Pré-publicação

800 anos do Presépio de Greccio: Natal, a Festa das Festas

, e | 8 Dez 2023

capa Belém a Greccio, presépioDois milénios depois de Belém e de Jesus e 800 anos após Greccio e S. Francisco de Assis, o que resta do Natal cristão? E como recuperar o sentido do Presépio? Afinal, no presépio de Greccio não havia Menino, mas apenas o boi, o burro e a manjedoura?…

Foi a perguntas como essas e outras que o franciscano Isidro Pereira Lamelas, professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, e Ana Lúcia Esteves, licenciada em História e a frequentar mestrado em História e Cultura das Religiões, se propuseram responder, revisitando as fontes que ajudam, com Francisco de Assis, a recuperar o significado autêntico do Natal e do Presépio. Nasceu daí De Belém a Greccio –O Presépio de São Francisco de Assis (ed. Paulinas), livro que será apresentado neste sábado (e no próximo, em ambos os casos com os pormenores na secção de Agenda do 7MARGENS), em Lisboa – sendo que no primeiro desses momentos haverá também uma visita guiada à exposição de presépios inaugurada nesta sexta-feira.

O 7MARGENS apresenta a seguir excertos do primeiro capítulo, bem como da apresentação dos autores e do prefácio, da autoria do ministro-geral da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos), fr. Massimo Fusarelli.

 

Natal, a Festa das Festas

O Natal de Cristo é um tema central na vida e espiritualidade de São Francisco. O Nascimento de Jesus era para ele a maior das festas, motivo de uma alegria e emoção incontidas que quis comunicar a todos. É tocante a ternura, intensidade e arrebatamento com que meditava a «sublime humildade» de Deus criador, que quis nascer entre as criaturas para lhes trazer a salvação, fazendo-se «nosso irmão, humilde, pacífico, doce, amável e mais que tudo desejável, Nosso Senhor Jesus Cristo». O motivo de tal entusiasmo e amor pelo Natal é explicado pelo próprio Francisco: o Natal assinala o início e a certeza da nossa redenção e é, portanto, o começo da Páscoa. […]

Para o Poverello, Deus não é uma ideia e muito menos um conceito; é, antes de tudo, uma presença ligada a uma dimensão física e a uma experiência que parte dos sentidos, passa através do corpo e conduz ao espírito. Deus é encanto e ternura que se debruça sobre a Humanidade como o dom do orvalho, como se percebe na famosa bênção dirigida a frei Leão onde, decalcando o trecho bíblico, profere: «O Senhor te abençoe e te guarde, / Te mostre a sua face e se compadeça de ti. / Volva para ti o seu rosto, e te dê a paz. / O Senhor te abençoe…».

Vejamos, então, alguns traços da forma como Francisco via Deus, de modo a enquadrarmos melhor a recriação da encarnação divina, encenada em Greccio. […]

 

A doçura de Deus

Francisco fala-nos de Deus a partir da sua experiência. À maneira de jovem trovador, serve-se dos termos com que os poetas provençais se dirigiam à dama dos seus pensamentos: […] sempre que Deus intervém na sua vida, atravessa-o um fluxo de sensações aprazíveis e comoventes:

Tu és formosura! Tu és mansidão! Tu és segurança! Tu és descanso! Tu és gozo e alegria! […]; Tu és toda a nossa riqueza e saciedade! Tu és beleza! Tu és mansidão! […]; Tu és a nossa grande doçura!

Assim reza Francisco; ou melhor, assim exprime a sua experiência de Deus. […]

 

O Sumo Bem donde procede todo o bem

A devoção que Francisco nutre pela Natividade integra-se e entende-se perfeitamente no cerne da espiritualidade do Santo da Alegria, que emprestou um novo canto à existência, com o seu testemunho do Deus festa e da Graça divina libertadora. «Nós somos – dizia Francisco – os trovadores do Senhor; cantamos os seus louvores… para elevar o coração do homem e conduzi-lo à alegria espiritual». Francisco de Assis, assumido Jogral de Deus, é portador de uma nova visão mais otimista e alegre da religião, da vida e do mundo.

No Presépio, que quis recriar em Greccio, o Santo viveu intensamente essa graça total de Deus, em harmonia com o divino e sintonia com o humano e mundano. […] No «teatro litúrgico» daquela noite, Francisco torna bem patente que a descoberta do amor imenso e gratuito de Deus transforma a própria existência em atitude de gratidão, de reconhecimento, de louvor que se traduz numa postura de alegria total e duradoira. […]

Na devoção de Francisco ao Natal, identificamos quatro vertentes particularmente significativas: o amor ao Evangelho abraçado e vivido sine glossa, isto é, radicalmente; a devoção à Mãe de Jesus; a fé e caridade suscitadas pela «descida» do Verbo Encarnado (e sua ligação com a Eucaristia); e a nova «cosmovisão», que o levava a ver o mundo e a Humanidade como a casa da fraternidade universal.

 

Tocar um Deus verdadeiramente pobre e despojado

natal presepio liberiano foto direitos reservados

Presépio liberiano: “Na cosmovisão franciscana, Criação e Redenção não se contrapõem, toda a criação participa na alegria do Natal.” Foto: Direitos reservados. 

