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Sucessor já está nomeado

Aga Khan, líder muçulmano ismaili que “fez a diferença”, morreu em Lisboa

| 04/02/2025

O Aga Khan, líder da comunidade muçulmana shia ismaili morreu ao final do dia em Lisboa, onde desde 2015 o Imamat Ismaili tem a sua sede mundial. Tinha 88 anos.

“Com profunda tristeza, o Jamat [comunidade ismaili] é informado que o nosso amado 49º imã hereditário, Mawlana [nosso senhor] Shah Karim Al-Hussaini, faleceu pacificamente pela graça de Deus Todo-Poderoso a 4 de fevereiro de 2025 em Lisboa, Portugal, rodeado pela sua família”, diz a notícia oficial, publicada na página do Imamat.

“O sucessor de Mawlana Shah Karim, como 50.º imã xiita ismaili foi nomeado de acordo com a tradição histórica xiita imami ismaili e a prática do nass”, diz ainda o comunicado. Mas o nome do sucessor não foi ainda divulgado, o que pode acontecer nesta quarta-feira ou durante os próximos dias. Em 2008, em entrevista que o 7MARGENS publica de novo, o líder espiritual dos ismailis rejeitava liminarmente a hipótese de a sua filha – a mais velha entre os quatro herdeiros – vir a ser designada como Aga Khan. “Absolutamente não”, era a sua resposta.

As sociedades não muçulmanas deveriam aceitar os valores do islão

Mas depois disso, em diferentes ocasiões, Shah Karim Al-Hussaini já não foi tão peremptório, usando expressões como “não é o momento”.

“A designação feita por Mawlana Shah Karim está registada no seu testamento, que será lido na presença da família do imã e dos principais líderes internacionais do Jamat”, lê-se na declaração oficial. “Posteriormente, o Jamat será notificado do imã Hazar declarado.”

Nascido em Genebra em 13 de Dezembro de 1936, Shah Karim Al-Hussaini sucedeu ao seu avô, que o escolheu como Aga Khan, o IV, em 1957, “saltando” directamente o seu filho, Aly Salomone Khan – que casaria com a actriz Rita Hayworth e morreria de acidente três anos depois de Shah Karim ter assumido o cargo. Aos 20 anos, ele tornava-se assim líder de mais de 15 milhões de ismailis em todo o mundo (cerca de 15 mil actualmente em Portugal).

Essa transição fez “a grande diferença”, considera Faranaz Keshavjee, ismaili e investigadora em estudos islâmicos, em declarações ao 7MARGENS. O avô antecipou que o mundo iria enfrentar mudanças muito rápidas e transmitiu a Shah Karim as suas ideias sobre educação, desenvolvimento, cultura, e o trabalho do Imamat para lá da própria comunidade, em áreas como a sustentabilidade, a educação, a promoção das mulheres, o desenvolvimento ou a arte, resume Faranaz.

Durante todos estes 68 anos à frente da comunidade ismaili mundial, o Aga Khan concretizou essa visão do avô, considera a investigadora: hoje, a AKDN (Rede Aga Khan para o Desenvolvimento) opera em 30 países do mundo, com múltiplas acções e projectos que não se dirigem necessariamente a muçulmanos ou a crentes. “É um trabalho através da ética do islão xiita, que vai encorajando a comunidade a evoluir ao mesmo tempo que evoluem as instituições.”

 

Símbolo de paz, tolerância e compaixão, diz Guterres

“Um trabalho incansável em prol da elevação da dignidade humana e da protecção dos mais desfavorecidos”, diz Marcelo sobre o Aga Khan. Foto: Direitos reservados.

Na tradição xiita ismaili, o Aga Khan descende directamente do Profeta Maomé e por isso Shah Karim Al-Hussaini era o 49º “imã do tempo”, assim designado.

Tendo vivido no Quénia e Suíça, licenciou-se depois nos Estados Unidos durante a infância e juventude, com temporadas passadas no Canadá, Irão e França. Teve quatro filhos de dois casamentos, apresentava-se como “optimista, mas cauteloso”, que aprendeu a arte da gestão de uma vasta rede de empresas e instituições.

Como afirmava na entrevista de 2008, o seu primeiro horizonte era o combate à pobreza, que não considerava inevitável. Tinha as corridas de cavalos como passatempo favorito, mas dedicava-se profundamente aos projectos de desenvolvimento, que desde 1983, com a Fundação Aga Khan, passam também por Portugal. Considerado um dos homens mais ricos do mundo, o Aga Khan dedicava boa parte da sua fortuna para as diferentes agências do Imamat e da Rede Aga Khan.

