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[«Medo não medo», com «Sudário» ao fundo, esculturas de Rui Chafes durante a exposição «Chegar sem partir», realizada no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto. © Fotografia: Joaquim Félix (2022)]

Novo livro de Joaquim Félix de Carvalho

“Um caminho de três dias.” Tropário da liturgia na casa do ser

| 23/01/2026

 

Da autoria de Joaquim Félix de Carvalho, com prefácio de Ruy Ventura e posfácio de Alfredo Teixeira, “Um Caminho de Três Dias“ é uma obra que convida a redescobrir a liturgia como experiência viva, poética e transformadora. Entre palavra, imagem e música, Joaquim Félix de Carvalho propõe um itinerário espiritual que atravessa a memória, o corpo e o mistério, situando a ação litúrgica no coração da existência humana. Com linguagem simbólica e densidade teológica, o livro interpela crentes, ministros, artistas e todos os que procuram habitar a liturgia como fonte de beleza, verdade e vida”. (Ruy Ventura).

A estrutura do livro é concebida com cinco secções: a primeira é dedicada ao espírito da liturgia, com o tríptico: jogo, festa no deserto e labirinto; a segunda é constituída por quatro quase-ditirambos aos seus fundamentos teológicos: história da salvação, mistério pascal, presenças de Cristo e a distinção entre liturgia e não-liturgia; a terceira é formada por um eulógio em díptico: do tempo e do lugar-atmosfera; a quarta reúne várias tisanas para a performance ritual, tendo em conta a ars celebrandie os modos de viver liturgicamente; por fim, a quinta é uma coda, no caso, dedicada à formação litúrgica.

Atendendo à sua natureza, no tropário, não poderia faltar a música. Além da música, o tropário beneficia de outra paisagem, a fotográfica. As seis fotografias narram a passagem de uma pessoa através da escultura Medo não medo, da autoria de Rui Chafes, apresentada durante a exposição Chegar sem partir, realizada no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, em 2022.

Poesia, escultura em fotografia e música. São como que três linhas-mestras da teia com que se tece literariamente o Tropário.

A seleção de músicas do CD Vimos do Mar e da Montanha, de Alfredo Teixeira e João Andrade Nunes, com a interpretação do Ensemble São Tomás de Aquino, amplia, de estação em estação, o ambiente de hospitalidade e de doxologia, que atravessa a experiência espiritual proporcionada pela liturgia, desde logo, nas atmosferas dos lugares edificados para o culto cristão. Que ela, a liturgia, seja sempre uma perseverante oferta deste habitat. Para dele fruir, claro, como poderemos experimentar na fruição deste Tropário.

O 7 MARGENS publica a seguir o posfácio, da autoria de Alfredo Teixeira.

 

O ritual litúrgico: tropário de resistências

 

Num ensaio de 2019, quando vivíamos na sombra de uma crise pandémica, Byung-Chul Han confrontou-nos com um anúncio crepuscular: o desaparecimento dos rituais. As teorias do rito, nas suas modalidades clássicas, dão prioridade à caracterização do rito como ação simbólica: os rituais representam e transmitem valores que conferem coesão às comunidades. Enquanto ação simbólica, o rito visa juntar (synballein), gerar alianças, integrar numa comunhão que está para além da existência individual. Nesta perspetiva, o diagnóstico de Byung-Chul Han é claro: a des-simbolização e a des-ritualização fomentam-se reciprocamente. Não esqueçamos que o manejo dos ritos torna um lugar habitável. Saint-Exupéry, no romance Citadelle, descreve os rituais como técnicas temporais de instalação num lugar. Assim, os ritos seriam, no tempo, o que a morada é no espaço. Por isso, é bom que o tempo seja uma construção. Nesta perspetiva, o rito está ao serviço da construção de lugares habitáveis e parece pouco conciliável com a experiência do fluxo constante e da aceleração. Roland Barthes associou os rituais às práticas do estar-em-casa. Os cerimoniários protegem como uma casa. O tempo da casa resiste à velocidade. Não será por acaso que o rito está frequentemente associado à experiência da lentidão. A lentidão ritual resiste à pressa do consumo e acompanha a ressonância das coisas. A comunidade ritual é um corpo de ressonâncias. O ritual não pode apressar-se porque é narrativo e não aditivo. Precisamente, a comunicação sem comunidade, própria da era digital, pode acelerar-se porque funciona por meio da adição. No tempo do «desaparecimento» dos rituais, a escrita de Joaquim Félix de Carvalho é um canto de intervenção. Talvez a liturgia possa tornar-se uma nova estética de resistência.

[Capa do livro. © Fotografia: Joaquim Félix]

Topo. Os artefactos teológicos de Joaquim Félix de Carvalho são-nos oferecidos sempre como uma peça lavrada de embutimentos. Ou como polípticos, nos quais elementos heteróclitos se aproximam, criando ressonâncias inéditas. Aprendeu essa metodologia na escavação do sentido do espírito da liturgia, vivido como um tecido de fios diversos. Na tradição bíblica, o nome de Deus nunca é capturado por uma definição única. Também a liturgia cristã se desdobra na polifonia do humano, para aí deixar ressoar o apelo plurívoco de Deus. Sim, a liturgia é o lugar onde o olhar de Deus nos precede. Por isso, a experiência litúrgica desestabiliza a posição do sujeito moderno que acredita ser o centro da iniciativa espiritual. Essa ferida narcísica pode ser curada no consentimento do encontro, permitindo que o nosso rosto seja iluminado pelo olhar de alegria e bondade que nos recebe. O olhar do Deus cristão não nos reduz: abre-nos, restitui-nos, alarga-nos o caminho. (No ofício poético de José Augusto Mourão, cantamos o Te Deum do encontro: «Vê, meu Senhor, o mar imenso de gente em Ti reencontrada»).

