75 anos de Hiroshima: “Água, quero água.” E o relógio do padre Arrupe parou para sempre nas 8h15  

| 5 Ago 20

A nuvem nuclear sobre Hiroshima. Foto: Direitos reservados

 

A tragédia de Hiroshima, de que neste dia 6 de Agosto de 2020 se assinala o 75º aniversário (e de Nagasaqui, três dias depois), foi vivida na primeira pessoa pelo padre Pedro Arrupe, que viria a ser geral dos jesuítas. O seu relógio parou na hora da explosão. “Não é uma recordação, é uma vivência perpétua fora da história, que não acontece sem o seu tiquetaque. O ponteiro parou e Hiroshima deteve-se, cravada no nosso espírito”, escreveria ele.

 

Naquele dia, o tempo parou. Como foi?

“O barulho não era muito, mas veio com uma labareda que fazia lembrar magnésio a arder. Por momentos, alguma coisa, seguida por uma coluna vermelha de chamas, caiu velozmente e houve nova explosão, esta terrível, uns quinhentos e setenta metros acima da cidade. A violência desta explosão é indescritível. Línguas de fogo azuis e vermelhas saíram disparadas em todas as direcções. Logo de seguida um barulho atroador e insuportáveis ondas de calor caíram sobre a cidade, arrasando-a. Tudo o que podia arder ardeu e os metais derreteram-se. Esta foi a tragédia inicial.”

O padre Pedro Arrupe, que mais tarde viria a ser geral dos jesuítas, descreveu assim, nas suas Memórias, o momento em que, a 6 de Agosto de 1945, a mais potente bomba até então feita por mão humana matou, em segundos, 70 mil a 80 mil pessoas. Foi em Hiroshima, no sul do Japão. Além dos que morreram instantaneamente, pelo menos 250 mil a 350 mil pessoas terão morrido ou ficado feridas com os efeitos da bomba nos anos seguintes (mais 80 mil em Nagasáqui, que seria bombardeada três dias depois).

Esta foi a tragédia inicial. “No instante seguinte um gigantesco amontoado de nuvens rodopiou no céu. No centro da explosão apareceu uma bola medonha e gerou-se uma onda de gases que se deslocou à velocidade de oitocentos quilómetros por hora e varreu tudo num raio de seis quilómetros. Dez minutos depois uma espécie de chuva negra caiu na zona noroeste da cidade.”

No céu, segundos depois da explosão, o coronel norte-americano Paul Tibbets, piloto do Enola Gay, o avião que transportara a bomba, via os efeitos do sucedido e exclamava: “Meu Deus, o que nós fizemos!” Registadas pelo Nº 91, um dos dois aviões que acompanhava o Enola Gay na expedição, ficaram as fotografias que mostram um gigantesco cogumelo de uma nuvem assassina.

 

“Uma vivência fora da história, sem o tiquetaque”

O tempo parou. As memórias do antigo geral dos jesuítas, reproduzidas na biografia Pedro Arrupe – O Polémico Superior-Geral dos Jesuítas, de Pedro Miguel Lamet (ed. Tenacitas), completam-se ainda com a recordação desse momento em que o tempo ficou suspenso. Arrupe tinha sido apanhado pela explosão quando se preparava para, com um colega, programar as actividades desse dia no noviciado jesuíta que dirigia. A casa estremeceu, os vidros estilhaçaram-se, paredes, portas e tabiques foram derrubados, enquanto uma chuva de destroços caía sobre ambos, deitados no chão e protegendo a cabeça, como conta Lamet.

Quando, minutos depois, os dois padres confirmaram que todos os 35 estudantes da casa estavam bem, Pedro Arrupe insistiu que se devia fazer alguma coisa. Os companheiros mostraram-lhe que mais abaixo, o fogo impedia a passagem para a cidade. Arrupe dirigiu-se à capela, onde estivera entre as cinco e as sete da manhã a rezar. Quando saiu, olhou para o relógio da parede. Estava parado nas 8h15. Parara, tal como tinham parado todos os relógios e milhares de vidas humanas, observa Pedro Miguel Lamet.

Anos mais tarde, Pedro Arrupe escreveria: “Aquele relógio, silencioso e paralisado, foi para mim um símbolo, converteu-se num fenómeno para-histórico. Não é uma recordação, é uma vivência perpétua fora da história, que não acontece sem o seu tiquetaque. O ponteiro parou e Hiroshima deteve-se, cravada no nosso espírito.”

Na tragédia de Hiroshima, como três dias depois na de Nagasáqui, como antes, durante anos, em Auschwitz e em outros campos da morte, a história gravava a letras de sangue e fogo os nomes de muitas vítimas. Nas duas cidades japonesas, esses nomes foram escritos em cinza. Cada nome, uma história.

Momentos depois da explosão, Arrupe e os companheiros subiram uma pequena colina. Viram a cidade arrasada e em chamas. O jesuíta decidiu então montar um pequeno hospital improvisado com o que restava do estojo de primeiros socorros: “Um pouco de iodo, algumas aspirinas, sais de frutos e bicarbonato.”

