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À Margem

Um pacote contra a Doutrina Social da Igreja

| 12/12/2025

Esta quinta-feira, 11 de dezembro, foi dia de greve geral. Dia em que esta opinião devia ter sido escrita e publicada. Não foi. Tal como todos os trabalhadores e colaboradores do 7MARGENS, o seu autor aderiu à greve. Não apenas porque o proposto pacote legislativo “Trabalho XXI” reduz sem qualquer razão e de forma inexplicável os direitos dos trabalhadores, das suas famílias e dos seus sindicatos. Mas sobretudo porque ele se situa nos antípodas da Doutrina Social da Igreja (DSI) e as suas consequências são inaceitáveis por qualquer cristão.

No universo católico português, há um enorme silêncio sobre o mundo do trabalho. Os movimentos de Ação Católica dirigidos por trabalhadores e para os trabalhadores perderam o protagonismo que em tempos conseguiram, sem que outros, atentos aos mesmos fenómenos, lhes tivessem sucedido. Reduzidos esses movimentos a experiências minoritárias a que não se dá meios nem voz, sem outros que tragam para os meios eclesiais as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias do mundo do trabalho, o vazio e o silêncio sobre estes temas reinam na Igreja Católica em Portugal.

Contagiados pelos “ares do tempo” e pela “ideologia dominante” os meios católicos portugueses autossatisfazem-se escutando narrativas douradas sobre a eficiência trazida pelo recurso às tecnologias mais avançadas, as novas áreas de negócio permitidas pelo ambiente digital 4.0, ou, mais genericamente, sobre a beleza do empreendedorismo. Desemprego, baixos salários, despedimentos, violência de horários de trabalho intermináveis, turnos sem controlo, precariedade, atividade sindical, assédio e abusos de toda a ordem – nada disto está presente nos poucos momentos e lugares em que na Igreja de trabalho se fala.

Na realidade, não é de trabalho que se fala, mas sim de empresas. Não se reflete sobre as condições dos trabalhadores, prefere-se escutar o que têm a dizer empresários e gestores. De preferência aqueles (e só aqueles) responsáveis por “casos de sucesso”, que os outros, os que enfrentam dilemas morais complexos entre despedir e sobreviver, entre investir ou distribuir lucros, entre dar crédito aos representantes dos trabalhadores ou impor o que supostamente os acionistas desejam, esses não trazem nada que seja atraente.

Apenas um tema – a conciliação da vida profissional com a vida familiar – emerge, de vez em quando, nos corredores de encontros promovidos por católicos. Mas mesmo esse, tratado em pano de fundo de profissões liberais ou de altos quadros empresariais “sem tempo para a família”, quase como situando a sua resolução no nível da decisão pessoal, obliterando a larga maioria cuja vontade não tem qualquer hipótese de promover a compaginação daquelas duas realidades.

 

Visar os salários mais baixos

Encíclica do Papa João Paulo II, Laborem Exercens. Foto DR

João Paulo II deu uma atenção especialíssima às questões do mundo do trabalho e dedicou-lhes a Carta Encíclica Laborem Exercens. Foto: Direitos reservados

E no entanto… não há nenhum outro tema que a Doutrina Social da Igreja tenha tratado de forma tão extensa e aprofundada, chegando a ser quase casuística! Todo o longo pontificado de João Paulo II foi expressamente marcado por uma atenção especialíssima às questões do mundo do trabalho a que dedicou, entre outros muitos documentos e intervenções, uma Carta Encíclica. “O trabalho humano é uma chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social” que “deve ser buscada no sentido de ‘tornar a vida humana mais humana’”, escrevia o Papa, em setembro de 1981 na introdução dessa Laborem Exercens. Algum vestígio desse desígnio, dessa centralidade do trabalho na proposta “Trabalho XXI”? Nenhum. Nada. Tudo ao contrário.

