Uma grave crise entre Espanha e Vaticano

50 anos do “Caso Añoveros”: quando a Igreja Católica afrontou o regime de Franco

| 25 Fev 2024

Cartoon na primeira página do Diario16, sobre a mais grave crise entre a Igreja Católica e a ditadura de Franco. Direitos reservados.

Cartoon na primeira página do Diario16, sobre a mais grave crise entre a Igreja Católica e a ditadura de Franco. Direitos reservados.

 

Foi há 50 anos: com o franquismo já em fase declinante, um bispo defendeu o direito do povo basco à sua identidade, o governo de Franco quis expulsá-lo e a crise que se desencadeou foi de tal envergadura que esteve iminente o corte de relações entre a Espanha e o Vaticano. Essa crise, considerada a mais grave entre a Igreja Católica e o regime totalitário espanhol, ficou conhecida como “o caso Añoveros”.

O caso decorreu da ação do seu principal protagonista, o bispo António Añoveros. Natural de Pamplona, foi ordenado presbítero em 1933, foi bispo em Cádiz, a partir de 1952, primeiro como auxiliar e coadjutor e mais tarde titular e, a partir de 1971, foi nomeado bispo de Bilbau.

Como bispo de Cádiz recorda-se a sua sensibilidade social, ao recusar uma generosa dádiva em dinheiro que lhe queriam oferecer para restaurar a catedral. Ele entendeu que não seria aceitável gastar tantos milhares de pesetas no edifício, quando havia tanta gente na cidade a carecer de habitação social condigna. Como fundo estava uma visão da ação pastoral segundo a qual a hierarquia e a Igreja devem estar próximas dos oprimidos e dos que sofrem, razão pela qual valorizava também o testemunho dos ‘padres operários’.

A ida para Bilbau, no País Basco, um território onde a ETA estava bem implantada e ativa, já terá sido motivada por este perfil de proximidade do prelado para com os mais pobres e por se tratar de uma diocese em que, pelo menos entre o clero, havia já uma tradição de forte consciência sociopolítica. 

O “caso” em torno do bispo António Añoveros estalou quando, em 24 de fevereiro de 1974, na missa dominical, foi lida em todas as paróquias da sua diocese um texto intitulado “O cristianismo, mensagem de salvação para os povos”, na qual se defendia que “o povo basco, a exemplo de outros povos do Estado espanhol, tem direito a conservar a sua própria identidade, cultivando e desenvolvendo o seu património espiritual, no quadro de uma organização sociopolítica que possa reconhecer a sua justa liberdade”.

O bispo ia mais longe, denunciando que o povo daquela região enfrentava “sérios obstáculos para alcançar esses direitos”, exemplificando com o caso da língua basca, “submetida a limitações notórias”, nomeadamente no ensino e nos meios de comunicação social.

Apesar de se referir, por vezes, que se tratou de uma homilia, não foi bem o caso. Tratou-se de um trabalho de largo fôlego, com vista à aplicação do espírito e diretivas do Concílio Vaticano II, realizado por três comissões criadas tempos antes pelo bispo, de que o documento “O cristianismo, mensagem de salvação para os povos” era apenas um dos resultados. 

Añoveros foi bastante cuidadoso, consciente de que pisava um terreno delicado e até com perigos. Por isso, enviou o texto uns dias antes para a conferência episcopal, então presidida pelo cardeal Tarancon, mas sempre longe de supor as consequências que daí adviriam. Aos párocos pediu que o texto fosse lido sem comentários e, se algum deles entendesse que havia circunstâncias fortes para não o ler, se sentisse livre para tal. O Governo, presidido por Arias Navarro, por sua vez, teve acesso ao texto por portas travessas e, sem sucesso, fez o possível por dissuadir o bispo de avançar. 

Mal o texto se difundiu, o mundo político e o mundo eclesiástico entraram em ebulição. O Governo ordenou o cerco ao paço episcopal e fez saber ao bispo António Añoveros que tinha um avião preparado para o levar para fora do país, a ele e ao seu vigário geral. O prelado respondeu que só o faria por instrução do Papa (Paulo VI). E lembrou que poderia haver uma pena de excomunhão para quem se atrevesse a remover um bispo do seu múnus pastoral. Outras versões indicam que quem fez esta ameaça terá sido o cardeal Tarancon, ele que, sendo embora inicialmente, defensor de que Añoveros não tivesse mandado ler o texto nas paróquias, uma vez isso feito, pôs-se ao lado do bispo ameaçado. Uma declaração de corte de relações entre Madrid e o Vaticano terá estado em cima da mesa, mas terá sido por intervenção direta de Franco, na sequência de outras diligências, que o cerco ao bispo e a ameaça da sua expulsão foram abortados.

A verdade é que a contestação ao regime crescia em várias frentes e a própria Igreja dava sinais de já não dar as garantias de aliança de décadas anteriores. 

Quando o bispo e o vigário geral, depois de um período de auto-afastamento, para deixar serenar os ânimos, regressaram a Bilbau, um numeroso grupo de cristãos concentraram-se para lhes dar as boas-vindas.

 

Fontes consultadas: Trabalho do jornalista Félix García Olano, escrito para os 40 anos do caso; e Religion Digital.

 

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