Introduzindo
Escrevo-não-escrevo-escrevo-não-escrevo. Não-escrevo. Ou talvez escreva, afinal escrevo. Escrevo porque é saudável evacuar as humilhações, a elas e às suas sombras, que são as tristezas. Ficar a remoê-las faz mal à alma, e o que faz mal à alma repercute-se no corpo, e vice-versa, aliás. Não recomendo.
Desenvolvendo: primeira humilhação
Em contrapartida, recomendo vivamente o divertidíssimo Daily Show (agora na RTP-N), um festival de humor inteligente com um foco predominantemente político. Ando a ver de empreitada gravações acumuladas durante umas semanas. O actual drama político norte-americano, feito quotidianamente de estranhas criaturas e de enredos saídos directamente de filmes rascas ou da mais negra e sinistra BD, proporciona hoje aos guionistas e apresentadores um ininterrupto fluxo de motivos de comédia. São vários os apresentadores, o mais extraordinário dos quais é o veterano John Stewart.
No episódio emitido no dia 6 de dezembro de 2025, é feita uma referência ao inevitável Jeffrey Epstein, o abusador sexual amigo de políticos e famosos que morreu numa prisão, cuja história teima em não sair dos media. Foi assim:
- enquanto num ecrã se vê uma imagem de Epstein a cumprimentar o Papa João Paulo II, o apresentador induz-nos a olhar para Epstein dizendo: “o rosto da rede de pedofilia mais conhecida do mundo…”
(pausa táctica de meio segundo)
- e completa: “… conheceu Jeffrey Epstein” – assim redireccionando o odioso para o Papa.

Imagens do episódio de Daily Show emitido pela RTP-N a 06 Dez 2025
Fiquei horrorizado. Portanto, a Igreja a que pertenço, à data liderada pelo Papa que me emocionou quando veio a Lisboa em 1982, é ridicularizada num programa televisivo de expressão mundial. É certo que o contexto é humorístico, mas ainda assim é horrível vermo-nos, mesmo que indiretamente, identificados com os abusos sexuais sistemáticos que são apresentados como elemento definidor da minha religião. Claro que a seguir, num breve esforço de racionalização, a irritação e o desgosto vão ao sítio e, embora contrariado, tive de admitir que a narrativa tem graça aos olhos e ouvidos de outros. Defendo que se pode fazer humor com (quase-quase) tudo, incluindo as religiões e o sagrado; o meu problema, estritamente pessoal, é quando há razões objectivas para a Igreja a que pertenço ser motivo de chacota. É esse o momento da humilhação.
Não podemos desfazer a história e todos os horrores agora bem conhecidos. Mas podemos contrariar tendências e definir ideias para que os crimes de abusos sexuais não voltem a ocorrer. O que temos feito para isso?
Este é um bom pretexto para revisitar o que se tem passado em Portugal após a publicação do relatório da Comissão Independente.
O balanço, necessariamente em traços grossos, não me parece animador. Na verdade, o processo nasceu torto. A Igreja:
- não se deu ao trabalho de preparar atempada e convenientemente o futuro, num contexto que dizem ser de grande confronto interno de sensibilidades;
- em vez de lançar uma CI.2 que desse continuidade ao estudo dos crimes de abusos sexuais, procedesse rapidamente às reparações financeiras, articulasse os esquemas de apoio e tratamento às vítimas, e preparasse o travejamento metodológico do trabalho de prevenção no interior da Igreja, concebeu um modelo confuso de responsabilidades e de competências funcionais englobadas no Grupo Vita e nas comissões diocesanas (aspecto de imediato denunciado por muitos);
- deixou que vencesse a dimensão igreja administrativa sobre a Igreja dos valores o que implicou a adopção de uma estratégia de defesa corporativa com o inerente formalismo legalista (paradigma rapidamente estabelecido pelo anterior bispo de Lisboa, Manuel Clemente, ao debitar inclemências burocráticas à porta da Sé).
Portanto, não surpreende que os resultados estejam abaixo do desejável, como foi identificado recentemente pelo Vaticano.
Não será irrelevante assinalar ainda
- a lentidão e os solavancos de todo o processo;
- a dificuldade que a Igreja experimenta na decisão de atribuir compensações financeiras e a existência de um acidentado e conflituoso processo burocrático para a atribuição de compensações financeiras às vítimas;
- a falta de paixão no tratamento do tema e de compaixão para com as vítimas;
- o facto extraordinário de nunca ter sido apontado um único bispo encobridor;
- a falta de um acto público solene, nacional e replicado localmente, de pedido de perdão às vítimas;
- o desaparecimento da ideia de um monumento que assinalasse a tragédia.
Se cada parcela é inquietante, a sua soma dá-nos sinais alarmantes. Voltou o sossego às sacristias sem vermos indícios claros de a Igreja ter interiorizado o carácter sistémico e endógeno dos abusos sexuais e o seu significado de traição a Deus. Mais!: do verdadeiro ovo da serpente que é o modelo napoleónico, clericalista e masculino de Igreja poderão sempre surgir novos casos de abusos de natureza sexual ou outra.
