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Maria Emília Brederode Santos
Maria Emília Brederode Santos: pedagoga, mulher-cidadã, militante antifascista, grande humanista. Foto: Direitos reservados.

A morte aos 84 anos

Maria Emília Brederode Santos: Uma estrela que se apaga

| 13/04/2026

Se encostares o ouvido à extensão da tua vida
ela cantará!
(Tolentino de Mendonça)

Morreu-nos a Maria Emília. Uma estrela fulgurante e bela partiu.

Maria Emília Brederode Santos (1942-2026) faleceu neste sábado, 11, após um processo de doença. Ao longo destes dois dias muito se tem escrito e lido nos meios de comunicação social e nas redes sociais. Destaco um texto autobiográfico escrito na primeira pessoa, enquanto mulher de Abril. E que Mulher!

doutoramento honoris causa de Maria Emília Brederode Santos, foto Sara Pereira

Doutoramento honoris causa de Maria Emília Brederode Santos. Foto © Sara Pereira

Pedagoga, mulher-cidadã, militante antifascista, grande humanista, foi uma presença rara e reconhecida unanimemente na educação e na cultura. Cresceu no meio de uma família republicana e anti-salazarista, militou em organizações juvenis, foi refugiada política em Genebra. Casada com José Medeiros Ferreira, de regresso a Portugal após o 25 de Abril de 1974 trabalhou no programa Rua Sésamo (RTP), de que foi diretora pedagógica; juntamente com Ana Maria Bettencourt exerceu funções no ramo educacional da Faculdade de Ciências e juntas fundaram a Escola Superior de Educação, do Instituto Politécnico de Setúbal. Foi responsável pela proposta de currículo de Educação para a Cidadania para a Educação Básica e Secundária (2010-2011). Foi presidente do Instituto de Inovação Educacional (1997-2002) e do Conselho Nacional de Educação (2017-2022). Esteve ligada à formação de diversas associações relacionadas com a educação pela arte e foi ainda presidente do Grupo lnterministerial para o Ensino Artístico (1996) que fez a avaliação da Escola Superior de Educação pela Arte. Foi condecorada com a Ordem da Instrução Pública – grau de Grande Oficial 2004. Foi Prémio da Boston University’s General Alumni Association 1994. Também foi Prémio Rui Grácio da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação 1992. É Doutora Honoris Causa pelo ISPA (Instituto Universitário).

Enumerados alguns factos demonstrativos da sua permanente dedicação à causa da educação, detenho-me em aspetos mais pessoais de uma relação de amizade cúmplice e de experiência profissional fecunda de longos anos. Tive o privilégio de ainda a poder visitar no Hospital Curry Cabral no dia 1 de abril. Já muito debilitada, estava lúcida e serena e só me confessou que queria muito ir passar a Páscoa a casa. Atenta a tudo, partilhámos preocupações sobre o atual momento político mas também conversámos sobre memórias e cumplicidades passadas e sobre o nosso presente trabalho nas Inquietações Pedagógicas. Ouso afirmar que gostávamos muito uma da outra. Pelo menos senti-o assim.

Rua Sésamo

Egas e Becas, dois dos bonecos da Rua Sésamo, na RTP: Maria Emília sublinhava o papel da televisão na educação dos mais novos. Foto: Direitos reservados

Conheci a Maria Emília quando, acabada de regressar do mestrado nos Estados Unidos, a fui entrevistar como diretora do Programa Rua Sésamo. Encantei-me com a sua personalidade simples e afetuosa e com a forma como via o papel da televisão na educação dos mais pequenos. Tocou-me a sua profunda humanidade. Reencontrámo-nos em funções de responsabilidade na administração central da Educação: eu como diretora-geral da Educação Básica (1996-1999) e ela como Presidente do Instituto de Inovação Educacional (1997-2002). Já depois de reformadas, fundámos em conjunto com Ana Maria Bettencourt, Maria José Rau e Margarida Graça o grupo Inquietações Pedagógicas que, pela sua reflexão e iniciativas, tem contribuído desde há mais de 20 anos para a qualidade do debate educativo.

