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Luís Macieira Fragoso e Carmo Diniz em entrevista na sede da Cáritas de Lisboa 2. Foto Clara Raimundo
Luís Macieira Fragoso e Carmo Diniz à entrada da sede da Cáritas de Lisboa, cuja porta "está sempre aberta". Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Nascida em 1976

50 anos da Cáritas de Lisboa: Entre a emergência social e o sonho da extinção

| 07/03/2026

 

A celebrar meio século de existência formal, a Cáritas Diocesana de Lisboa reafirma o seu papel na emergência social, mas quer ir — e vai — muito além dele. Quanto ao grande objetivo para os próximos 50 anos, poder-se-ia dizer que é “deixar de existir”, reconhecem Carmo Diniz, diretora executiva da instituição, e o presidente da direção, Luís Macieira Fragoso, numa conversa com o 7MARGENS, em plena Semana Cáritas. A afirmação pode parecer um contrassenso vinda de quem lidera uma instituição histórica, mas encerra em si mesma aquela que é a essência da missão da Cáritas Diocesana de Lisboa: acabar com a pobreza e a exclusão social na capital portuguesa.

“Erradicar a pobreza é uma meta real”, diz Carmo Diniz. “Se não acreditarmos que conseguimos atingi-la, o desânimo aparece. E nós somos bastante animados pela nossa missão”, assegura. O almirante Luís Macieira Fragoso reforça esta visão: “Não é utopia nenhuma. Não acreditamos que isso vá acontecer por um passe de magia, mas pugnamos pela dignidade da pessoa humana e vamos combater até que ela esteja garantida para todos”.

O presidente recorda que, embora a Cáritas tenha raízes em Portugal desde o pós-Segunda Guerra Mundial — quando acolheu cerca de 5.500 crianças vindas da Alemanha e da Áustria —, foi em 1976 que a estrutura de Lisboa ganhou a sua forma canónica atual, subordinada ao Patriarcado.

Luís Macieira Fragoso e Carmo Diniz em entrevista na sede da Cáritas de Lisboa. Foto Clara Raimundo

“Erradicar a pobreza é uma meta real, não é uma utopia”, dizem Luís Macieira Fragoso e Carmo Diniz. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Hoje, a sede da instituição, junto ao Parque Eduardo VII, bem no centro da capital portuguesa e onde falam ao 7MARGENS, funciona como um termómetro da crise social que se vive na cidade. Mesmo sem um gabinete de atendimento ao público, a procura de ajuda é natural e constante, contam os responsáveis. Atualmente, uma pequena equipa acompanha cerca de 100 casos que ali foram bater diretamente à porta. “E nós não fechamos a porta a ninguém”, garante Carmo Diniz.

Sobre o perfil destas pessoas, os líderes da instituição explicam que tem vindo a mudar drasticamente. Hoje, o “rosto” da carência é, muitas vezes, o de quem acorda cedo para trabalhar. Carmo Diniz é taxativa: “Existe uma pobreza entre a população que trabalha. A pessoa pode trabalhar e permanecer dentro do ciclo de pobreza porque não tem rendimentos suficientes para superar as suas necessidades mais básicas.”

A diretora reconhece a fragilidade de muitas famílias lisboetas, onde qualquer imprevisto se torna catastrófico. “Basta haver um percalço na vida — uma baixa, uma perda temporária de trabalho — para a vida se desorganizar de tal maneira que o ciclo de pobreza se inicia de forma expressiva. Encontramos pessoas que simplesmente recebem salários baixos e não se conseguem organizar.”

Outro dos grandes desafios é a integração de migrantes, que representam cerca de metade dos atendimentos na sede. O almirante Macieira Fragoso destaca, também aqui, uma mudança de paradigma: “No passado, todos os migrantes falavam português. Hoje em dia, há pessoas que não se expressam, não entendem uma carta da AIMA. Temos 47 nacionalidades diferentes nos nossos atendimentos”.

O presidente dá o exemplo de um caso que tem acompanhado de perto: um casal ucraniano refugiado, ambos com formação superior. “Ele é engenheiro formado em Moscovo, ela licenciada em Matemática. Mas só falam russo. O resultado? Pessoas com cultura superior a fazer o trabalho mais básico possível. A senhora faz limpezas e ele é um daqueles ‘faz tudo'”.

