Publicamos hoje o terceiro texto sobre os dados do inquérito realizado pelo 7MARGENS junto dos leitores e leitoras.
Os leigos receberam com entusiasmo e tentaram envolver-se no processo sinodal, o que não aconteceu com os bispos e ainda menos com os padres. Mesmo assim, apenas 42 por cento dos que responderam ao inquérito do 7MARGENS concorda totalmente, concorda muito ou simplesmente concorda com aquela afirmação sobre o envolvimento dos leigos. Percentagem que desce para 30 por cento no que diz respeito ao empenho dos bispos e se reduz ainda mais (22,14%) quando se trata de avaliar a adesão entusiástica dos padres. Quatro em cada cinco (71,22%) pensa exatamente o contrário sobre a atitude do clero.
A avaliação do entusiasmo dos padres é particularmente negativa já que ela se distribui de modo praticamente uniforme entre os três graus de discordância: discordo, discordo muito e discordo totalmente, que obtêm cada um respostas sempre acima dos 22 por cento. No outro extremo, apenas 7 por cento concorda totalmente ou está muito de acordo com a afirmação de que “o clero, em Portugal, aderiu de forma entusiástica ao processo sinodal”. Valor inferior aos (7,63%) que não sabem avaliar as atitudes em causa nesta pergunta.
Também os bispos portugueses não ficam bem na fotografia. Um pouco melhor do que o clero, mas, ainda assim, olhados como tendo feito muito pouco pelo avanço da sinodalidade. São menos de 28 por cento os participantes no inquérito que manifestam o seu acordo a um balanço favorável ao desempenho dos prelados neste campo. No polo oposto, há mais de 15 por cento de respostas indicando a “total discordância”, 21 por cento “muito discordantes” e 28 por cento que discordam da afirmação de que os bispos portugueses se teriam empenhado fortemente no tema do sínodo para o qual foram convocados pelo Papa Francisco.
Embora exprimindo um balanço mais positivo quanto à adesão dos leigos/leigas, pouco mais de 3 por cento concordam sem reservas com a afirmação “os leigos que conhece receberam com entusiasmo e tentaram envolver-se no processo sinodal”. Enquanto isso, 18 por cento diz estar “muito de acordo” e 21 por cento de acordo. Ao todo, 42 por cento pronuncia-se a favor de um balanço positivo sobre a adesão do laicado.
O conjunto de perceções que os resultados do inquérito permitem identificar revela um muito baixo entusiasmo dos católicos portugueses (com particular evidência para o clero) no processo sinodal. O que ajuda a explicar o facto de mais de dois em cada três leitores reconhecer que as mudanças introduzidas por este processo na Igreja Católica em Portugal foram mínimas, opinando que apenas “alguma coisa mudou” ou que “muito pouco mudou” [ver 7MARGENS].
Críticas de quem participa

Reunião de apresentação da síntese da segunda fase da consulta sinodal em Vila Real: quem mais participa nas dinâmicas da Igreja é quem mais critica. Foto © Diocese de Vila Real.
Há, de resto, 4 por cento de inquiridos que “discorda totalmente” de qualquer avaliação positiva, seja do comportamento dos prelados, dos padres ou dos leigos. É um reduzido número de leitores para os quais nenhum destes três grupos se entusiasmou minimamente em responder ao apelo lançado há cinco anos pelo Papa Francisco. Entre os que fazem este balanço, apenas 8 por cento pensa que, apesar deste manifesto desinteresse, “alguma coisa mudou” na Igreja Católica em Portugal. Todos os outros opinam que ela “mudou muito pouco”, “está na mesma” ou “está ainda pior”.
Embora o inquérito não permita concluir por que razão, apesar do entusiasmo dos leigos e leigas referido por 42 por cento das respostas, tão pouca coisa mudou no modo de ser da Igreja nos últimos cinco anos, existe um princípio de resposta a essa interrogação no facto de, entre todos os que notaram tal entusiasmo, mais de metade (56,27%) defender que os padres não partilharam desse entusiasmo e quase na mesma percentagem (53,23%) considerarem que os bispos também não o fizeram.
Olhando para os resultados a partir do ponto de vista contrário, isto é, daqueles que não observaram entusiasmo dos leigos e leigas em se envolverem no processo sinodal, encontramos 9,42 por cento a defender ter havido grande entusiasmo por parte do clero. Ou seja, quase um em cada dez dos inquiridos afirma que, apesar do entusiasmo vivido pelo clero, os leigos nada quiseram com o sínodo. Quando se trata dos bispos, a relação sobe bastante: para 19,15 por cento dos inquiridos, o empenho destes prelados não encontrou eco nos fiéis.
Como não podia deixar de ser num inquérito em que a maioria (63,62%) das respostas é originada por pessoas que frequentam a missa semanalmente, são também estes que formam a maioria (60,55%) daqueles que criticam a atitude dos bispos, no que são acompanhados pelos que frequentam a eucaristia diariamente (16,83%). Nos que apreciam negativamente o empenho dos prelados encontramos 75,63 por cento de pessoas que estão envolvidas em algum movimento ou estrutura católica, ou que desempenham algum serviço na sua comunidade.
A crítica ao fraco envolvimento dos padres é feita por 71 por cento dos inquiridos, dos quais a maioria (60,49%) vai à missa todos os domingos e 22 por cento fá-lo diariamente, enquanto cinco em cada quatro são pessoas envolvidas no serviço à sua comunidade. Estes dados mostram que quem não aprecia positivamente o interesse (ou, melhor, o desinteresse) dos padres no processo sinodal são católicos e católicas que participam ativamente nos seus grupos, comunidades e movimentos.
Um dos resultados mais curiosos deste inquérito verifica-se, porém, a propósito do que pensam os padres quanto à atitude do conjunto do clero e o que sobre o mesmo tema opinam os religiosos e religiosas. No primeiro caso, 84 por cento dos clérigos avaliam de modo muito, algo ou simplesmente crítico o entusiasmo dos seus pares no que diz respeito à sinodalidade. Seguindo-lhes os passos, quatro em cada cinco religiosos/religiosas afina pelo mesmo diapasão, criticando como insuficiente o envolvimento dos padres.
Ficha Técnica
O inquérito aos leitores do 7MARGENS decorreu durante o mês de maio e recolheu 629 respostas válidas. Mais de metade (52%) dos que responderam são homens, 96 por cento dizem-se católico(a)s, sendo os restantes “de outra confissão”, “crentes sem religião” e “não crentes”. Entre os católicos, a esmagadora maioria (88%) são leigos e leigas, 3,5 por cento religioso(a)s e 8,5 por cento padres; a maioria vai à missa (63,62%) todos os domingos a que acrescem os 20,10 por cento que a celebram, ou nela participam, todos os dias. Além de serem mais “praticantes” do que a maioria da população que se diz católica, os participantes neste inquérito são também muito mais ativos nas suas comunidades do que a generalidade dos católicos: 75 por cento está envolvido em algum movimento ou estrutura católica, ou desempenha algum serviço na comunidade em que se integra.
A amostra obtida, que não permite extrapolações fidedignas para todo o universo por não ter base científica e ser de autorresposta voluntária, conta com católicos e católicas de todas as 20 dioceses do país, à exceção das de Portalegre-Castelo Branco e de Viana do Castelo. Naturalmente, Lisboa (43,8%) e Porto (16,5%), seguidas de Braga (7,0%), Coimbra (6,4%) e Setúbal (4,6%) são as mais representadas. A média de idade dos participantes é de 63 anos, superior em oito anos à média de idade da população portuguesa maior de 18 anos (55 anos).










