Ela move-se. A vida. Não tanto nos episódios que vêm à superfície das notícias, mas nos movimentos profundos das placas tectónicas da realidade social, política e cultural. Como num tremor de terra nos Açores: o que sobretudo acontece é o movimento das placas tectónicas sob o Atlântico. E quando há uma manifestação em Paris, nós vemos nas notícias os revoltosos a “partirem aquilo tudo”, mas é-nos invisível que, em França, 50% das famílias mais ricas detêm 93% do património bruto. Os outros 50%… basta fazer as contas.
Na última Páscoa, tivemos o episódio de um ataque de Donald Trump ao Papa Leão XIV e um simples “Não tenho medo” da parte deste. Foi a notícia. Por detrás e por baixo da notícia, ela move-se, a vida.

“A Revolução Industrial voltou o mundo ocidental das avessas, criando um proletariado desprotegido. Leão XIII publicou, a 15 de maio de 1891, a encíclica Rerum Novarum, dando início formal à Doutrina Social da Igreja.” Foto: Papa Leão XIII. Direitos reservados
A Revolução Industrial voltou o mundo ocidental das avessas, criando um proletariado desprotegido. Leão XIII publicou, a 15 de maio de 1891, a encíclica Rerum Novarum, dando início formal à Doutrina Social da Igreja. Mas a vida continuou, no essencial, a sua marcha, com as elites a dançar a valsa nos salões dos vários palácios.
Em 1914, bastou um tiro para desencadear uma Guerra Mundial. Em 1939, outra Guerra fez ver à superfície os movimentos que decorriam em profundidade. Em 1945, com a Europa em ruínas e o mundo devastado (até por duas bombas atómicas), os vencedores criaram a Paz Americana à volta da ONU e de outras organizações internacionais. Os Direitos Humanos, a descolonização, a democracia, o desenvolvimento e a cooperação, a importância da diplomacia, uma série de tratados procurando humanizar as múltiplas situações, incluindo as de guerra… A procura da Paz parecia ganhar corpo. Pauli VI chegou a dizer “o desenvolvimento é o novo nome da Paz”; outros leram que era a justiça. Mas a vida continuou a mover-se. A certa altura, os EUA perceberam que as coisas não lhe corriam bem. O seu desenvolvimento estava com problemas e o seu poder internacional estava a sofrer reveses significativos pondo em causa a sua hegemonia.
A China concorria à liderança mundial. A Rússia queria voltar. A Índia continuava a sua marcha de tartaruga. A Europa sentia o motor aos solavancos. E surgiu Trump à frente de um movimento a querer tornar a América Grande outra vez.
Trump tem vindo a retirar os EUA de uma série grande de tratados e instituições com o argumento de que não estão alinhados com os interesses americanos. E o inverso também é verdadeiro: os interesses americanos não estão alinhados com os dos outros. Alterações climáticas, direitos humanos, diplomacia, direito internacional, desenvolvimento justo… isso não serve os interesses americanos, que são outros: o controlo de uns poucos sobre quase todos. No mundo, “60 mil pessoas têm o triplo da riqueza de metade da população.” E, em consonância, o que Adela Cortina batizou de aporofobia: o desprezo pelas pessoas pobres ou vulneráveis.
Esta é a ordem do mundo donde emergem os noticiários. Um projeto dos ricos para os ricos, os que valem, à custa de todos quantos só contam na medida em que forem alimento do projeto. Por exemplo nas redes sociais: o melhor é que a grande maioria fique presa do consolo dos likes.

“O verdadeiro confronto não foi entre Trump e o Papa Leão, nem sequer os que vivem de meter medo (“Eu tenho o exército mais poderoso do mundo, posso fazer o que quiser”) e os que não têm medo e dizem e fazem o que entendem dever dizer e fazer, que não são muitos.”
O verdadeiro confronto não foi entre Trump e o Papa Leão, nem sequer os que vivem de meter medo (“Eu tenho o exército mais poderoso do mundo, posso fazer o que quiser”) e os que não têm medo e dizem e fazem o que entendem dever dizer e fazer, que não são muitos.
A vida vinha a mover-se e Trump acelerou todos os processos de desestruturação da ordem estabelecida. Se os EUA ficam a ganhar à grande e à americana, parece cada vez menos provável. Mas o que está em jogo é, de um lado, a dominação pelos ricos do o processo acelerado de concentração da riqueza (mesmo destruindo as condições de habitabilidade do planeta), e do outro, a grande maioria que encontra cada vez maiores dificuldades em levar uma vida digna ou se vê mesmo excluída da dignidade humana reconhecida. A indignidade e a desumanidade, sem vergonha, sem pudor, quer ser o novo normal.
Trump é símbolo desta cultura de morte; Leão XIV é o símbolo da “opção preferencial pelos pobres”. O melhor para mim vs. um mundo melhor para todos.
A vida move-se. A ordem internacional está em reconstrução a todos os níveis e dimensões. Cada pessoa ou organização está neste processo, queira ou não queira. Com o projeto de Trump e dos seus ou com a “loucura” de Leão XIV e de todos os que acreditam num mundo mais justo. E se é verdade que a reconfiguração se faz, em parte, de cima para baixo, do topo para a base, também é verdade que a substância do edifício se faz do que forem as relações construídas de baixo para cima, entre as pessoas e s suas organizações que, pela sua ação, vão dando forma ao mundo. Certo, as forças de uns e outros não são, de todo, iguais. Mas, quaisquer que eles sejam, os resultados vêm da ação alimentada pelos valores em campo. É destes que nasce a grande diferença.
Um sistema complexo é instável em todos os pontos e, por isso, é em cada um deles que é decidido.
José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com
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