
“Se em 1975 o populismo de esquerda esboçou uma tentativa de tomar o poder pela via revolucionária, a partir de Lisboa, hoje, quarenta e cinco anos depois, o populismo de direita começa a tentar tomar o poder pela via democrática, começando pelos Açores.” Foto: Pedro Ribeiro Simões, Lisboa, Portugal – SINÉ – Les traits de la Revolution d’Avril 1974 au Portugal/Wikimedia Commons
Assistimos hoje a uma versão açoriana de uma espécie de 25 de Novembro ao contrário (como no título). Se em 1975 a esquerda antidemocrática tentou tomar o poder pela força, agora é a direita antidemocrática a tentar fazê-lo encavalitada num PSD onde Sá Carneiro já teria muita dificuldade em rever-se.
No dia 25 de Novembro de 1975 estava eu a cumprir o serviço militar obrigatório na Escola Prática de Serviço de Material, em Sacavém, e toda a guarnição teve que ficar fechada no quartel durante a semana que se seguiu. A tentativa de golpe militar da esquerda foi evidente e constituiu o corolário do agitado Verão Quente de 1975, durante o qual, no rescaldo da revolução dos cravos em Abril do ano anterior, se viveu uma agitação profunda nas forças armadas, se furtaram armas e distribuíram aos civis e se registaram atentados bombistas em diversos pontos do país.
Todos se lembram como a direita tentou cavalgar a situação, desconcertada desde a intentona do 11 de Março, que redundou numa radicalização de sinal contrário. O momento político obrigou um dos líderes mais lúcidos e preparados do MFA, Melo Antunes, a vir travar a intenção revanchista de ilegalizar o PCP. Foi apenas a partir daí que os comunistas se dedicaram mais abertamente ao jogo democrático, visto terem sentido que a democracia (burguesa, segundo eles) vencera e que não lhes restava outro remédio.
Se em 1975 o populismo de esquerda esboçou uma tentativa de tomar o poder pela via revolucionária, a partir de Lisboa, hoje, quarenta e cinco anos depois, o populismo de direita começa a tentar tomar o poder pela via democrática, começando pelos Açores. O acordo entre a direita democrática e o Chega, um partido populista, racista, misógino e extremista, augura o pior, até porque é dirigido por um oportunista, que muda constantemente de discurso e ideias.
Vivemos tempos perigosos, é certo. Quando se levantam por essa Europa fora movimentos populistas de extrema-direita, sem esquecer a América de Trump e o Brasil de Bolsonaro, ou populismos de esquerda como na Venezuela e outros. Hoje as notícias falsas são o pão de cada dia e as redes sociais tornaram-se centrais de intoxicação e desinformação, resultando daí que a verdade é talhada a gosto, segundo as conveniências da pessoa ou do grupo e do momento. É a era da pós-verdade.
Se no tempo do salazarismo as pessoas se habituaram a interpretar as notícias dos jornais em sentido contrário e no teatro de revista os espectadores se riam a “ler” nas entrelinhas, hoje estão a habituar-se a verificar cada informação que surge na internet, dada a significativa percentagem de falsas informações surgidas todos os dias nas redes socias. Se algumas delas são relativamente inocentes (embora de mau gosto), como quando se anuncia falsamente a morte duma figura internacional famosa, já os ataques de carácter são frequentes no que toca aos governantes, por razões de jogo político sujo.
Neste contexto é fácil enganar as pessoas, ao desacreditar a comunicação social, a quem compete fazer a mediação das notícias, com todos os cuidados de verificação dos factos e do contraditório, mas também a classe política, acusando-a de todos os males deste mundo, como se os políticos fossem uma súcia de malfeitores e não apenas um reflexo da nossa sociedade.
Os Estados Unidos perceberam a tempo que, a continuar por mais quatro anos o populismo de direita, nacionalista, isolacionista, unilateral, racista e negacionista na Casa Branca, além de dividir profundamente os cidadãos, o que já acontece, acabaria por conduzir o país ao caos e trazer crescente perturbação aos aliados. Por alguma razão a Europa respirou de alívio com um novo presidente eleito, e apenas a Rússia ainda não o felicitou (no momento em que escrevo), além do Brasil, que tem um presidente imitador de Trump, e o cauteloso vizinho México. Até o velho pragmatismo chinês já se juntou ao mundo na saudação a Biden.
O populismo é uma doença política pior do que a covid-19, mas o PSD resolveu abrir-lhe a porta correndo o risco de divisão interna. Este disparate político já levou alguns notáveis sociais-democratas a exigirem um congresso extraordinário para o partido se pronunciar sobre a matéria. Do PPM nada se espera e necessita de fazer prova de vida. Quanto a um desesperado CDS, entregue a um garoto, veremos se não fez o seu hara-kiri final.
Estamos, portanto, a assistir a uma versão açoriana de uma espécie de 25 de Novembro ao contrário. Se em 1975 a esquerda antidemocrática tentou tomar o poder pela força, agora é a direita antidemocrática a tentar fazê-lo encavalitada num PSD onde Sá Carneiro já teria muita dificuldade em rever-se.
José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.









