeiro messias em 2026?

Enquanto isso, o presidente Lula continua enfrentando dificuldades no diálogo com os evangélicos. Pelo segundo ano consecutivo, enviou uma carta agradecendo pelo convite e destacando a importância do evento. Vale lembrar que foi Lula quem sancionou, em 2009, durante seu segundo mandato, a lei que incluiu a Marcha para Jesus no calendário nacional. No entanto, o presidente nunca participou do evento, mesmo quando recebia apoio de líderes evangélicos. A partir do governo Dilma Rousseff (PT), a relação com esse grupo religioso tornou-se mais delicada e qualquer diálogo que existia foi perdido. O Partido dos Trabalhadores, historicamente mais acostumado a lidar com as lideranças católicas do país, não prestou a devida atenção às demandas e ao crescimento do segmento evangélico, que hoje representa 30% da população.

Essa falha persiste. A mais recente pesquisa Atlas, divulgada em fevereiro de 2024, demonstrou uma recuperação nos patamares de avaliação positiva do governo Lula; a aprovação aumentou de 49,6% para 51,7%. No entanto, ao analisar mais detalhadamente, observa-se que os que aprovam o governo são predominantemente aqueles que votaram em Lula no primeiro ou segundo turno de 2022. Ou seja, Lula não conseguiu mudar a percepção de outros eleitores, especialmente os de Bolsonaro. Ao segmentar por religião, entre os que aprovam o governo estão: agnósticos ou ateus (82,6%); católicos (58,1%); pessoas de outras religiões (55,1%); crentes sem religião (53%); e evangélicos (29,6%). Esses números evidenciam que, para conquistar um apoio mais amplo e consolidar sua base, Lula precisará intensificar seus esforços de diálogo e entendimento com os evangélicos.

No entanto, quais são as estratégias do governo? A participação de Lula na Marcha para Jesus poderia sinalizar uma abertura ao diálogo ou, ao menos, um entendimento das demandas desse segmento. No entanto, Lula, ciente da relação desgastada com esse público, tem preferido se resguardar de críticas ou manifestações que possam sair do seu controle. De qualquer forma, se Lula ou o PT quiserem garantir um bom término de governo e uma alternativa viável para 2026, precisarão considerar que grande parte da população mantém valores conservadores. Portanto, é crucial encontrar um equilíbrio entre pautas progressistas e as expectativas desse segmento mais tradicional.

 

Maria Angélica Martins é socióloga e mestra em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Pesquisa a relação entre fenómeno religioso e política com ênfase para o protestantismo histórico e o neocalvinismo holandês.

 

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