A celebrar meio século de existência formal, a Cáritas Diocesana de Lisboa reafirma o seu papel na emergência social, mas quer ir — e vai — muito além dele. Quanto ao grande objetivo para os próximos 50 anos, poder-se-ia dizer que é “deixar de existir”, reconhecem Carmo Diniz, diretora executiva da instituição, e o presidente da direção, Luís Macieira Fragoso, numa conversa com o 7MARGENS, em plena Semana Cáritas. A afirmação pode parecer um contrassenso vinda de quem lidera uma instituição histórica, mas encerra em si mesma aquela que é a essência da missão da Cáritas Diocesana de Lisboa: acabar com a pobreza e a exclusão social na capital portuguesa.
“Erradicar a pobreza é uma meta real”, diz Carmo Diniz. “Se não acreditarmos que conseguimos atingi-la, o desânimo aparece. E nós somos bastante animados pela nossa missão”, assegura. O almirante Luís Macieira Fragoso reforça esta visão: “Não é utopia nenhuma. Não acreditamos que isso vá acontecer por um passe de magia, mas pugnamos pela dignidade da pessoa humana e vamos combater até que ela esteja garantida para todos”.
O presidente recorda que, embora a Cáritas tenha raízes em Portugal desde o pós-Segunda Guerra Mundial — quando acolheu cerca de 5.500 crianças vindas da Alemanha e da Áustria —, foi em 1976 que a estrutura de Lisboa ganhou a sua forma canónica atual, subordinada ao Patriarcado.

“Erradicar a pobreza é uma meta real, não é uma utopia”, dizem Luís Macieira Fragoso e Carmo Diniz. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Hoje, a sede da instituição, junto ao Parque Eduardo VII, bem no centro da capital portuguesa e onde falam ao 7MARGENS, funciona como um termómetro da crise social que se vive na cidade. Mesmo sem um gabinete de atendimento ao público, a procura de ajuda é natural e constante, contam os responsáveis. Atualmente, uma pequena equipa acompanha cerca de 100 casos que ali foram bater diretamente à porta. “E nós não fechamos a porta a ninguém”, garante Carmo Diniz.
Sobre o perfil destas pessoas, os líderes da instituição explicam que tem vindo a mudar drasticamente. Hoje, o “rosto” da carência é, muitas vezes, o de quem acorda cedo para trabalhar. Carmo Diniz é taxativa: “Existe uma pobreza entre a população que trabalha. A pessoa pode trabalhar e permanecer dentro do ciclo de pobreza porque não tem rendimentos suficientes para superar as suas necessidades mais básicas.”
A diretora reconhece a fragilidade de muitas famílias lisboetas, onde qualquer imprevisto se torna catastrófico. “Basta haver um percalço na vida — uma baixa, uma perda temporária de trabalho — para a vida se desorganizar de tal maneira que o ciclo de pobreza se inicia de forma expressiva. Encontramos pessoas que simplesmente recebem salários baixos e não se conseguem organizar.”
Outro dos grandes desafios é a integração de migrantes, que representam cerca de metade dos atendimentos na sede. O almirante Macieira Fragoso destaca, também aqui, uma mudança de paradigma: “No passado, todos os migrantes falavam português. Hoje em dia, há pessoas que não se expressam, não entendem uma carta da AIMA. Temos 47 nacionalidades diferentes nos nossos atendimentos”.
O presidente dá o exemplo de um caso que tem acompanhado de perto: um casal ucraniano refugiado, ambos com formação superior. “Ele é engenheiro formado em Moscovo, ela licenciada em Matemática. Mas só falam russo. O resultado? Pessoas com cultura superior a fazer o trabalho mais básico possível. A senhora faz limpezas e ele é um daqueles ‘faz tudo'”.

