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Bispos na missa de abertura da Assembleia Plenária da Primavera da Conferência Episcopal Alemã na Catedral Santíssima Trindade, em 27 de fevereiro de 2023, em Dresden. Foto © KNA/Dominik Wolf (Arquivo)
Bispos na missa de abertura da assembleia plenária da primavera da Conferência Episcopal Alemã na Catedral Santíssima Trindade, em 27 de fevereiro de 2023, em Dresden. Foto © KNA/Dominik Wolf (Arquivo)

Assembleia em Würzburg

Bispos alemães elegem novo presidente e decidem sobre futuro da sinodalidade

| 22/02/2026

Abre esta segunda feira, 23, na cidade de Würzburg, a assembleia plenária da primavera da Conferência Episcopal Alemã (CEA) com dois temas autónomos, mas com profunda relação entre si. Trata-se da eleição de um novo presidente do órgão colegial dos bispos católicos e a tomada de posição sobre a Conferência Sinodal, o polémico órgão que está previsto vir a supervisionar a aplicação das reformas aprovadas no âmbito do “Caminho Sinodal” do país.

A maioria dos bispos esteve envolvida no sínodo alemão e, juntamente com os representantes do laicado, assumiram as deliberações nele tomadas, incluindo quanto ao tema da governança da Igreja Católica no país. Mas houve uma minoria de quatro bispos que, em sintonia com as objeções e dúvidas que chegaram do Vaticano, se desligaram, a dada altura, do processo, recusando acolher as deliberações nas suas dioceses.

A matéria que mais ameaçou o processo sinodal foi precisamente o da governança. A Igreja alemã pretendia que um órgão de bispos e leigos – o conselho sinodal – fosse a instância que garantiria que as decisões tomadas, nomeadamente quanto à forma de gestão e governo das dioceses, à realidade atual do ministério presbiteral, ao papel das mulheres e à abordagem inclusiva de comunidades minoritárias como a LGBTQ – iriam sendo traduzidas localmente, na vida eclesial.

As disposições do direito canónico, que exprimem, de resto, uma cultura profundamente enraizada, segundo a qual o bispo, na respetiva diocese, e o Papa, relativamente à Igreja universal, são quem tem sempre a última palavra, exprimindo uma visão piramidal da Igreja que nem o Papa Francisco ousou pôr em causa.

Foi precisamente Francisco que, mal foram definidas as bases e normas do Synodale Weg escreveu uma dura carta “Ao povo de Deus que peregrina na Alemanha”, mas de facto dirigida aos seus pastores, em junho de 2019, alertando para os riscos de afastamento dos caminhos da Igreja no seu todo. E voltou, em 2023, a lançar novo alerta, quando já se desenhava o cenário do pós-Sínodo.

Ao mesmo tempo, delegações do episcopado e responsáveis de vários dicastérios da Cúria iniciavam uma série de encontros, para tentar encontrar pontos de convergência e lidar com os pontos de divergência. O atual Papa, então à frente do Dicastério para os Bispos, foi um dos interlocutores, e à frente da delegação alemã, encontrava-se o bispo Georg Bätzing, presidente da CEA, que apostou claramente no caminho do diálogo.

Mais do que isso: ele procurou explorar as portas abertas pelo Sínodo sobre a Sinodalidade, nomeadamente em relação à governança geral da Igreja, no sentido de que órgãos como os conselhos pastorais diocesanos e paroquiais, que têm atualmente carater meramente consultivo, possam caminhar para processos participados de construção de consensos com vista à de tomada de decisões.

A verdade é que ao terminar o Caminho Sinodal na Alemanha, não chegou qualquer cartão vermelho que impedisse a criação de um órgão de acompanhamento da execução do decidido nesse caminho. Por outro lado, os leigos e bispos que integraram esse caminho abandonaram a proposta de um ‘conselho’ e adotaram uma designação mais ‘suave’ de ‘conferência’, e salientaram, de forma que alguns setores ambígua, a função consultiva, em vez da função de monitorização e deliberação, não aceite por bispos como o cardeal Marx, por exemplo.

6ª Assembleia Sinodal do Caminho Sinodal na Alemanha.

6.ª Assembleia Sinodal do Caminho Sinodal na Alemanha. Foto © Marko Orlovic/Caminho Sinodal

Em todo o caso, o corpo episcopal não abdicou de ter um pronunciamento final, num fórum como é a sua assembleia plenária, em que participam todos os bispos, incluindo a minoria que se afastou das decisões do sínodo. Tal como o Vaticano não abdicou de se pronunciar, depois de o processo estar fechado no âmbito da Igreja alemã. “Veremos”, disse Leão XIV aos jornalistas, no regresso da sua viagem ao Medio Oriente.

Compreende-se, neste contexto, a delicadeza e complexidade da decisão que os 60 bispos titulares e auxiliares terão de tomar na assembleia que esta segunda feira tem início e se prolonga até quinta feira, 26, depois de o bispo Georg Bätzing ter anunciado, em janeiro último, que não se submeteria à eleição para novo mandato de seis anos, como o regulamento permitia.

Bätzing presidirá à abertura dos trabalhos e a eleição está prevista para o fim da manhã de terça, 24, sendo requerido, estatutariamente, a maioria de dois terços nas duas primeiras rodadas de votação e uma maioria simples numa eventual terceira votação.

Não há candidaturas apresentadas, mas vários condicionalismos (de idade e de perfil) levam alguns media a avançar com nomes que têm por mais prováveis. Mas os desafios que a Igreja alemã enfrenta condicionam também as escolhas possíveis. Entre eles, o primeiro diz respeito à continuação do processo de concretização do Sínodo, sendo necessário alguém que consiga atenuar a divisão entre os bispos, ainda que suscitada por uma minoria. Por outro lado, deverá ter capacidade de diálogo com o Vaticano, podendo ser vantajosos o conhecimento e a experiência do funcionamento da Cúria Romana.

O quadro de abandono de muitos católicos, que tem afetado a Igreja Católica alemã, e o consequente decréscimo dos recursos financeiros, bem como a crescente dificuldade de recrutar novos candidatos ao ministério presbiteral e à vida religiosa são outros tantos desafios a enfrentar pelo novo presidente

Irme Stetter-Karp, presidente do Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) e  ex-copresidente do Caminho Sinodal, juntamente com o bispo Bätzing, disse ao jornal Augsburger Allgemeine que os bispos alemães “enfrentam agora uma escolha crucial”, dado que, da opção que fizerem para presidente da CEA, “dependerá a capacidade de moldar o futuro”. Acredita, no entanto, que o que se conquistou em conjunto “não pode ser desfeito, minimizado ou mesmo revertido”.

O mesmo jornal cita o político alemão da CDU Christian Wulff, presidente do país de 2010 a 2012, no tempo de Angela Merkel, que considera as reformas da Igreja aprovadas no Caminho Sinodal “urgentes e necessárias”, a fim de a Igreja “permanecer credível e traduzir a mensagem do Evangelho para o nosso tempo”.

Sendo dado como certo que será escolhido um bispo apoiante do percurso sinodal percorrido e que a CEA aprovará o órgão de acompanhamento do Sínodo, poderá haver que ponderar o modo como esse trabalho será conduzido. Travar um processo desta envergadura é visto como muito problemático para a Igreja alemã e mesmo para o avanço da sinodalidade à escala global. “Veremos”, dizemos nós agora, parafraseando o Papa.

 

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