Os militares que governam Mianmar com mão de ferro anunciaram que a ex-líder política do país, condenada em 2021 a 33 anos de prisão, na sequência de um golpe de estado, terá a pena reduzida para 18 anos, passando ao regime de prisão domiciliária.
A informação dos militares de que a ex-líder de Mianmar (antiga Birmânia) foi transferida para prisão domiciliária foi dada na última quinta-feira, 30 de abril, pela TV estatal birmanesa, na qual a Prémio Nobel da Paz de 1991, atualmente com 80 anos, podia ser vista numa fotografia, sentada num banco de madeira perante dois militares sentados à roda de uma mesa.
Segundo a Asia News, os advogados – que há alguns anos não conseguem ter acesso nem sabem onde ela esteve detida – não foram informados de onde a sua cliente se encontra atualmente. Por sua vez, o filho de Aung San Suu Kyi, que há dois anos não é autorizado a ver a mãe, denunciou que a imagem agora divulgada “data de 2022”, acrescentando, em declarações à BBC: “Espero que isso seja verdade. Ainda não vi nenhuma prova concreta de que ela tenha sido transferida. Portanto, até que me seja permitido comunicar com ela, ou que alguém possa verificar de forma independente o seu estado de saúde e o seu paradeiro, não acreditarei em nada.”

Aung San Suu Kyi. Fotografia em laque © Globetrotteur17… Ici, là-bas ou ailleurs… from La Rochelle, FRANCE, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.
Recorde-se que Suu Kyi foi presa em 2021, quando liderava o governo do país, ainda que sob tutela militar, e no dia em que iria tomar posse um novo parlamento no qual passaria a deter uma maioria esmagadora, passível de dar suporte a mudanças na constituição do país. A partir desse golpe de estado, a líder política foi sujeita a diversos julgamentos secretos, acusada pelos militares de corrupção, fraude eleitoral e violações das leis de segredo de Estado.
A pena global de 33 anos de prisão a que foi condenada faria com que ficasse presa o resto da vida. Pressionado, entretanto, pela comunidade internacional, a duração dessas penas foi já reduzida pelo menos duas vezes, a última das quais na última semana.
Alguns observadores creem que a China tem tido algum papel no sentido de suavizar algumas facetas mais violentas do regime militar, sendo que o capital de prestígio de Aung San Suu Kyi constitui um forte obstáculo à “normalização”.
O que é certo é que a agência AFP, citada pelo Asia News, interrogou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China sobre a visita do ministro chinês Wang Yi e o destino da líder da oposição birmanesa, tendo ele respondido: Suu Kyi “é uma velha amiga da China” e “a sua situação sempre esteve nos nossos pensamentos”.
Para o economista australiano Sean Turnell, que foi conselheiro económico da ex-dirigente birmanesa, o regime de Myanmar está numa operação de relações públicas para sacudir a pressão internacional, apresentando-se como um “governo legítimo”, depois das eleições legislativas de janeiro deste ano e outras medidas como sinais de abertura.
Depois do golpe, Turnell foi também preso pelos militares, tendo sido lançado na mesma prisão em que se encontrava Suu Kyi, fazendo desta um retrato eloquente: condições “medievais” e “simplesmente horríveis”; comida e cuidados médicos eram “ruins” e as celas eram “abertas ao relento”.
A decisão de Suu Kyi de defender perante o Tribunal Internacional de Justiça a política de genocídio do povo Rohingha pelos militares de Mianmar manchou gravemente sua imagem internacional. Apesar de tudo, internamente, esta militante da resistência não violenta continua a ter uma reputação “extremamente alta”, de acordo com Turnell.
Iraniana Nobel da Paz pode estar em risco de vida

Narges Mohammadi, ativista iraniana, vencedora do Prémio Nobel da Paz 2023. Foto © Reihane Taravati.
Uma outra mulher premiada com o Nobel da Paz em 2023, a ativista iraniana de direitos humanos Narges Mohammadi, tem sido objeto de atenção internacional nos últimos dias, por ter sido siso hospitalizada em situação aparentemente grave, segundo familiares.
Um comunicado da Fundação que tem o nome da ativista refere que, na última sexta-feira, 1 de maio, Narges Mohammad, de 54 anos, tinha sido transferida para um hospital na província de Zanjan, “após uma deterioração catastrófica da sua saúde”.
O irmão dela, que mora na Noruega, disse sábado à BBC que tratou de uma queda drástica da pressão arterial que os serviços não conseguiram estabilizar. Mas já no mês passado esse familiar informou que Narges Mohammad foi encontrada inconsciente por outras detidas na prisão de Zanjan, no noroeste do Irão, alegadamente depois de ter sofrido um ataque cardíaco.
Além destes problemas, a ativista tem um historial de embolia pulmonar, angioplastia com stent e angiografia, o que “torna qualquer tratamento pelos médicos em Zanjan praticamente impossível.”
O seu irmão apelou, por isso, às autoridades para que ela seja transferida para um hospital em Teerão, a fim de se proporcionar um tratamento adequado. Este apelo foi reforçado pelo chefe do Comité Nobel da Paz “para que os seus próprios especialistas, que a trataram anteriormente, possam assumir esses cuidados”.
Mohammadi foi presa em dezembro passado, no fim de uma sessão em memória de um colega ativista de direitos humanos, na cidade nordestina de Mashhad. Em fevereiro último, um tribunal revolucionário condenou-a por conspiração e propaganda a mais sete anos e meio de prisão. Segundo a Fundação Narges Mohammad, que é gerida por familiares, foram já 13 as vezes em que ela foi presa e condenada numa pena total de 31 anos de prisão e 154 chibatadas.










