52 ed Orbmevon

| 25 Nov 20

“Se em 1975 o populismo de esquerda esboçou uma tentativa de tomar o poder pela via revolucionária, a partir de Lisboa, hoje, quarenta e cinco anos depois, o populismo de direita começa a tentar tomar o poder pela via democrática, começando pelos Açores.” Foto: Pedro Ribeiro Simões, Lisboa, Portugal – SINÉ – Les traits de la Revolution d’Avril 1974 au Portugal/Wikimedia Commons

 

Assistimos hoje a uma versão açoriana de uma espécie de 25 de Novembro ao contrário (como no título). Se em 1975 a esquerda antidemocrática tentou tomar o poder pela força, agora é a direita antidemocrática a tentar fazê-lo encavalitada num PSD onde Sá Carneiro já teria muita dificuldade em rever-se.

 

No dia 25 de Novembro de 1975 estava eu a cumprir o serviço militar obrigatório na Escola Prática de Serviço de Material, em Sacavém, e toda a guarnição teve que ficar fechada no quartel durante a semana que se seguiu. A tentativa de golpe militar da esquerda foi evidente e constituiu o corolário do agitado Verão Quente de 1975, durante o qual, no rescaldo da revolução dos cravos em Abril do ano anterior, se viveu uma agitação profunda nas forças armadas, se furtaram armas e distribuíram aos civis e se registaram atentados bombistas em diversos pontos do país.

Todos se lembram como a direita tentou cavalgar a situação, desconcertada desde a intentona do 11 de Março, que redundou numa radicalização de sinal contrário. O momento político obrigou um dos líderes mais lúcidos e preparados do MFA, Melo Antunes, a vir travar a intenção revanchista de ilegalizar o PCP. Foi apenas a partir daí que os comunistas se dedicaram mais abertamente ao jogo democrático, visto terem sentido que a democracia (burguesa, segundo eles) vencera e que não lhes restava outro remédio.

Se em 1975 o populismo de esquerda esboçou uma tentativa de tomar o poder pela via revolucionária, a partir de Lisboa, hoje, quarenta e cinco anos depois, o populismo de direita começa a tentar tomar o poder pela via democrática, começando pelos Açores. O acordo entre a direita democrática e o Chega, um partido populista, racista, misógino e extremista, augura o pior, até porque é dirigido por um oportunista, que muda constantemente de discurso e ideias.

Vivemos tempos perigosos, é certo. Quando se levantam por essa Europa fora movimentos populistas de extrema-direita, sem esquecer a América de Trump e o Brasil de Bolsonaro, ou populismos de esquerda como na Venezuela e outros. Hoje as notícias falsas são o pão de cada dia e as redes sociais tornaram-se centrais de intoxicação e desinformação, resultando daí que a verdade é talhada a gosto, segundo as conveniências da pessoa ou do grupo e do momento. É a era da pós-verdade.

Se no tempo do salazarismo as pessoas se habituaram a interpretar as notícias dos jornais em sentido contrário e no teatro de revista os espectadores se riam a “ler” nas entrelinhas, hoje estão a habituar-se a verificar cada informação que surge na internet, dada a significativa percentagem de falsas informações surgidas todos os dias nas redes socias. Se algumas delas são relativamente inocentes (embora de mau gosto), como quando se anuncia falsamente a morte duma figura internacional famosa, já os ataques de carácter são frequentes no que toca aos governantes, por razões de jogo político sujo.

Neste contexto é fácil enganar as pessoas, ao desacreditar a comunicação social, a quem compete fazer a mediação das notícias, com todos os cuidados de verificação dos factos e do contraditório, mas também a classe política, acusando-a de todos os males deste mundo, como se os políticos fossem uma súcia de malfeitores e não apenas um reflexo da nossa sociedade.

Os Estados Unidos perceberam a tempo que, a continuar por mais quatro anos o populismo de direita, nacionalista, isolacionista, unilateral, racista e negacionista na Casa Branca, além de dividir profundamente os cidadãos, o que já acontece, acabaria por conduzir o país ao caos e trazer crescente perturbação aos aliados. Por alguma razão a Europa respirou de alívio com um novo presidente eleito, e apenas a Rússia ainda não o felicitou (no momento em que escrevo), além do Brasil, que tem um presidente imitador de Trump, e o cauteloso vizinho México. Até o velho pragmatismo chinês já se juntou ao mundo na saudação a Biden.