 

“Vi uma luz, uma explosão terrível, mas não me aconteceu nada…”

Os primeiros feridos surgiram logo depois, com o corpo coberto de bolhas e manchas roxas, outras negras, de queimaduras. Muitos traziam contusões provocadas pela queda das casas, destroços incrustados no corpo, cortes provocados por vidros… Ao fim de quatro horas, cerca de 150 pessoas estavam já estendidas na casa, “com grande parte do corpo em carne viva.”


Quando Arrupe perguntava a alguém como se queimara, a resposta era invariável: “Não me queimei, padre. Não sei o que aconteceu. Vi uma luz, uma explosão terrível, mas não me aconteceu nada. Meia hora depois começaram a aparecer-me umas bolhas pequenas e superficiais e passadas quatro ou cinco horas tinha já uma queimadura, sem fogo que a provocasse.”

O impacto da bomba atómica sobre Hiroshima mede-se também com frios números: a temperatura chegou aos cinquenta milhões de graus centígrados; o incêndio resultante da explosão teve um quilómetro e meio de raio, queimando a pele a quem estava a mais de três quilómetros de distância e causando grave destruição num raio de seis quilómetros; cerca de 62 mil edifícios (em 90 mil) ficaram em ruínas – a zona central da cidade foi reduzida a uma planície de cinza; as canalizações sofreram 70 mil rupturas.

“Água, água, quero água.” Para os sobreviventes, este foi o primeiro grito de desespero, tentando enfrentar a onda de calor insuportável que a bomba gerara. No filme Rapsódia em Agosto, de Akira Kurosawa, recorda-se essa trágica necessidade de água, num dos monumentos às vítimas: os visitantes atiram água para uma pedra que recorda os que morreram.

A história de Pedro Arrupe traz à memória muitas histórias das vítimas. A 10 de Agosto, um dia depois de ter sido lançada a segunda bomba, em Nagasáqui, o Governo japonês aceitou a rendição, confirmada pelo imperador Hirohito no dia 15.

Foi o uso da bomba atómica que apressou o fim da guerra, quando, na Europa, a Alemanha já se rendera? Os defensores da sua utilização dizem que foi isso que evitou o prosseguimento da guerra, assim poupando vidas. Os que contestam a sua utilização recordam que o Japão já se preparava para apresentar a rendição. O general Dwight Eisenhower, mais tarde Presidente dos Estados Unidos, foi contra a utilização da bomba, posição que refere no seu livro de memórias sobre os anos presidenciais. E também o general Douglas MacArthur, comandante das forças americanas no Pacífico, terá afirmado mais tarde que não havia razões militares que aprovassem o uso da bomba.

O próprio Arrupe entraria no debate e, em 1970, nos 25 anos da bomba, escreveu no jornal Avvenire: “O que determinou o fim da guerra não foi a bomba atómica, mas a ordem do imperador (…). O povo japonês nunca teria capitulado se o imperador não o tivesse ordenado…”

E, na consciência dos Aliados que venceram a II Guerra Mundial, ficará sempre a pergunta que tantos já formularam: se tivessem sido os alemães a lançar a bomba, não falaríamos de um odioso crime? Agora, assinalando os 75 anos das explosões atómicas, bispos e responsáveis de várias igrejas cristãs e diversos países pedem o fim do armamento nuclear, como se pode ler noutra notícia.

 

“Água, água, todos morreram gritando essa palavra…”

Três dias depois de Hiroshima, foi a vez de Nagasáqui ser destruída com a segunda bomba atómica lançada pelos Estados Unidos. O acontecimento serve de pretexto ao filme Rapsódia em Agosto, de Akira Kurosawa. O realizador japonês faz desta obra uma das mais sensíveis abordagens da II Guerra Mundial e da bomba atómica, colocando a questão da memória e do perdão.

A avó, que perdera o marido naquele dia, recebe a visita de quatro netos durante o Verão. A dado passo, conta o que viu nesse dia: “Olhámos para Nagasáqui, atrás das montanhas, e o céu dividiu-se em dois, com o relâmpago. Surgiu um imenso olho. O grande olho olhou ferozmente para nós. Olhávamos o céu, paralisados. O chão começou a tremer, com um barulho terrível.”

Numa outra cena, os quatro netos visitam o Memorial da Paz, em Nagasáqui – existe outro parque semelhante em Hiroshima. Num dos monumentos, recorda-se: “Eu sentia tanta sede. Água, água, todos morreram gritando essa palavra…”

Uma canção que os quatro cantam remete para o perdão e a esperança: “E o menino viu uma rosa, uma rosa no meio do campo, florescendo em grande inocência. Essa visão provocou, no menino, um fascínio sem fim pela cor de carmesim da rosa no meio do campo…”

 

Este texto é uma versão corrigida de um artigo originalmente publicado na revista Família Cristã, de Agosto de 2010

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