 

Do Prefácio de fr. Massimo Fusarelli, OFM (Ministro-Geral dos Franciscanos)

Em 1223, São Francisco, depois de ter redigido a Regra e antes de receber os Estigmas, quis viver o Natal em Greccio, uma pequena aldeia que ele amava pela sua pobreza. […]

O Poverello queria sim ver com os seus próprios olhos a pobreza em que o Senhor Jesus se dignou nascer, como que para tocar um Deus, verdadeiramente pobre e despojado. Francisco é tocado por um Deus assim, pobre e humilde. Parece que não lhe basta viver o Evangelho; ele quer entrar nele, fazer parte dele, saboreá-lo; quer experimentar o que acredita, com toda a sua vontade e amor. […]

Num itinerário que parte dos Escritos de São Francisco, este livro ajuda-nos também a entrar no mistério do Natal e a não ficarmos apenas como curiosos espectadores. Francisco ensina-nos que, como cristãos, não podemos ficar parados a olhar o presépio de fora, mas devemos entrar nele e no mistério aí escondido e revelado.

Em 1223, Francisco encontra-se num ponto de maturidade, no seu caminho de homem e de cristão. O que ele preparou ao longo dos anos chega ao seu termo. […]

O Natal em Greccio não é uma bela fábula, mas a proclamação do valor daquela humanidade que o Senhor quis desposar, unir a si para sempre. É por isso que a realidade do Natal e da Encarnação alcança toda a criação. Como se mostra nesta obra tão oportuna, na cosmovisão franciscana, Criação e Redenção estão longe de se contraporem. Não há dualismo entre céu e terra, nem entre espírito e carne. Toda a criação participa na alegria do Natal, na noite de Greccio, desde os irmãos boi e burro que há muito ganharam lugar no presépio, ao feno e ao alimento que Francisco quer que seja distribuído aos animais, especialmente nesse dia. […]

Por isso, recordar o Centenário do Natal de Greccio é um convite a refletir não só sobre o lugar que Jesus ocupa no nosso coração, mas também, se há aí espaço para aqueles com quem Ele quis identificar-se: «Em verdade vos digo que tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mt 25,40). […]

É sempre Natal em Greccio. Mas também não é menos verdade que Belém e Greccio pode ser em todos os lugares. Oxalá que os leitores pacientes e apaixonados deste livro façam esta experiência alegre e íntima.

 

Um presépio com um boi, um burro, uma manjedoura… e sem Menino

Judaísmo. Sinagoga Portuguesa de Amesterdão

Presépio sem judeus, árabes e refugiados, de Joanna (Asia) Wieruszewska: “No presépio de Greccio, havia apenas um boi, um burro e a manjedoura dom feno.” Reprodução da página da autora no Facebook.

(Da Apresentação dos Autores)

Foi precisamente há 800 anos que, na noite de Natal de 1223, a montanha de Greccio assistiu a uma das cenas religiosas mais belas da vida de Francisco – e, poderemos dizer, das nossas vidas, que ainda colhem bons frutos desse gesto inspirado e inspirador. O Santo de Assis pode não ser o autor, em sentido absoluto, do presépio tal como hoje o concebemos, mas conferiu uma alma e beleza novas a esse ritual religioso, hoje universalizado.

Devido, pois, ao singular Natal que realizou em Greccio, nesse ano, a fama de «pai do presépio» acompanha-o até aos nossos dias, embora esse mérito careça de algum rigor histórico. Efetivamente, o uso de construir o presépio nas igrejas, na época natalícia, era já conhecido no Ocidente, pelo menos dois séculos antes de Francisco – e, desde tempos bastante anteriores ao seu, há notícia de representações da Natividade, nas igrejas, na noite de Natal, em que sacerdotes ou outros atores evocavam perante os fiéis as figuras humanas de Maria com o Menino, de José, dos Anjos, dos pastores e dos Reis Magos. […]

Efetivamente, o Santo de Assis não pretendeu reproduzir um modelo já conhecido. Aliás – o que é surpreendente – o Poverello não convocou para o Presépio os protagonistas habituais: nem Nossa Senhora, nem São José… nem sequer (es- panto!), o Menino! Os únicos elementos que requereu para a celebração da noite de Natal foram: um boi, um burro… e uma manjedoura com feno.

O seu intuito foi, consequentemente, outro: realizar uma celebração inusitada, uma experiência singular: não se tratou apenas de uma representação da Natividade, mas também da «recriação» do nascimento de Jesus, com uma mensagem clara, de paz e bem, dirigida a todos. A intenção era que esta experiência fosse tão marcante que não necessitasse de se repetir. E Francisco, pelo menos nos mesmos moldes, não a repetiu. […]

Nessa noite de Natal de 1223, vemos Francisco diante do Presépio, «desfeito em suspiros, trespassado de piedade, submerso em gozo inefável», como descreve o seu primeiro biógrafo, Tomás de Celano (1C 85, 9; FF I, 306); «a chorar de alegria, exuberante de indizível felicidade», no relato de frei Julião de Espira (VJS 54 5; FF IV, 278); «cheio de piedade, banhado em lágrimas e irradiante de alegria», nas palavras de São Boaventura (LM X,7; FF I, 707).

Porquê, tamanha felicidade? Como podemos captar o significado profundo deste Natal invulgar? Qual a mensagem do «Natal de Greccio» para o tempo de São Francisco e para os nossos dias? […]

Uma das maiores estudiosas deste tema – Chiara Frugoni –, intitula expressivamente a sua obra acerca do Presépio idealizado por Francisco, no Natal em 1223: «Um Presépio com muitas surpresas». Estamos certos de que, oito séculos volvidos, o presépio de Francisco ainda nos surpreende.

 

De Belém a Greccio – O Presépio de São Francisco de Assis, de Isidro Pereira Lamelas – Ana Lúcia Esteves
Edições Paulinas
248 páginas, formato 14×1,3x21cm, 13,50 €

 

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