Em outubro de 2025, em resposta ao pedido do líder da equipa europeia do Sínodo [católico sobre a Sinodalidade] para que houvesse mais mulheres em cargos de liderança e para a ordenação de mulheres como diáconos, o Papa Leão indicou que a «cultura» era um fator determinante.
Ele não especificou qual a «cultura» que impedia a aceitação de mulheres como gestoras profissionais ou ministras ordenadas.
Alguns países demonstram maior ou menor aceitação das mulheres como líderes e/ou ministras, mas a maior barreira contra as mulheres na Igreja atravessa todas as fronteiras territoriais. É a cultura do clericalismo.
É certo que nem todos os clérigos estão infestados pelo clericalismo que os separa e coloca acima do povo de Deus, seja homem ou mulher. É verdade que, com demasiada frequência, os leigos também facilitam a cultura do clericalismo.
Ainda assim, o clericalismo é um verdadeiro obstáculo aos processos e ao objetivo da sinodalidade: a difusão do Evangelho.
O relatório do Grupo de Estudo 4 do Sínodo sobre a Sinodalidade oferece uma pequena janela para a forma como a casta clerical reconhece cada vez mais os perigos e as causas do clericalismo.
Fruto do trabalho de nove padres (incluindo dois cardeais) e uma leiga, o relatório é notavelmente franco na sua compreensão das armadilhas da atual formação no seminário e de como o facto de separar os seminaristas da Igreja em geral durante a formação é prejudicial para eles e para toda a Igreja.
A esperança apresentada no relatório é criar programas de formação no seminário que «evitem a condição de separação onde a irresponsabilidade, a dissimulação e o infantilismo clerical se geram mais facilmente». (I, 6)
A inclusão dos termos «irresponsabilidade, dissimulação e infantilismo clerical» no documento sinaliza o reconhecimento de uma forma de clericalismo que se estende para além de um único país ou cultura, prejudicando tanto os clérigos individualmente como o povo de Deus.

Mulheres participantes no Sínodo sobre a sinodalidade, 7 de outubro de 2023, à saída de uma das sessões da assembleia. Foto © António Marujo/7MARGENS
O narcisismo clerical cresce
De facto, o relatório parece reconhecer implicitamente que já não se trata de um simples «clericalismo», mas sim de um narcisismo insidioso que pode, e de facto está, a contaminar um número cada vez maior de clérigos, jovens e idosos.
À medida que o número de padres ordenados continua a diminuir, muitos dos que permanecem podem encontrar em si próprios e nas suas posições um sentimento de singularidade que os afasta do serviço genuíno.
Os sintomas do narcisismo clerical são muitos:
- A missa não é um culto comunitário, mas uma representação do padre que inclui a narração de histórias pessoais como «homilias».
- O padre cultiva intensamente a sua imagem pessoal como líder carismático, exigindo tanto admiração como controlo.
- O padre-pároco ataca qualquer pessoa ou questão pública que ponha em risco a lealdade incondicional dos paroquianos, dos padres auxiliares ou do pessoal.
- O padre é excessivamente defensivo e reage de forma exagerada a qualquer crítica ou correção.
Tal narcisismo clerical reduz-se a abusos espirituais e falhas de liderança, quando os clérigos – e aqui vamos presumir que os diáconos também se incluem – se consideram superiores às pessoas que lhes compete servir.
Nas suas piores formas, o clérigo é colérico, arrogante, manipulador e desprovido de empatia. O altar é o seu palco, e o Evangelho um mero pano de fundo para uma pregação ao nível de um talk-show.

Encontro sinodal em Fátima com membros dos conselhos pastorais e das equipas sinodais diocesanas, 11 de janeiro de 2025. Foto © Ricardo Perna/Diocese de Setúbal.
O Sínodo respondeu?
Os membros do Sínodo solicitaram uma revisão da Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, a publicação sobre a formação sacerdotal do Dicastério para o Clero, atualizada pela última vez em 2016.
O Sínodo solicitou também um estudo teológico mais aprofundado sobre o diaconato como vocação permanente. Além disso, solicitou «uma investigação teológica e pastoral sobre o acesso das mulheres ao diaconato», questão que foi atribuída ao Grupo de Estudo 5.
Na realidade, nenhum dos temas relacionados com o diaconato foi plenamente explorado por qualquer Grupo de Estudo.
O Grupo de Estudo 4 centrou-se na formação inicial dos sacerdotes e, no seu relatório final, afirma que, na sequência de uma consulta inicial, «pareceu apropriado não alterar a Ratio propriamente dita, mas sim elaborar um documento preliminar que delineasse claramente a identidade relacional dos ministros ordenados numa Igreja sinodal e missionária e indicasse princípios e critérios para a implementação da Ratio Fundamentalis e da Ratio Nationalis em harmonia com este quadro eclesiológico e missiológico.» (Premissa)
O objetivo declarado e o foco do relatório do Grupo de Estudo 4 são dignos de nota, pois apresentam a esperança de «uma participação ampla e real de todos os membros do Povo de Deus na formação de futuros pastores, com especial atenção à contribuição das mulheres e das famílias; de promover a aquisição de competências indispensáveis para uma Igreja sinodal, tais como a escuta, o diálogo, a corresponsabilidade e o discernimento eclesial; e educar para uma correspondência mais aberta ao mandato missionário de Jesus.» (Introdução)
Mesmo assim, o relatório evita implicitamente a questão dos homens casados como candidatos às ordens sagradas, predominantemente como diáconos. Por conseguinte, a formação e o potencial de clericalismo nos diáconos continuam por abordar.