O populismo é uma doença política pior do que a covid-19, mas o PSD resolveu abrir-lhe a porta correndo o risco de divisão interna. Este disparate político já levou alguns notáveis sociais-democratas a exigirem um congresso extraordinário para o partido se pronunciar sobre a matéria. Do PPM nada se espera e necessita de fazer prova de vida. Quanto a um desesperado CDS, entregue a um garoto, veremos se não fez o seu hara-kiri final.

Estamos, portanto, a assistir a uma versão açoriana de uma espécie de 25 de Novembro ao contrário. Se em 1975 a esquerda antidemocrática tentou tomar o poder pela força, agora é a direita antidemocrática a tentar fazê-lo encavalitada num PSD onde Sá Carneiro já teria muita dificuldade em rever-se.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

Abolir as armas nucleares

Abolir as armas nucleares novidade

Dinâmicas colectivas mobilizadoras, pronunciamentos de líderes políticos, insistência nos apelos de dirigentes religiosos, são marcos que ajudam a explicar o facto de, a 7 de Julho de 2017, a Assembleia Geral da ONU ter adoptado, numa decisão histórica, o Tratado de Proibição das Armas Nucleares, votado por 122 países, com a ausência dos países detentores de armas nucleares, bem como dos membros da Aliança Atlântica.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Semana pela Unidade dos Cristãos: Aplicação disponibiliza orações em árabe novidade

Pela primeira vez, os cristãos de língua árabe podem acompanhar as orações e meditações bíblicas da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (que se assinala entre 18 e 25 de janeiro) no seu próprio idioma, graças à tradução assegurada pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), em parceria com o Conselho de Igrejas do Médio Oriente (MECC) e a aplicação bíblica You Version – The Bible App.

Diocese espanhola vende bens patrimoniais para ajudar os pobres

O arcebispo de Valencia (Espanha), cardeal Antonio Cañizares, anunciou a criação da fundação diocesana Pauperibus, através da qual a sua diocese irá vender bens patrimoniais próprios “para aliviar as necessidades dos mais pobres e vulneráveis”, acentuadas pela pandemia de covid-19.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Bispo Manuel Martins evocado nos 94 anos do seu nascimento novidade

Naquele que seria o dia do 94º aniversário do primeiro bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, um grupo coordenado por Eugénio Fonseca promove uma sessão de evocação e homenagem, durante a qual intervém Manuel Malheiros, da Liga Portuguesa dos Direitos Humanos/Civitas.  

Indonésia: Paróquias acolhem 15 mil desalojados após terramoto

Na sequência do violento terramoto que atingiu a Ilha de Sulawesi, na Indonésia, na noite de quinta para sexta-feira, dia 15, a Cáritas local criou um centro de emergência para apoio à população afetada, tendo acolhido em duas paróquias um total de 15 mil pessoas que ficaram sem casa. A Conferência Episcopal Italiana (católica) doou, por seu lado, 500 mil euros para ajudar as famílias mais atingidas.

“Pelo amor de Deus, enviem-nos oxigénio”, apela o arcebispo de Manaus

Com o aumento vertiginoso de casos de covid-19 no Estado do Amazonas (Brasil), particularmente na capital Manaus, e com as principais unidades de saúde já sem oxigénio disponível, o arcebispo da diocese, Leonardo Ulrich Steiner, gravou um vídeo apelando à solidariedade de todos. “Pelo amor de Deus, enviem-nos oxigénio”, pediu na mensagem divulgada esta sexta-feira, 15 de janeiro, pelo Vatican News, sublinhando que a região se encontra “num momento de pandemia, quase sem saída”, em que as pessoas estão a morrer “por falta de oxigénio, por falta de camas” nas unidades de cuidados intensivos.

Bangladesh: Incêndio em campo de refugiados rohingya deixa 3.500 sem casa

Um incêndio devastou esta quinta-feira, 14 de janeiro, o campo de refugiados da cidade portuária de Cox’s Bazar, no sul do Bangladesh, tendo destruído mais de 550 casas que abrigavam cerca de 3.500 pessoas da minoria rohingya. Não são conhecidas até ao momento quaisquer vítimas mortais ou feridos graves, mas este incidente “terá roubado a muitas famílias o abrigo e dignidade que lhes restava”, afirmou o diretor da ONG Save the Children no país, Onn van Manen.