A legislação que o Governo quer ver aprovada dificulta a presença dos sindicatos nas empresas, generaliza o recurso aos contratos a prazo e aumenta o seu tempo de vigência e renovação, reduz o prazo durante o qual a mãe pode fazer menos horas de trabalho por estar a amamentar, facilita o desemprego sem justa causa e a não reintegração do trabalhador ilegalmente despedido, impede na prática que venha a ser reconhecido o vínculo de trabalho entre as plataformas digitais e a generalidade dos que para elas trabalham, facilita às empresas recusarem o teletrabalho e…

São intermináveis as disposições desta proposta que fragilizam, agravam e enfraquecem a condição do trabalhador, retirando-lhe direitos duramente conquistados. Em contraste, apenas duas ou três vantagens marginais para trabalhadores deficientes e para situações muito específicas. Neste projeto tudo aponta para um único fim: garantir legislação que permita manter baixos os crónicos baixos salários que vigoram sobretudo nos sectores menos qualificados.

De facto, poucas são as disposições (embora algumas delas sejam significativas) que interessam a empresas modernas, bem geridas e sustentáveis. As alterações da lei que o Governo quer impor dirigem-se primordialmente a manter baixos salários em setores de mão-de-obra intensiva, ou similares (turismo, restauração, construção civil, TVDE, call-centers e congéneres) cujo crescimento gerou uma situação de quase pleno emprego, situação que pressiona no sentido do aumento das remunerações.

Neste contexto, arrepia o cinismo do preâmbulo do “Trabalho XXI” quando afirma ter como objetivo “combater as desigualdades sociais e territoriais”, “proteger os mais vulneráveis”, “promover o aumento do rendimento dos trabalhadores”. Aqui, sim, se poderá dizer que estas são palavras e noções referidas de forma “inexpressiva”!

Não há como não lembrar João Paulo II quando sublinha a necessária “reação contra a degradação do homem como sujeito do trabalho e contra a exploração inaudita que a acompanhava, no campo dos lucros, das condições de trabalho e de previdência para a pessoa do trabalhador” [L.E. 8]. Preparem-se!…

 

Trabalho: um instrumento

Perante propostas que tratam o trabalho e o trabalhador como meros fatores de produção colocados à disponibilidade do uso discricionário por parte do capital, soa longínqua a afirmação contundente do Papa polaco: “Deve recordar-se, antes de mais nada, um princípio sempre ensinado pela Igreja: o princípio da prioridade do ‘trabalho’ em confronto com o ‘capital’. Este princípio diz respeito diretamente ao próprio processo de produção, relativamente ao qual o trabalho é sempre uma causa eficiente primária, enquanto o ‘capital’, sendo o conjunto dos meios de produção, permanece apenas um instrumento, ou causa instrumental”. [L.E. 12]

E esta primazia, que se poderá apelidar de ontológica, do trabalho em relação ao capital tem uma consequência evidente e muito prática para o todo social: “a justiça de um sistema sócioeconómico e, em qualquer hipótese, o seu justo funcionamento, devem ser apreciados, no fim de contas, segundo a maneira como é equitativamente remunerado o trabalho nesse sistema. (…) Daqui vem que o justo salário se torna em todos os casos a verificação concreta da justiça de cada sistema sócio-económico e, em qualquer hipótese, do seu justo funcionamento.” [L.E. 19]

É, portanto, no entender de João Paulo II e de toda a tradição católica, a partir do justo salário que se deve procurar a justeza e a justiça de um qualquer sistema social. E para quem julgue demasiado abstrato o conceito de justo salário, o Papa deixa uma definição clara e inequívoca: “Uma justa remuneração do trabalho das pessoas adultas, que tenham responsabilidades de família, é aquela que for suficiente para fundar e manter dignamente uma família e para assegurar o seu futuro.” [L.E. 19]

Se hoje, em Portugal, há demasiadas famílias que não conseguem manter-se no limiar de uma vida digna ou assegurar um futuro capaz para si e para os seus filhos e se, por outro lado, proliferam em cada vez maior número os trabalhadores pobres, amanhã, fruto da adoção destas alterações legislativas, nem umas nem outros verão a sua situação melhorada. Pelo contrário, viverão tempos ainda mais miseráveis e despojados de qualquer futuro.