Dada a sua grande modéstia só agora tomei consciência de que ambas, em momentos diferentes, fomos condecoradas com a Ordem da Instrução Pública. A instrução pública de qualidade é um empenhamento que sempre nos uniu. Quando pedi à Maria Emília que prefaciasse o meu último livro (2018) Viagens de uma Viajante. Ecos da vida de uma educadora cidadã, dispôs-se a isso com graciosidade e “sororidade” cúmplice. No prefácio retratou-me como “educadora em missão”, epíteto que muito me honrou definindo, de alguma forma, a minha militância como mulher-educadora-cidadã. Era uma personalidade simples, bela por dentro e por fora, “uma grande senhora” diria eu, uma mulher de profundas convicções mas sempre aberta ao diálogo, atenta, calorosa e conciliadora. Esta última característica sempre foi desafiante para a minha personalidade apaixonada, muito mais direta e por vezes menos dialogante. Encantou-se com a luz da minha sala de estar e com as plantas da varanda e no interior da minha casa. Apreciava a minha paixão pela poesia e refere com humor, no prefácio do livro atrás mencionado, que quando “nos encontrávamos nas reuniões de diretores-gerais gozava antecipadamente com a ideia de ver que livro de poesia esconderia a Teresa debaixo da secretária e com o qual ‘fugia’ quando as conversas eram monótonas e as discussões agrestes”.  Sim, a Maria Emília era dotada de um humor sereno, nunca a vi ser agreste com ninguém, apenas se distanciava quando o comportamento da pessoa lhe não interessava. Não me lembro de a ver dizer mal de ninguém, o que é raro numa personalidade forte como a dela.

Apesar de se considerar ateia, sempre me respeitou como mulher cristã, entendendo que eu me colocasse nas margens e numa posição crítica a um catolicismo conservador. Ouso afirmar que, para mim, a Maria Emília era uma mulher basicamente “evangélica” nas suas atitudes e no modo de estar na vida.

Acreditava profundamente que a beleza redime o mundo. Lembro numa formação de professores ela referir o filme norte-americano Os Condenados de Shawshank (The Shawshank Redemption, 1994) com Tim Robbins e Morgan Freeman. Andrew Dufresnnes (interpretado por Tim Roberts), prisioneiro na prisão de alta segurança e encarregado da biblioteca, ousa transmitir através da instalação sonora da prisão um fragmento de as As Bodas de Figaro de Mozart (Canzonetta sull’aria…Che soave zeffiretto) para os seus colegas prisioneiros. Um bater das asas da liberdade num universo hermeticamente fechado (que se pode ouvir a seguir, a partir dos 0’41”).

Penso na Maria Emília ao ouvir esta canzonetta e afirmo com convicção que ela não nos deixará. Vestida com “as túnicas brancas” da grande provação, trauteando Mozart, ela prolonga-se em nós, num rasto luminoso e plenamente humano. E nós, cantamos a sua vida.

 

Referências

  • Brederode Santos. M.E. (com Pedro Proença e Leonor Baeta Neves, 2001). A Constituição da República Portuguesa Trocada por Miúdos. Edições da Assembleia da República.
  • Brederode Santos, M.E. (com Manuela Malpique e Joana Pacheco de Castro, 1994) Avaliação da Escola Superior de Educação pela Arte. Lisboa: IIE/ME.
  • Brederode Santos, M. E. (1991). Aprender com a Televisão – o Segredo da Rua Sésamo. Ed. TV Guia.
  • Brederode Santos, M.E. (1985). Os Aprendizes de Pigmaleão. Lisboa: IED. 
  • Vasconcelos, T. (2018). Viagens de uma Viajante. Ecos da vida de uma educadora cidadã. Prefácio de Maria Emília Brederode Santos. Lisboa: Colibri.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante do Movimento do Graal. Contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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