O almirante Luís Macieira Fragoso, presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
“O nosso foco não é só dar de comer a quem tem fome”
Mas dar resposta a todos estes desafios não seria possível se a Cáritas Diocesana de Lisboa não funcionasse como uma peça central de uma engrenagem maior. Trabalhando em articulação com outras instituições como a Comunidade Vida e Paz (especializada em pessoas sem-abrigo), o Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) e as paróquias locais, a instituição tem como palavras-chave “emergência” e “rede”. “Não é suposto sermos a primeira linha; queremos que o apoio comece nas paróquias”, explica a direção.
E são 284 as paróquias em rede, nas quais o apoio alimentar continua a ser o trabalho mais visível, raramente baixando das 100 famílias por paróquia. Não se pense, contudo, que a Cáritas de Lisboa é apenas uma estrutura assistencialista. “O nosso foco não é só dar de comer a quem tem fome, é muito mais reinserir as pessoas numa vida normal, numa vida digna”, destaca Carmo Diniz.

Carmo Diniz, diretora executiva da Cáritas de Lisboa. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Bióloga de formação e “de coração”, a diretora executiva da Cáritas de Lisboa está neste momento a fazer o doutoramento em Ecologia Integral pela Universidade Católica e não tem dúvidas de que existe uma forte ligação entre o ambiental, o social e o espiritual.
No dia a dia da instituição que dirige, os princípios da ecologia integral já “eram vividos de forma intuitiva” mesmo antes de ela ter chegado à direção, há pouco mais de um ano. Entretanto, foram transpostos para os eixos estratégicos de funcionamento. “Os nossos eixos têm a conversão ecológica explícita. Eu vivo aqui o nexo incindível entre a ecologia humana, a ecologia natural e a relação com Deus”, partilha. E a aplicação prática desta visão reflete-se precisamente na transição do “assistencialismo” para a “promoção social”.
Um dos passos que está a ser dado nesse sentido consiste na substituição do modelo da “rouparia” tradicional pelo das Lojas Sociais. “Com estas lojas, passamos de uma lógica em que quem tem a rouparia seleciona o que o outro deve levar, para uma lógica onde a própria pessoa escolhe, porque gosta mais de encarnado do que de verde”, ilustra Carmo Diniz.
O projeto, que terá uma “incubadora” a partir de setembro para guiar as paróquias na criação de mais lojas sociais com “bom gosto, triagem rigorosa e sentido de comunidade”, inspira-se em parceiros como a Dona Ajuda. “Esta tanto funciona como loja de segunda mão para qualquer pessoa, como para quem não pode pagar e vai buscar gratuitamente. Estas pessoas convivem, e isso traz comunidade, traz dignidade”, sublinha a diretora executiva da Cáritas de Lisboa.
Outro projeto que visa devolver a dignidade aos mais vulneráveis, particularmente aos que não conseguem integrar-se no mercado de trabalho, é o programa de empregabilidade que a instituição desenvolveu em parceria com a Fundação Endesa, e que forma instaladores de painéis fotovoltaicos.
No âmbito deste projeto, Carmo Diniz recorda o rosto de uma candidata que, embora quisesse trabalhar no apoio a idosos, se candidatava à montagem de painéis solares por pura necessidade. “Eu só quero trabalhar”, dizia. No entanto, “estar disponível para fazer qualquer coisa também não é bom, nem é digno”, alerta a responsável. E nestes casos a missão da Cáritas tem de passar por um “trabalho de orientação e discernimento”, ajudando as pessoas a encontrar um caminho profissional que respeite as suas competências e lhes devolva uma “vida normal”.
Em suma, seja tendo a porta sempre aberta, seja proporcionando a escolha digna numa Loja Social ou dando orientação e formação a um desempregado, a mensagem da Cáritas de Lisboa é clara: a pobreza e a exclusão social combatem-se com um olhar atento, em rede, num caminho de conversão ecológica que é, ao mesmo tempo, espiritual, comunitário e pastoral. Chegada aos 50 anos, a instituição prova que a sua força não está no assistencialismo, mas na capacidade de regenerar vidas e comunidades. A continuar assim, talvez o sonho se concretize e não chegue a cumprir um século.