Com o progressivo avanço das aplicações decorrentes da inteligência artificial, a omnipresença das grandes hi-techs e a astronómica concentração de capital nas mãos de uma dúzia de pessoas, o mundo do trabalho entrou numa das suas maiores convulsões desde a revolução industrial. Sobre a reconfiguração do trabalho que estes “atores” estão a provocar, o pacote do Governo não adianta uma proposta, uma medida para enfrentar tais alterações, nem refere os impactos da inteligência artificial em todas as áreas do trabalho.

Pelo contrário, concentra-se em tornar ainda mais vulneráveis os trabalhadores dos TVDE e congéneres na sua relação com as plataformas que os exploram. Mas esses são imigrantes… e quanto a imigrantes sabemos o que pensa este Governo. Os outros, os trabalhadores mais qualificados, que procurem no estrangeiro a vida que esta economia de baixos salários não lhe permite viver.

 

Choque de culturas

Sem abrigo nos EUA Foto Grand Canyon Synod

“A simplificação brutal que a extrema-direita populista e neonacionalista propõe é a de que todos aqueles que não são iguais a nós não são dignos de existirem, devem ser excluídos.” Foto © Grand Canyon Synod

No conflito cultural que a Administração Trump e o Partido Republicano abriram contra a Europa, a reconfiguração da relação entre “nós e os outros” ocupa um lugar central. O centro desta rutura cultural poderia ser tematizado de outro modo, mas, sem desnecessárias complicações, o conceito ideológico do “nós e os outros”, ou melhor, de “nós contra os outros” chega perfeitamente para caracterizar o confronto em causa. A simplificação brutal que a extrema-direita populista e neonacionalista propõe é a de que todos aqueles que não são iguais a nós não são dignos de existirem, devem ser excluídos. Ponto!

Esta ideologia declina-se em vários aspetos: ricos contra pobres; a raça branca contra todas as outras; os que pensam como nós contra os que pensam diferente; patrões contra trabalhadores, dirigentes contra dirigidos, maioria contra minoria… e prolonga-se para o “nós contra a natureza e a sustentabilidade do planeta”. Bastam estes contornos para se perceber o caráter antidemocrático desta ideologia que nega a democracia como projeto e prática de inclusão de todos para impor a exclusão como princípio e regra basilar.

É este o contexto em que a política externa dos EUA vê na União Europeia o grande inimigo. Um espaço que cria o seu futuro a partir de uma enorme diversidade de origens, culturas, cores e modos de vida; em que se procura o consenso e não o confronto entre países, tradições e histórias diversas (quando não antagónicas); em que os países mais ricos apoiam os mais pobres; em que a lei não se molda sempre à vontade dos poderosos e serve em grande medida para proteger os mais fracos… Esta Europa é, sem sombra de dúvidas, uma construção baseada numa cultura que a torna num inimigo para a ideologia do confronto com o diferente e da exclusão do mais fraco em que o extremismo populista se baseia.

Apesar do impacto da greve geral de ontem tê-lo feito vacilar, o líder do partido Chega dará, por certo, ordem aos seus deputados para votarem este pacote. Porque percebe que, acima de tudo, ele serve o enraizamento de uma ideologia de confronto sempre pronta a exacerbar os antagonismos e a proteger os interesses de poucos. Evidência de que muitos dos governantes e não poucos deputados do partido que apoia o Governo terão consciência.

Mas, independentemente de quem percebe e de quem não enxerga o que está em causa, a verdade é que a visão das relações sociais proposta pelo projeto “Trabalho XXI” é completamente anticristã.

 

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