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Chagall
Chagall, Cântico dos Cânticos-IV (1958)

Ano Jubilar São João da Cruz (3)

O “Cântico dos Cânticos” e o “Cântico Espiritual”

| 13/04/2026

Para o carmelita João da Cruz, a Bíblia era frequentemente a base da sua escrita. Se esta sofreu reconhecidamente influências da cultura espanhola, a mais perceptível é a influência bíblica. E, de toda a Bíblia, o livro que mais fez vibrar a veia poética e mística de João da Cruz foi o Cântico dos Cânticos, o seu favorito. Mesmo momentos antes de morrer, interrompendo os salmos das preces dos agonizantes que ele recitava alternando com os seus irmãos de hábito, para aliviar a sua agonia pediu ao prior que lhe lesse frases do livro da sua vida, o Cântico dos Cânticos: “Padre, leia-me do Cântico dos Cânticos, que isso [a encomendação da alma] não é preciso”. À sua leitura, moribundo, comentou: “Oh, que pérolas preciosas!” (testemunho em Crisógono de Jesús, Vida de S. João da Cruz; Edições Carmelo; Oeiras 1986; 476). Esse livro bíblico exerceu influência em todos os seus escritos. Mas inspirou directamente uma obra inteira do carmelita, o Cântico Espiritual, que está impregnado de citações, do sentido do amor, da riqueza humana, do espírito, da linguagem do Cântico dos Cânticos. Algumas estrofes do Cântico Espiritual são paráfrase ou tradução livre de versículos do Cântico dos Cânticos. A canção 23:

Debaixo da macieira
Ali comigo foste desposada,
Ali te dei a mão
E foste reparada
Onde a tua mãe fora violada
é uma apropriação do Cântico dos Cânticos 8,5:
Debaixo da macieira eu te despertei;
ali onde a tua mãe sentiu as dores de parto,
ali onde sentiu as dores de parto aquela que te deu à luz.

Por todo o escrito do santo afloram inflamadas palavras, perfumadas expressões, coloridas imagens, que procedem do poema bíblico. Como aconteceu esta influência invasiva? Na criação lírica, o poeta carmelita vê-se atraído para a apropriação do texto bíblico por causa da invencível inefabilidade da culminante comunhão mística com Deus. Na tentativa de descrever a indizível experiência dessa união, a voz do poeta balbuciava ou emudecia. Então recorria ao texto bíblico para se exprimir: «Para que tudo quanto disser mereça mais fé…, não penso afirmar nada meu. Não me fiarei de experiência pessoal alguma que haja vivido, nem tampouco do que tenha visto noutras pessoas espirituais ou tenha delas ouvido. Ainda que aproveite alguma destas coisas, tudo será confirmado e explicado com citações da Sagrada Escritura, pelo menos naquilo que parecer mais difícil de compreender» (Cântico Espiritual, Prólogo, 4).

 

Armindo Vaz é frade da Ordem dos Carmelitas Descalços, biblista e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica; publicou, entre outros, Em vez de «história de Adão e Eva»: O Sentido último da vida projectado nas origens (Edições Carmelo) e Criação Divina sem pecado humano (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado no Boletim de Espiritualidade dos Carmelitas. O 7MARGENS reprodu-lo por acordo do seu autor e dos responsáveis do Boletim.

 

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