Nascido em 1921, o sociólogo e filósofo Edgar Morin teve também na História um tema de reflexão ao longo deste século de vida que ele próprio protagonizou. Das guerras e das suas tragédias, das transformações económicas e ecológicas, Edgar Morin retira lições fundamentais que iluminam o passado e nos ajudam a construir o futuro.
Lições da História (edição Crítica) é o seu último livro. Nele, em 12 curtos ensaios, o pensador – um dos mais destacados do último século e que continua a propor chaves de leitura sobre o presente e o futuro – retira lições da História, como o facto de o improvável poder acontecer; que os mitos têm uma enorme influência sobre o real; que os destruidores podem também ser grandes civilizadores; ou que um único indivíduo pode, por vezes, mudar o rumo da História.
Director de pesquisa emérito do Centre National de la Recherche Cientifique (CNRS), de Paris, autor de mais de 60 obras, traduzido em 30 idiomas e agraciado com outros tantos doutoramentos honoris causa por universidades de todo o mundo, Edgar Morin é, aos 104 anos, um dos mais emblemáticos intelectuais franceses.
“Um livro breve e luminoso que nos convida a reflectir sobre a evolução caótica do mundo atual”, traduzindo um “pensamento fulgurante, que continua a iluminar-nos”, como escrevia Le Monde, este livro traduz uma “voz imprescindível da filosofia europeia”, como dizia El Mundo, de um “sobrevivente de uma espécie em extinção – os grandes intelectuais do século XX” como referia El País. Por sugestão e acordo com a editora, o 7MARGENS publica três excertos deste livro, o primeiro dos quais é sobre a influência dos mitos na História.

As religiões mostram-nos até que ponto o imaginário e o mito podem comandar ou controlar a História.
À semelhança do cristianismo e do islão, que se tornaram maioritários devido ao número de fiéis, as religiões, presentes em todas as sociedades, são agentes fundamentais da História.
O cristianismo, um terço da Humanidade
Como sabemos, os crentes judaico-cristãos, discípulos de Jesus, foram perseguidos e até mesmo executados pela Sinagoga. Outros tiveram de fugir para a Arábia.
Saulo, um opressor destes crentes judaico-cristãos, foi iluminado pela aparição de Cristo no caminho de Damasco. Ouve a voz de Jesus a perguntar-lhe: «Saulo, Saulo, porque me persegues?»
Saulo, convertido em Paulo, fundou o cristianismo, eliminando os rituais e tabus religiosos judaicos, exigindo apenas a fé sincera em Jesus e o batismo. Assim, ao longo das suas intervenções nas cidades do Império Romano e nas suas epístolas, incluindo a admirável Epístola aos Coríntios («Ainda que tenha a fé capaz de mover montanhas, sem amor nada sou»), converteu não só judeus, mas também pagãos. O número de cristãos aumentou progressivamente.
Foi ainda uma época de florescimento das religiões de mistério, em que um Deus salvador Se sacrifica pela salvação dos Seus seguidores. O cristianismo, originalmente, era minoritário entre estas religiões de mistério e foi perseguido porque negava os deuses romanos.
O cristianismo difundiu-se lentamente por todas as classes sociais, incluindo escravos (dado o seu carácter universalista), até à conversão do imperador Constantino, em 312, na batalha da Ponte Mílvia, onde a sua vitória foi anunciada pela aparição milagrosa de Cristo: «in hoc signo vinces»! («Sob este signo vencerás.»)
O cristianismo não foi simplesmente reconhecido, mas proclamado como religião oficial. Depois, eliminaram-se todos os deuses e todas as religiões da Antiguidade.
Só o judaísmo, igualmente perseguido, se viu salvaguardado em Roma pelos papas, para quem os profetas da Bíblia autenticavam a vinda de Cristo.
Jesus e Maria pareceram suavizar um pouco o Deus bíblico, mas a Igreja não tardaria a revelar, na sua perseguição e destruição de todos os outros cultos, bem como na Inquisição, uma intolerância especificamente monoteísta, que perdurou até ao século XIX, inclusive.
Hoje, ninguém se surpreende por uma pequena heresia do judaísmo se ter tornado a grande religião do Ocidente, e de uma parte daqueles que colonizou e subjugou, quando nenhuma necessidade histórica o impunha.
Tão-pouco causa grande surpresa o poder de uma mitologia religiosa que desencadeou as cruzadas, que levou um imperador a submeter-se humildemente a um papa, que provocou guerras sangrentas entre religiões oriundas de um tronco comum, católicos e protestantes, e que perseguiu, durante séculos, os não crentes, tidos como possuídos pelo diabo.

Edgar Morin, sociólogo e filósofo francês, fotografado em Paris a 2 janeiro 2023 por Mathieu Zazzo
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