E enquanto penso e escrevo estas linhas, sinto-me de novo humilhado.
Segunda humilhação

Manifestação da Conferência pela Ordenação de Mulheres, no início de Outubro 2024, em Roma, a pedir a ordenação de mulheres na Igreja Católica, coincidindo com a abertura do Sínodo sobre a Sinodalidade. Foto: Direitos reservados
(Ou é a terceira?) Eis mais uma directamente de Roma. Uma Comissão do Vaticano propôs ao Papa Leão XIV que não aceite o diaconado feminino, postergando o assunto para um futuro indeterminado, sem perder a oportunidade de frisar que a não ordenação das mulheres é assunto arrumado. Não é! Na verdade surge cada vez mais desarrumado graças à inquietude e inconformação de muitas mulheres e homens na Igreja.
O argumento de recusar o acesso ao diaconado feminino e à ordenação é baseado na tradição, na teologia, e na demasiadamente excêntrica ideia da “masculinidade de Cristo”.
Sobre a tradição. É fraco argumento o de ela enformar definitivamente o presente. A tradição é uma soma de experiências temporais decantadas sucessivamente pelas épocas seguintes, e a sua interpretação carece sempre de leituras históricas e antropológicas, ou seja, domínio do contexto. Por outro lado, reconhecendo na tradição uma importante fonte doutrinal, sabemos bem que não é a única e que não deve sobrepor-se às matrizes originais, nomeadamente os Evangelhos.
Sobre a teologia (que também tem raízes na interpretação histórica de cada momento). É inegável a complexidade do tema e não custa admitir a existência de sensibilidades diferentes com argumentos de peso, o que gera tensões. No entanto, elas nunca deveriam poder afastar o acesso de pessoas a um sacramento em função do seu sexo. Tenho lido diversos artigos de teólogos/as com abundantes argumentos em sentido contrário ao da Comissão, invalidando as suas teses. Precisamos muito dessa intervenção teológica com o passo acertado com o nosso tempo, porque será, afinal, a base da discussão e de uma decisão acertada.
Pessoalmente, procuro atender à teologia; mas a minha condição de vulgar cristão leva-me também a lidar com o tempo em que vivo, o senso comum e o bom senso, uma trilogia que com muita clareza me diz que a discriminação histórica da mulher na Igreja, que compreendemos pela história mas não aceitamos, é profundamente errada. Pois
- não somos todos filhos de Deus?
- não somos todos incluídos na Igreja e na fé do mesmo modo através do baptismo que se aplica a todas as crianças, jovens ou adultos, com uma fórmula que não contém alertas sobre limitações quanto aos outros sacramentos?
- não comungamos todos e do mesmo modo o mesmo Corpo de Cristo?
Sobre a “masculinidade”. A mim, logo a palavra me merece reserva porque parece trazer consigo uma semiótica tóxica. Que quererá dizer masculinidade nas cabeças dos signatários do documento? Por incrível que pareça ter-se-á que lhes recordar que Deus não tem género e que a sua designação masculina é, evidentemente, resultado da necessidade humana de O designar através de linguagem, ou seja, de convenções de comunicação imperfeitas entre as pessoas sujeitas aos condicionalismos culturais das épocas passadas.
Então, não parece descabido perguntar: o que move a Comissão? Parece-me cristalino descortinar que os seus motores e objectivos são:
- a manutenção do modelo clericalista masculino que governa a Igreja e o destino dos católicos;
- o medo da mudança e da concorrência feminina;
- a representação distorcida da figura da mulher.
Em resumo, ao contrariar a possibilidade do diaconado feminino, a Comissão
- luta contra o vento e situa-se fora do tempo;
- defende objectivamente um controlo do poder eclesial baseado na exclusão das mulheres, conferindo-lhes um estatuto de segunda categoria;
- humilha as mulheres e a quantos consideram intolerável a sua discriminação no interior da Igreja.
Sendo favorável à ordenação das mulheres e, portanto, ao diaconado feminino, compreendo que a porta para tal não se abre espontaneamente. Tão pouco defendo possível ou sequer desejável que essa porta se abra de imediato, sendo razoável o receio de cismas e antagonismos.
Eu diria antes que seria urgente, justo e bom definir a ordenação de mulheres como objectivo prioritário de médio prazo e, consequentemente, iniciar imediatamente os trabalhos de preparação para o acesso ao diaconado feminino e, imediatamente a seguir, lançar a preparação para a ordenação de mulheres.
Correndo tudo bem, seria razoável pensar que até antes do meio do século, teríamos finalmente estabelecido a igualdade entre homens e mulheres na Igreja Católica. Se bem que, nessa altura, isso já venha tarde, muito depois de outras igrejas cristãs o terem feito sem problemas graves.
Nuno Caiado
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