Entre margens

“Re-samaritanização” na “Fratelli Tutti” novidade

O Papa Francisco entendeu por bem dedicar o segundo capítulo da encíclica Fratelli Tutti (FT) à parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37). E a maneira como aborda o tema permite-nos falar de “re-samaritanização”, por dois motivos: primeiro, porque vem recordar que este modelo tão antigo de caridade e de ação-intervenção social mantém plena atualidade; e, em segundo lugar, porque interpreta a parábola de maneira diferente da mais comum e tradicional.

A fraude do nacionalismo cristão novidade

A secção de língua inglesa da International Bonhoeffer Society (fundada em 1973), um grupo de teólogos e académicos dedicados a estudar a vida e os escritos deixados pelo pastor luterano alemão e resistente antinazi Dietrich Bonhoeffer, executado em 1945 num campo de concentração, juntou-se ao crescente coro de autoridades eleitas, académicos e líderes religiosos que pedem a destituição do Presidente Donald Trump.

Euforia, esperança ou amnésia coletiva

2020 foi um ano em que, em boa parte, nos perdemos. Alguns arriscaram, mas, perante as consequências do destemor inicial, recuaram e reposicionaram a sua forma de vida. Outros não aprenderam nada e exibiram-se heróis, como se os riscos comprovados não existissem, como se as ameaças fossem coisa de fracos e de gente fora de moda. Pois é mesmo disso que tenho medo – de uma amnésia coletiva.

Cultura e artes

A vida, o sofrimento e Jesus

Dois autores, ambos presbíteros com profundas experiências e preocupações pastorais – Valdés é biblista argentino, Bermejo é especialista na pastoral da saúde em Espanha – oferecem em Peregrinar a Jesus um contributo notável para aprofundar as difíceis e exigentes questões relacionadas com a saúde, o sofrimento e a relação de fé.

O olhar da raposa

Infelizmente, são ainda muitos os lugares deste mundo onde a pena de morte continua a existir e a ser praticada. Sirvam de exemplo estas notícias do Público de sexta, 11 de Dezembro e Domingo 13 de Dezembro: “Trump autoriza onda de execuções como não se via há 124 anos”; “Alfred Bourgeois é o segundo executado em dois dias pela Administração Trump”; “Irão executa jornalista por inspirar protestos de 2017 contra o regime”.

A pegada de religiosidade na obra de João Cutileiro

“Na vasta obra de João Cutileiro, há uma intermitente, mas persistente, pegada de religiosidade que deixou plasmada em poemas de pedra”, escreve o padre Mário Tavares de Oliveira, cónego da diocese de Évora, num texto que evoca a arte do escultor que morreu no passado dia 5.

Palavra e Palavras

Durante as semanas de Advento li o novo livro de Valter Hugo Mãe (VHM), Contra Mim. Trata-se de um livro que revela quem é Valter Hugo Mãe. A sua leitura literalmente me encantou e fez emergir múltiplas epifanias.  Um grande livro, um grande escritor. Uma prosa lindíssima e original. Uma profunda busca de Deus.

Auscultar a expressão de um Povo

A chamada Caixa de Correio de Nossa Senhora constitui um arquivo do santuário de Fátima no qual se conservam as mensagens ali enviadas de todo o mundo, a partir da década de 40 do século passado, dirigidas à Mãe de Jesus. Trata-se de cartas, bilhetes, postais, ex-votos, num número que atinge os milhões e que constituem uma expressão de devoção íntima e pessoal de inúmeros católicos de todas as origens sociais, económicas e familiares.

Sete Partidas

Angela Merkel

Partilho o último discurso de Ano Novo de Angela Merkel como chanceler alemã. A princípio não gostava muito dela, e desgostei especialmente na época da crise do euro. A rejeição era tal que, há cerca de 15 anos, os meus filhos sentiram necessidade de tomar uma importante decisão pessoal: anunciaram que gostavam muito dos avós “apesar de eles votarem na Angela Merkel”.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This