Luís Macieira Fragoso, presidente da Cáritas de Lisboa. Foto Clara Raimundo

O almirante Luís Macieira Fragoso, presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

 

“O nosso foco não é só dar de comer a quem tem fome”

Mas dar resposta a todos estes desafios não seria possível se a Cáritas Diocesana de Lisboa não funcionasse como uma peça central de uma engrenagem maior. Trabalhando em articulação com outras instituições como a Comunidade Vida e Paz (especializada em pessoas sem-abrigo), o Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) e as paróquias locais, a instituição tem como palavras-chave “emergência” e “rede”. “Não é suposto sermos a primeira linha; queremos que o apoio comece nas paróquias”, explica a direção.

E são 284 as paróquias em rede, nas quais o apoio alimentar continua a ser o trabalho mais visível, raramente baixando das 100 famílias por paróquia. Não se pense, contudo, que a Cáritas de Lisboa é apenas uma estrutura assistencialista. “O nosso foco não é só dar de comer a quem tem fome, é muito mais reinserir as pessoas numa vida normal, numa vida digna”, destaca Carmo Diniz.

Carmo Diniz, diretora executiva da Cáritas de Lisboa. Foto Clara Raimundo

Carmo Diniz, diretora executiva da Cáritas de Lisboa. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Bióloga de formação e “de coração”, a diretora executiva da Cáritas de Lisboa está neste momento a fazer o doutoramento em Ecologia Integral pela Universidade Católica e não tem dúvidas de que existe uma forte ligação entre o ambiental, o social e o espiritual.

No dia a dia da instituição que dirige, os princípios da ecologia integral já “eram vividos de forma intuitiva” mesmo antes de ela ter chegado à direção, há pouco mais de um ano. Entretanto, foram transpostos para os eixos estratégicos de funcionamento. “Os nossos eixos têm a conversão ecológica explícita. Eu vivo aqui o nexo incindível entre a ecologia humana, a ecologia natural e a relação com Deus”, partilha. E a aplicação prática desta visão reflete-se precisamente na transição do “assistencialismo” para a “promoção social”.

Um dos passos que está a ser dado nesse sentido consiste na substituição do modelo da “rouparia” tradicional pelo das Lojas Sociais. “Com estas lojas, passamos de uma lógica em que quem tem a rouparia seleciona o que o outro deve levar, para uma lógica onde a própria pessoa escolhe, porque gosta mais de encarnado do que de verde”, ilustra Carmo Diniz.

O projeto, que terá uma “incubadora” a partir de setembro para guiar as paróquias na criação de mais lojas sociais com “bom gosto, triagem rigorosa e sentido de comunidade”, inspira-se em parceiros como a Dona Ajuda. “Esta tanto funciona como loja de segunda mão para qualquer pessoa, como para quem não pode pagar e vai buscar gratuitamente. Estas pessoas convivem, e isso traz comunidade, traz dignidade”, sublinha a diretora executiva da Cáritas de Lisboa.

Outro projeto que visa devolver a dignidade aos mais vulneráveis, particularmente aos que não conseguem integrar-se no mercado de trabalho, é o programa de empregabilidade que a instituição desenvolveu em parceria com a Fundação Endesa, e que forma instaladores de painéis fotovoltaicos.

No âmbito deste projeto, Carmo Diniz recorda o rosto de uma candidata que, embora quisesse trabalhar no apoio a idosos, se candidatava à montagem de painéis solares por pura necessidade. “Eu só quero trabalhar”, dizia. No entanto, “estar disponível para fazer qualquer coisa também não é bom, nem é digno”, alerta a responsável. E nestes casos a missão da Cáritas tem de passar por um “trabalho de orientação e discernimento”, ajudando as pessoas a encontrar um caminho profissional que respeite as suas competências e lhes devolva uma “vida normal”.

Em suma, seja tendo a porta sempre aberta, seja proporcionando a escolha digna numa Loja Social ou dando orientação e formação a um desempregado, a mensagem da Cáritas de Lisboa é clara: a pobreza e a exclusão social combatem-se com um olhar atento, em rede, num caminho de conversão ecológica que é, ao mesmo tempo, espiritual, comunitário e pastoral. Chegada aos 50 anos, a instituição prova que a sua força não está no assistencialismo, mas na capacidade de regenerar vidas e comunidades. A continuar assim, talvez o sonho se concretize e não chegue a cumprir um século.

 

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