Sinodais aplaudem o Papa na conclusão da assembleia do Sínodo dos Bispos, 26 outubro 2024. Foto © Clara Raimundo
A conversão como quadro de referência
O título completo do relatório do Grupo de Estudo 4 é revelador: «A revisão da Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis numa perspetiva sinodal e missionária».
A sua secção principal centra-se no apelo à conversão eclesiológica e pastoral. Apresenta em pormenor e define a necessidade de uma conversão relacional, missionária, uma conversão à comunhão, ao serviço, a um estilo sinodal e uma conversão da formação.
O celibato é mencionado apenas uma vez, na última parte desta secção do documento, que comenta sobre uma conversão da formação, embora também indique o potencial dos clérigos casados.
O documento reconhece tanto os aspetos positivos como negativos da formação no seminário que isola os candidatos, e «para a Igreja latina, o carisma do celibato com uma intensa vida espiritual marcada por um ritmo comedido e orientado.» (I, 6)
As Orientações do relatório apresentam objetivos e sugestões concretos, em particular que a formação sacerdotal seja partilhada com todos os batizados.
As Orientações recomendam especificamente que os candidatos ao sacerdócio sejam formados no que designam por «um estilo participativo e sinodal» (II, 2).
O relatório enfatiza a necessidade de uma formação sinodal para a missão. Ao todo, o documento utiliza o termo «sinodal» 99 vezes e «sínodo» 27 vezes, demonstrando as suas raízes no Sínodo sobre a Sinodalidade.
O breve relatório (17 páginas) é complementado por um Apêndice que apresenta parágrafos curtos com exemplos de melhores práticas de todo o mundo.
Por exemplo, uma diocese na Rússia coloca o candidato numa paróquia para o seu ano propedêutico, enquanto uma diocese nos Estados Unidos aborda a necessidade de interioridade.
Outros exemplos, das Américas, Europa, Ásia, Austrália e África, apresentam adaptações criativas das práticas tradicionais de formação aos desafios da sociedade contemporânea. Ao longo de todo o documento, mantém-se a ênfase na formação para a missão numa Igreja sinodal.
Por fim, o documento apresenta um roteiro para um processo de implementação e acompanhamento, que orienta cada conferência episcopal a estabelecer um grupo de trabalho «para acompanhar a revisão sinodal da formação sacerdotal» (Conclusão, 1).
Apresenta um calendário de três anos. Parece que os resultados da análise sinodal proposta sobre a formação sacerdotal deverão ser apresentados na Assembleia Eclesial pós-sinodal de outubro de 2028, em Roma.

Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre Sinodalidade. Foto © Vatican Media.
A formação por si só não é suficiente
Os problemas na formação sacerdotal foram amplamente discutidos e considerados ao longo das várias fases do Sínodo sobre a Sinodalidade de 2021-2024.
Contribuições de todo o mundo questionaram sistematicamente as formas como os homens eram admitidos como candidatos e, por fim, ordenados como presbíteros.
Parece, no entanto, que por mais notável que seja a revisão dos processos de formação, não há avaliação do problema central que persiste entre demasiados homens já ordenados.
O clericalismo existe. Tem sido reconhecido como uma das principais causas de qualquer declínio na frequência à igreja. Pode ser especialmente reconhecido como uma razão para que as mulheres abandonem a Igreja, levando consigo os seus maridos e filhos. Uma vez reforçado por uma forma particular de narcisismo clerical, torna-se auto-replicante.
Por mais bem formado que um padre recém-ordenado possa estar, corre o risco de ser colocado ao lado de um autoproclamado «líder carismático», que pode confrontá-lo com uma escolha difícil: ou é à minha maneira ou vais à tua vida.
O resultado infeliz pode ser um novo grupo de narcisistas clericais demasiado dispostos a ignorar a sinodalidade.
Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é The Vatican and Women Deacons (Orbis, 2026). Este texto foi inicialmente publicado no Flashes of Insight, da Nova Zelândia.