Statio. A experiência litúrgica, que Joaquim Félix de Carvalho connosco reflete, é sempre uma sequência de estações. Mesmo quando o corpo permanece fisicamente imóvel, o coração desloca-se, avança, regressa, perde-se, reencontra-se. Cada oração, cada aclamação, cada gesto é uma estação no caminho de um êxodo interior. Tal como o povo bíblico atravessou o deserto sem mapas seguros, a comunidade reunida em assembleia transita nas vias de uma travessia feita de palavras antigas e sempre novas, de caminhos traçados e de passos que ninguém antes deu do mesmo modo. A liturgia exige movimento, mesmo na imobilidade; exige criatividade, mesmo na repetição; exige peregrinação, mesmo quando não há deslocação física. É uma geografia interior e exterior. (José Augusto Mourão palmilhou este território sem mapa: «É Deus que passa e faz partir, /É Deus que faz a casa»).

In praesentia. O ritual litúrgico pode, assim, ser tenda de acolher ou largo aberto onde se encontram múltiplos caminhos. Tenda do encontro no deserto, porque abriga as nossas diásporas, guarda os passos cansados, oferece um lugar-fronteira onde todas as línguas são possíveis. Mas no ritual litúrgico convergem histórias, feridas, esperanças, memórias; cruzam-se caminhos que não se encontrariam noutros lugares. A liturgia acolhe e envia, abriga e expõe, recolhe e dispersa. A sua hospitalidade é habitada por trânsitos diversos: o chamamento, o envio, o dentro e o fora. Talvez por isso Joaquim Félix de Carvalho prefira a imagem do labirinto. Pode ser outra forma de dizer que o mapa é plural. Na via do ritual litúrgico, mesmo que se siga pela porta da memória, não há atalhos. Podemos seguir as pegadas dos que nos precederam, mas esses sinais não são uma via rápida para o mistério. Cada gesto herdado vibra em múltiplos harmónicos; cada oração venerável, na sua ancianidade, ressoa de modo diferente em cada biografia crente. A liturgia é um lugar onde a tradição se oferece como uma carta de trilhos a percorrer. (Na poesia litúrgica de José Augusto Mourão, cantamos esse mapa de muitos caminhos: «Deus, nós vimos do mar e da montanha / E nenhum lugar nos é residência, / Porque és Tu a nossa morada»).

[Contracapa do livro. © Fotografia: Joaquim Félix]

Ars bene modulandi. A experiência litúrgica pode, assim, ser um lugar do improvável. Ali, no coração da mesmice dos nossos quotidianos, irrompe aquilo que não cabia nas previsões: a festa no deserto, o silêncio na cidade, a leveza da grua, a gravidade da pluma. O espírito da liturgia excede expectativas. Onde esperaríamos peso, irrompe a leveza; onde imaginaríamos trombetas majestosas, nasce o silêncio; onde tudo parecia deserto, irrompe a água de todas as sedes. A estética litúrgica – esse entreato da presença de Deus – opera deslocações, passagens, transportes. Não pode, pois, ser pura reiteração, declamação petrificada, memória congelada, lugar intransitivo. Por isso, a liturgia é uma fenda aberta no mundo. Mantém a porta aberta, impede que se feche sobre si mesmo, que se estilhasse no peso da sua própria clausura. A liturgia abre brechas por onde a graça respira. É a fenda por onde se esboça a luz do que se entrevê. Onde se aceita o rasto inacabado, sem se resignar à opacidade. Celebrar é abrir espaço, rasgar o horizonte, impedir que o admissível se reduza ao visível. A liturgia suspende o mundo para o devolver transformado, suspende o tempo para o restituir como promessa. (Como o Kyrie da Missa «Pro pacem» de João Andrade Nunes, a voz pode habitar o chão da humildade ou as alturas da admiração).

[Uma das fotografias presentes no livro (p.62), de uma série de seis: Visões do autor de Tropário da Liturgia na Casa do Ser, quando alguém fazia a travessia de «Medo não medo», com «Sudário» ao fundo, esculturas de Rui Chafes durante a exposição «Chegar sem partir», realizada no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto. © Fotografia: Joaquim Félix (2022)]

Teodrama. O ritual litúrgico é o lugar-tempo onde Deus se narra (ex auditu). Narração e confissão combinam-se num mesmo Kyrie. A confissão de Deus – «Senhor» – é também narrativa de misericórdia, renúncia à dominação. A dramaturgia litúrgica é a história contínua da compaixão. Quando a assembleia cristã proclama «Senhor», não exprime a submissão a um poder protetor, antes reconhece a fidelidade daquele que oferece o perdão como oportunidade de uma nova génese. A liturgia é essa possibilidade de uma génese contínua. E apesar de toda essa riqueza, permanece na sua inutilidade. O ritual litúrgico não se orienta para um fim pragmático; não é o milagre da conversão acabada. É essa inutilidade que abre a ritualidade litúrgica ao teatro de Deus e do mundo (sim, os Salmos são esse teatro em que o logos de Deus e a voz da inquietude humana se reúnem num intrincado tropário polifónico). A liturgia recusa a redução do mundo da vida a um sistema de funções, recordando que o mais nobre ofício é o louvor. No labirinto que se esboça na vivência litúrgica, o louvor é o único esperanto possível. O louvor não é enfeite, é um grito que vem de dentro; não é histriónico, é humilde; não é um altifalante para Deus, é um murmúrio confiante; não é desperdício, é uma ecologia resistente. (No verbo eucológico de José Augusto Mourão, «Que os nossos lábios Te louvem, / E as portas do nosso coração de par em par se abram»)

Alfredo Teixeira é teólogo, antropólogo e compositor.

 

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