Cristãos e política: o debate “decisivo” sobre as eleições está no 7MARGENS

| 8 Mar 24

Convidem-se três católicos: uma ex-deputada do CDS, um ministro do Partido Socialista e um antigo deputado do Bloco de Esquerda. O resultado é um debate entre três pessoas que – descobre-se depois – cultivam uma relação de amizade, trocam mensagens em momentos de votações importantes confessando angústias ou humildade perante temas difíceis, sublinham o pluralismo e referem-se em permanência à doutrina social da Igreja. O debate decisivo sobre as eleições legislativas do próximo domingo, 10 de Março, foi no 7MARGENS da Antena 1.

 

Ministro João Costa (PS) e ex-deputados Ana Rita Bessa (CDS), na gravação do programa 7MARGENS, na Antena 1. Foto António Marujo

João Costa e Ana Rita Bessa; José Manuel Pureza estava nos estúdios da Antena 1 em Coimbra: três católicos em partidos diferentes. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

“Disse um caloroso sim” ao convite, confessa Ana Rita Bessa, 50 anos, que durante seis foi deputada à Assembleia da República (AR) pelo CDS-PP e integrou a associação Empresários pela Inclusão Social. “Somos três pessoas de identidade católica com expressões políticas diferentes, que ao longo dos anos fomos capazes de construir pontes – isso diz muito sobre o que é o papel de um católico na política.”

A actual administradora do grupo editorial LeYa referia-se deste modo a João Costa, actual ministro da Educação, e José Manuel Pureza, antigo deputado do Bloco de Esquerda (2009-2011 e 2015-2022, tendo neste último período sido também vice-presidente da AR). Com uma referência cristã importante na sua actividade política, os três foram os convidados do programa 7MARGENS na Antena 1, a propósito das eleições do próximo domingo e das motivações que movem cada um deles.

“Sempre me meteu muita aflição a ideia de os católicos serem uma espécie de corpo identitário à parte na intervenção política”, acrescentava José Manuel Pureza, que participou no debate a partir dos estúdios da Antena 1 em Coimbra, sobre a possibilidade do diálogo entre diferentes identidades partidárias. “Na Igreja como na sociedade o pluralismo é uma virtude e é uma riqueza.” E acrescentava: “Isto tem balizas: a dignidade das pessoas, o destino universal dos bens, princípios fundamentais que têm sido trabalhados na doutrina social da Igreja.”

Falando da sua participação na Dialop – rede europeia de diálogo entre cristãos e marxistas, impulsionada pelo Papa– Pureza acrescenta que o apelo de Francisco tem sido o de encontrar “pontos de convergência para a transformação económica, social e política que é necessário fazer para salvaguardar os direitos das pessoas e a nossa casa comum”.

João Costa, ainda ministro, reagiu também de forma muito positiva ao convite para o debate: “O entusiasmo reforçou-se quando soube quem eram os meus interlocutores”, admite. “O debate não põe em causa o respeito e a capacidade de formar amizades”. Referindo-se ao “acaso histórico” que acantonou os católicos à direita, sublinha também a possibilidade do pluralismo político. Para os crentes, diz este membro do Corpo Nacional de Escutas, “há uma matriz: cuidado com a casa comum; grande compromisso com a dignidade da pessoa humana, com a justiça, com a a forma de garantir que se cumpre o amor ao próximo, incondicional”.

O igualmente professor de linguística na Universidade Nova de Lisboa recorda que na Jornada Mundial da Juventude em Lisboa “ouvimos o Papa a dizer ‘todos, todos, todos’; [mas] houve logo uma frente conservadora a dizer: atenção, ele disse ‘todos todos, todos’ mas não ‘tudo, tudo, tudo’, como que a corrigir o Papa.”

 

Eutanásia: confissões, convergências e diferenças

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Aquando das votações sobre a morte medicamente assistida, Ana Rita Bessa rezou “para ser fiel àquilo” a que se sente chamada “no exercício da política”. Foto © Motortion

 

Sobre um dos temas em que estiveram claramente divididos, o da despenalização da eutanásia, Ana Rita Bessa afirmou que “o movimento de um deputado expressar física e publicamente a sua convicção assume uma expressão seriíssima de responsabilidade”. No caso concreto das votações sobre a morte medicamente assistida, a antiga deputada do CDS-PP recorda que “talvez como nunca essas votações” a “tenham convocado um momento de oração, de genuína humildade a pedir para ser fiel àquilo” a que se sente chamada “no exercício da política”.

“A votação foi convicta, foi informada, mas também vem nesta água de profunda humildade”, acrescenta a ex-deputada centrista. E mesmo em relação ao voto diferente dos seus dois parceiros de debate, diz que não tem “qualquer ímpeto de um combate político nessa área” porque está consciente de que também no caso dos seus adversários o seu voto foi “uma expressão convicta e informada, mas também humilde”.

O ministro João Costa recorda-se, aliás, na primeira votação parlamentar sobre a eutanásia, de ter enviado uma mensagem a Rita Bessa, dizendo: “Ainda bem que não sou deputado…” E confessa outra inquietação quando vê a preocupação “com a dignidade antes de nascer e a hora da morte e esquecemo-nos da dignidade em todo o percurso” entre esses dois momentos. Um texto seu no Facebook motivou, aliás, reacções díspares: “Fui violentamente atacado por pessoas que me diziam ‘como é que podes ser a favor da eutanásia?’ e outras que diziam ‘como é que podes ser contra a eutanásia?’”

