Sessenta anos do Concílio Vaticano II: um tremendo vendaval do Espírito

| 8 Out 2022

Concílio Vaticano II na Basílica de São Pedro

Concílio Vaticano II na Basílica de São Pedro.

 

Faz precisamente 60 anos no próximo dia 11 de outubro de 1962 quando o Papa João XXIII inaugurou solenemente o Concílio Vaticano II. Destacando-se como um dos mais importantes eventos religiosos e eclesiais do século XX, nunca antes um concílio ecuménico da Igreja Católica Romana foi tão amplamente coberto e noticiado pelos modernos meios de comunicação social. Em procissão solene e à entrada da Basílica, nem todos os bispos sorriam à medida que iam passando. Muitos acreditavam que o Concílio tinha sido convocado simplesmente para aprovar documentos já previamente preparados. Alguns bispos dos Estados Unidos tinham insinuado que iriam simbolicamente estar durante duas ou três semanas, e que depois retornariam para casa. E todos os bispos do Paraguai haviam sido informados por um alto dignitário da cúria de que tudo tinha sido tão bem preparado em Roma que o Concílio acabaria em breve. Quando, finalmente, o Papa João entrou na Basílica e chegou ao altar, ajoelhou-se para orar. Seguiu-se a primeira oração oficial do Concílio Vaticano II, o Veni, Creator Spiritus (“Vinde, Espírito Criador”), no qual o Papa em conjunto com os padres do Concílio, invocaram o Espírito Santo pedindo luz e orientação para a tarefa que se avizinha. E, de facto, a Igreja reunida com os seus 2 700 padres conciliares, juntamente com os seus convidados das igrejas ortodoxas, velho-católicas, anglicanas e protestantes, não imaginava sequer que pairava no horizonte um tremendo vendaval do Espírito Santo, preparando a Igreja em geral para uma verdadeira corrente de graça que jorraria para dentro de si própria e para o mundo. Teria sido a resposta às orações do bom Papa João, que anteriormente tinha pedido por um novo aggiornamento, ou seja, por uma renovação e um refrescamento da Igreja. 

Ao longo de pouco mais de três anos, foram produzidos inúmeros documentos – Constituições, Decretos e Declarações, dos quais importa brevemente referir pelo menos três. O mais importante é certamente a Constituição Dogmática Lumen Gentium, a qual iria discorrer sobre a identidade e missão da Igreja. Duma igreja que se focava essencialmente na sua parte visível, ou seja, institucional/hierárquica, passou agora a ser entendida a si mesma como realidade teológica. A Igreja é assim primariamente o Corpo Místico de Cristo e definida como povo de Deus em peregrinação (LG 3;7), onde o Espírito, enviado no Pentecostes, continuamente santifica, renova, instrui e guia a Igreja na verdade e a equipa com “dons hierárquicos e carismáticos” (LG 4), distribuindo os seus variados dons segundo a sua riqueza e as necessidades dos ministérios para utilidade da Igreja” (LG, 7).

Um outro documento importante, é o Decreto Apostolicam Actuositatem (AA) sobre o Apostolado dos Leigos, promulgado pelo Papa Paulo VI em novembro de 1965. Além de procurar descrever a natureza, caráter e diversidade do apostolado dos leigos, a AA estabeleceu alguns princípios básicos e diretrizes pastorais para o exercício do mesmo. As aberturas da AA põem de relevo a importância do papel atribuído a cada membro na construção e missão da Igreja no mundo, onde os fiéis batizados, além de participarem plenamente nas funções sacerdotais, proféticas e reais de Cristo, após a confirmação recebem do Espírito Santo dons de graça para o testemunho do evangelho, que são a força interior do seu apostolado na missão do inteiro Povo de Deus, na Igreja e no mundo (AA 2). 

Finalmente, o Decreto sobre o Ecumenismo (UR), promulgado pelo Papa Paulo VI em 21 de novembro de 1964.  Tendo em conta as diversas divisões existentes entre os cristãos e atendendo à vontade de união expressa por Jesus, os padres conciliares anotam que “o Espírito Santo habita nos crentes, enche e rege toda a Igreja, realiza aquela maravilhosa comunhão dos fiéis e une a todos tão intimamente em Cristo, que é princípio da unidade da Igreja. Ele faz a distribuição das graças e dos ofícios, enriquecendo a Igreja de Jesus Cristo com múltiplos dons, «a fim de aperfeiçoar os santos para a obra do ministério, na edificação do corpo de Cristo» (Ef. 4,12)” (UR 2).  Assim, a restauração da unidade de todos os cristãos é inspirada e guiada pelo Espírito Santo (UR 1,4), o qual, como “alma” da Igreja, dá a unidade e diversidades dos dons e mistérios (LG 7). Nesse sentido, “o Concílio deseja insistentemente que as iniciativas dos filhos da Igreja católica juntamente com as dos irmãos separados se desenvolvam; que não se ponham obstáculos aos caminhos da Providência; e que não se prejudiquem os futuros impulsos do Espírito Santo.” (UR 24).

Passados 60 anos, esse tremendo vendaval do Espírito que surgiu naqueles dias ainda se faz sentir nos dias de hoje. As grandes reformas que o atual Papa Francisco tem vindo a promover e a implementar, mesmo contra certas correntes antirreformistas provenientes das alas mais duras e fundamentalistas da igreja, vão na continuidade do espírito do Concílio Vaticano II. Numa entrevista concedida ao padre Antonio Spadaro em 2013, deixava desde já bem claro a sua posição: “O Vaticano II foi uma releitura do Evangelho à luz da cultura contemporânea. Produziu um movimento de renovação que vem simplesmente do próprio Evangelho. Os frutos são enormes. Basta recordar a liturgia. O trabalho da reforma litúrgica foi um serviço ao povo como releitura do Evangelho a partir de uma situação histórica concreta. Sim, existem linhas de hermenêutica de continuidade e de descontinuidade. Todavia, uma coisa é clara: a dinâmica de leitura do Evangelho no hoje, que é própria do Concílio, é absolutamente irreversível.”

Conforme afirmou recentemente, em maio de 2022, numa audiência concedida a alguns editores europeus de jornais e revistas jesuítas, na biblioteca do Palácio Apostólico do Vaticano, o Concílio Vaticano II não é um campo de batalha, mas o futuro. O Papa Francisco também notou algo que já tinha dito muitas vezes: “É preciso um século para que um concílio crie raízes. Então ainda temos 40 anos para o fazer criar raízes!”. Afinal, no entender do Papa, estaremos a sentir esse vendaval ainda por muito tempo.

 

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