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Envolvidos na pastoral da Igreja

50 padres homossexuais dão a cara em Itália, no âmbito do Sínodo

| 17/05/2023

“O Senhor sempre soube da minha homossexualidade, mesmo antes de eu a ter descoberto. E se ele me escolheu assim, quem sou eu para dizer não?”  Foto © Robert V. Ruggiero / Unsplash

 

Meia centena de padres homossexuais e bissexuais, na Itália, decidiram aproveitar o atual processo sinodal da Igreja Católica, com o objetivo de “abrir o debate para superar silêncios e contradições da disciplina eclesiástica relativamente a quem é gay e respeita o celibato”. Deixam este desafio: “Deus chamou-nos ao ministério tal como somos. Temos de ouvir as pessoas, a ciência e a realidade”.

O documento que subscreveram, já na primavera de 2022, mas só agora detalhadamente debatido, num extenso inquérito jornalístico de Vittoria Prisciandaro, publicado na edição de maio da revista católica Jesus, intitula-se “Con tutto il cuore” [Com todo o coração]. Foi oportunamente enviado à Conferência Episcopal italiana e resultou de um trabalho de sete pequenos grupos de presbíteros convidados pela rede Gionata.org.

Como refere nesse artigo um dos padres subscritores, a iniciativa propôs-se assumir que a realidade da Igreja é também feita de padres com “diferentes identidades sexuais” e que isso constitui “uma realidade positiva”.  E era para eles importante que, no caminho sinodal para que os cristãos foram convocados pelo Papa Francisco, esse elemento da realidade não fosse deixado de lado.

“O Senhor sempre soube da minha homossexualidade, mesmo antes de eu a ter descoberto. E se ele me escolheu assim, quem sou eu para dizer não?”, pergunta-se um dos presbíteros.

A jornalista salienta uma conclusão das conversas que manteve com vários dos subscritores. De um modo geral, muitos deles dão conta de “um ministério fecundo, com sucessos pastorais, de relações sãs e integradas na comunidade”. Algo que não constituiu surpresa para Chiara d’Urbano, psicoterapeuta citada no trabalho da revista, que é também consultora do Dicastério para o Clero e perita da Rota Romana. “Os aspetos significativos para valorar e discernir a qualidade de uma vocação, do ponto de vista psicológico, são a motivação e a maturidade psicoafectiva da pessoa”, nota ela, explicando, de seguida: “A orientação sexual – que o prémio Nobel da Medicina Eric Richar Kandel, define como ‘atração romântica de uma pessoa pelo sexo oposto, pelo mesmo sexo ou entre ambos’ – não é uma peça isolada, mas, antes, a parte de um todo, uma maturidade geral, a harmonia do indivíduo, o funcionamento complexo da pessoa. A pergunta seria: como é que a pessoa integra a sua orientação, qualquer que ela seja, na sua vida?”

O trabalho da revista é acompanhado por uma entrevista com a equipa de formação sobre a pastoral com as pessoas LGBT+, constituída por três padres, uma religiosa e um teólogo. Esse trabalho decorre desde há sete anos, em diálogo com a Conferência Episcopal do país e envolve à roda de uma centena de agentes de pastoral que seguem os crentes LGBT+ e os pais com filhos LGBT+, da rede Gionata.org.

É precisamente esta rede que promove, já a partir desta sexta-feira, 19, em Albano Laziale, uma localidade do Lácio, a região onde se situa Roma, a nona edição de um evento de três dias sob o lema “Caminhando se faz caminho”, dedicado a cristãos LGBT+, seus pais e os agentes pastorais que os acompanham.

Gionata é um projeto criado em 2007, que visa dar a conhecer “o percurso que os cristãos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgénero) fazem quotidianamente nas suas comunidades e nas várias igrejas”, para que estas experiências possam ajudar a sociedade e as igrejas a abrirem-se à compreensão e ao acolhimento das pessoas homossexuais.

Num dos três dias decorrerão dez “workshops experienciais”, alternando com momentos de oração, debate e partilha, contando com o contributo de oradores, entre os quais consagrados, consagradas e leigos, “empenhados há anos na pastoral”, no âmbito desta rede

Entretanto, a revista do clero italiano, Vita e Pensiero  [vida e pensamento] de Milão, traz no seu número deste mês de maio, um artigo intitulado “A realidade é superior à ideia”, dedicado às pessoas LGBT+ nas paróquias.

O artigo é de Marco Gallo, presbítero da diocese de Saluzzo, pároco e professor de Teologia Sacramental em vários institutos teológicos do Piemonte e de Paris (Institut Catholique). Com uma preocupação sobretudo pastoral, o autor conclui: “sobre as questões que se abrem a partir da escuta dos crentes LGBT+, é necessário reconhecer que o trabalho da teologia é já muito e não faltam estaleiros com trabalhadores empenhados … “, mas, “mesmo sem respostas definitivas, as comunidades eclesiais parecem já capazes de iniciar processos”.

O teólogo acentua que as “comunidades generativas (…) não têm doutrinas e regras diferentes das outras”; mas nelas há um modo de escutar o Espírito e entre todos”. Ainda que “sem respostas definitivas, parecem já capazes de iniciar processos. Como acontece frequentemente na história da Igreja, a pastoral antecipa o que a teologia depois reflete”, observa o autor..

 

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