Numa nota na rede social X, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, escreveu que estava “profundamente triste com a notícia” da morte e descreveu Karim Al-Hussaini como “um símbolo de paz, tolerância e compaixão no nosso mundo conturbado”.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, destaca a personalidade de Karim Al-Husseini, que “teve a honra de conhecer bem”, como “um bom amigo de Portugal”, cuja vida ficou marcada “por um trabalho incansável em prol da elevação da dignidade humana e da protecção dos mais desfavorecidos”.

A AKDN dá “desde há décadas um contributo fundamental para o desenvolvimento humano a nível global, trazendo melhorias tangíveis às condições sociais de milhares e milhares de pessoas em diversos continentes”, acrescenta Marcelo, que diz que o Aga Khan se assumiu também “como figura notável de uma fé aberta ao mundo, sob o signo da tolerância no profundo respeito pelo outro, sendo igualmente notável o seu trabalho de apoio à cultura, às artes e à educação”.

O Presidente recorda ainda a transferência da sede do Imamat Ismaili para Portugal, em 2015, para sublinhar o aprofundamento da “relação já estreita com a comunidade ismaelita”. “Inesquecível foi o Jubileu de Diamante, em 2018, que trouxe a Lisboa cerca de 50.000 fiéis”, acrescenta a nota, publicada na página da Presidência.

 

Quem se segue?

Foto, de 11 de Julho de 2022, assinalando os 65 anos de Imamat de Shah Karim Al-Hussaini: o Aga Khan IV com os seus quatro filhos e, à esquerda, o irmão, Amyn Aga Khan. Daqui sairá o sucessor. Foto © The.Ismaili

De acordo com as indicações publicadas na página oficial do Imamat Ismaili, o testamento de Shah Karim Al-Hussaini deverá ser lido assim que “os líderes seniores da comunidade ismaelita e os executores do testamento se tenham reunido” – o que deverá acontecer nos próximos dias. A leitura deverá ter lugar em Lisboa. Nessa altura, será conhecida a designação, que deverá sair de um dos três filhos: Rahim, Hussain ou Aly.

Rahim, o mais velho, nasceu em 1971 e formou-se em 1995 na Universidade Brown (EUA) em Literatura Comparada, antes de concluir um programa de desenvolvimento executivo em gestão em Barcelona (Espanha). A SIC Notícias e a Lusa acrescentam que Rahim Aga Khan, que vive em Genebra e tem dois filhos, está ainda envolvido na gestão da AKDN há mais de 20 anos, e preside ao comité executivo do Fundo para o Desenvolvimento Económico e ao Comité para o Ambiente e o Clima.

Tal como o pai, Hussain nasceu em Genebra, em 1974, e é o actual responsável da Agência Aga Khan para o Habitat, além de integrar a administração do Fundo Aga Khan para a Cultura e o comité da AKDN para o Ambiente e o Clima. Tem uma paixão pela fotografia de vida selvagem e subaquática e fundou a Focused on Nature, organização dedicada à conservação e proteção de espécies ameaçadas e em perigo, e aos esforços de conservação dos habitats. Hussain formou-se nos EUA em Artes, onde fez também um mestrado em Relações Internacionais.

O mais novo dos três é Aly Muhammad, nascido em 2000, em Paris. Estudou Artes em Harvard (EUA) e passou a integrar recentemente a Fundação Aga Khan, em Genebra, trabalhando em projectos na Ásia e em África na área do empreendedorismo, empregabilidade e economias digital e verde.

A escolha do novo “imã do tempo” é considerada inquestionável, porque é vista pelos ismailis como a transmissão da luz divina, explica Faranaz Keshavjee. “Da mesma forma que o Profeta [Maomé] foi divinamente designado por Alá [Deus], o Profeta, através de apoio ou inspiração divina (ta’yid), designou o Imã ‘Ali como seu legatário (wasi) e sucessor”, explica a página oficial. No mesmo local, lê-se, em epígrafe à notícia da morte de Shah Karim al-Hussaini: “Verdadeiramente pertencemos a Deus e verdadeiramente a Ele regressaremos.”

(Foto de destaque: o 49º Aga Khan; foto reproduzida da página oficial do Imamat Ismaili)

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