A propósito do mesmo tema, José Pureza – que foi dirigente de vários movimentos católicos nas últimas décadas e foi um dos rostos do Bloco na luta pela despenalização da eutanásia – afirma que “há uma dimensão que é a da decisão política, que é tomada numa sociedade plural, com um Estado laico, com uma democracia pluralista”. No momento da decisão política, a missão é a de “ser intérprete desse pluralismo”, dando prioridade à aceitação do “pluralismo dentro da sociedade”.

Enquanto ministro, e tal como outros políticos, João Costa foi confrontado com acusações várias. Mas não vê falsidade nos seus adversários: “Não passei a vida a tropeçar em políticos mentirosos. Temos agora alguns fenómenos novos” em que a mentira ou a desinformação são muito usadas – e não só no contexto português – mas o político do PS reconhece “na generalidade” dos interlocutores “a afirmação de factos”, mesmo se depois eles são interpretados de diferentes maneiras.

 

Desarmar o mundo

homem armado na repudblica democratica do congo foto international christian concern

“A incapacidade de olhar de forma una para o tema da paz e da guerra tem condicionado o quanto o mundo ocidental tem deixado crescer conflitos noutros lados”, sublinhou João Costa. Foto © International Christian Concern

 

Perante um mundo em que crescem as guerras e os conflitos, Ana Rita Bessa admite que “os números de investimento em armamento têm vindo a crescer”, também na União Europeia, neste caso porque “partiram de uma base muito baixa”, tendo em conta o “tempo auspicioso” em que não era preciso falar do tema. Apesar disso, defende: “É muito importante reforçar as vias do multilateralismo”.

A situação que se vive preocupa-a muito, “porque é expressão de um mundo altamente polarizado, incapaz de dialogar” e defende o papel de cada pessoa neste contexto: “Não é indiferente” se cada um promover formas de debate “que não atentem contra a dignidade, que não alimentem facções”. Porque o contrário também explica, em parte, porque chegamos, muitas vezes, aos conflitos armados. Lamentando que o tema da guerra e da paz não tenha sido debatido na campanha eleitoral, acrescenta que a aproximação de marxistas e da Igreja Católica referido por José Pureza é um bom exemplo dessa possibilidade do diálogo.

“Foi sempre possível” um mundo desarmado, acrescenta o dirigente do Bloco, “enfrentando ventos adversos” e substituindo “o conflito violento pela transformação do conflito em crescimento colectivo”. Ao que o actual ministro da Educação junta uma dimensão importante para os católicos: a universalidade. “A incapacidade de olhar de forma una para o tema da paz e da guerra tem condicionado o quanto o mundo ocidental tem deixado crescer conflitos noutros lados: se isto não estiver no meu quintal, não é um problema; as questões com refugiados surgiram [só] quando eles começaram a vir para” a Europa, acrescenta, lamentando também “outra ausência nos debates: a cultura, a arte, o humanismo têm um grande contributo para o diálogo internacional”.

O combate à pobreza é outro tema do debate. Ana Rita Bessa refere a importância de encontrar várias vias para “erguer as pessoas da pobreza”, enquanto José Pureza sublinha que “as fragilidades, as discriminações, as exclusões, o empobrecimento económico e social” devem “ocupar um lugar central” na intervenção dos católicos.

 

Inquietações e sugestões

Ministro João Costa (PS) e ex-deputados Ana Rita Bessa (CDS), na gravação do programa 7MARGENS, na Antena 1. Foto António Marujo (1)

A ex-deputada do CDS e o ministro: livros, filmes e fotografias como sugestão. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Na parte final do programa, a administradora da LeYa destacou a notícia recente sobre a reparação financeira das vítimas de abusos sexuais na Igreja, José Pureza referiu o Curso de Ecologia Integral online promovido pelo Vaticano e João Costa sublinhou o texto de opinião de Miguel Marujo criticando o silêncio dos bispos sobre o partido Chega.

“Escolho este texto por haver silêncios inquietantes, que por vezes se transformam em cumplicidades implícitas. Saio do contexto nacional e coloco esta questão no plano internacional. Estamos a assistir à normalização de discursos de ódio, ao questionamento e menorização constantes de valores da democracia, ao desprezo pela complexidade. E isto está nos antípodas do cristianismo. E vale a pena promover este debate de forma séria”, justificou.

Nas sugestões finais, o ministro da educação propõe o livro Nós, do espanhol Manuel Vilas: “Com a escrita maravilhosa que o caracteriza, desafia-nos para o exercício da solidão, da reflexão sobre as relações e o amor e à forma de reconstrução de sentidos após as perdas.” José Pureza escolhe o filme A Zona de Interesse, de Jonathan Glazer, inspirado no livro homónimo de Martin Amis, um drama histórico sobre a Segunda Guerra Mundial e o nazismo. Ana Rita Bessa propõe a exposição Factum, com 170 fotografias de Eduardo Gageiro feitas nos últimos 50 anos, e que pode ser vista no Torreão da Cordoaria, em Lisboa, até dia 5 de Maio.

O debate pode ser ouvido na íntegra na RTP Play, no endereço https://www.rtp.pt/play/p12257/e749087/7-margens.

 

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