Mais uma etapa! Explico.
O grupo de trabalho da Igreja Católica Romana do Fórum Europeu de Grupos LGBTI+ Cristãos desenvolveu o Synodal Project, dedicando-se ao acompanhamento dos trabalhos sinodais nos grupos e comunidades LGBTQI+, escutando as pessoas LGBTQI+ crentes, promovendo debates [ver 7MARGENS] e encontros com membros, madres e padres sinodais durante as várias etapas do Sínodo sobre a Sinodalidade, iniciado pelo Papa Francisco. Todas estas etapas tiveram desafios, que, conjuntamente com a publicação de outros documentos (Fiducia supplicans, em dezembro de 2023; Risposte del Dicastero a S.E. Mons. Negri, em dezembro de 2023; Dignitas infinita, em abril de 2024), foi acrescentado novidades e trazendo mais temas a debate.
Quando, em outubro de 2024, tivemos acesso, com a assinatura de Francisco, ao Documento Final da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos, a expectativa era grande. Muitas vezes o futuro concretiza-se nas pequenas palavras. Numa primeira leitura houve alguma desilusão, mas ali já havia sinais importantes: insistência na sinodalidade como “modo de ser Igreja”, atenção à inclusão das periferias e perguntas abertas sobre o acompanhamento das pessoas que vivem realidades afetivas diferentes da doutrina atual. Este documento também veio acompanhado da nota: “determinadas questões que emergiram devem ser aprofundadas em grupos de estudo temáticos”. Foi a partir dessa nota que nasceu o Grupo 9, cujo relatório recebemos em 5 de maio de 2026. [ver 7MARGENS]

“Quando, em outubro de 2024, tivemos acesso, com a assinatura de Francisco, ao Documento Final da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos, a expectativa era grande. Muitas vezes o futuro concretiza-se nas pequenas palavras.” Foto: Assembleia Sínodo dos Bispos, outubro 2024. @ Clara Raimundo | /MARGENS
Este grupo de trabalho ficou encarregado de algo extremamente delicado: “estudar critérios e metodologias para o discernimento sobre questões doutrinais, pastorais e éticas emergentes”. E assim o fez! Quando li, disse: “isto é sinodalidade!”; desde a alteração da palavra “emergente” (toda a vivência das pessoas LGBTQI+ na Igreja pode ser muita coisa, mas emergente não é), à clareza da explicação do que é a sinodalidade – volto a este tema mais tarde.
Neste documento, estão explanados os limites da doutrina e evidenciado o princípio da pastoralidade. Assim, e no que diz respeito à doutrina, em particular ao processo dinâmico que é a Tradição, lê-se: “contra a tentação de uma ossificação estéril e regressiva de princípios e declarações, de normas e regras, independentemente da experiência dos indivíduos e das comunidades” ou ainda a “denunciar a ilusão de um pensamento que pretende exercer-se a priori, sem reconhecer a sua dívida radical para com as condições reais, os processos culturais e o concreto da experiência.“ (tradução livre da autora). Em termos pastorais afirma-se que “não há proclamação do Evangelho sem assumir a responsabilidade pelo interlocutor, no qual a proclamação já está misteriosamente a atuar” (tradução livre da autora).
Em resumo, este documento dá primazia à experiência e à ação prática (“Reconhecer a primazia da experiência e o papel decisivo da ação prática não significa excluir o rigor e o método do conhecimento crítico”); fala em “sinodalidez” (aborda “questões emergentes” – chamando-lhes “controversas” – com “coragem e parrésia”; escuta, dando voz a experiências na primeira pessoa – especialmente das pessoas marginalizadas; tem presente a “conversa no Espírito”; identifica resistências internas; apresenta práticas já em ação; reúne várias áreas de conhecimento); foca o princípio da pastoralidade (não resolve nenhum problema mas centra-se na “construção do bem comum“ e em “permanecer com a dificuldade”).
Este grupo de trabalho entregou o que lhe foi pedido: um método. Um caminho para a Igreja enfrentar temas sensíveis sem perder a fidelidade ao Evangelho, mas também sem bloquear a escuta do Povo de Deus.
Não-violência ativa pode guiar debates internos

“(…) não reagir com ataques, mas criar espaços de diálogo paciente, assim como participar em iniciativas comunitárias onde nos podemos fortalecer e enriquecer mutuamente – encontros nacionais, ibéricos, europeus ou mesmo mundiais.” Foto @ European Forum of LGBTI+ Christian Groups
Neste relatório também foi dada visibilidade à não-violência ativa, inspirada em movimentos cristãos nos Balcãs. Como é que os testemunhos nele presentes se “casam”? Há uma ponte: como lidar com conflitos profundos sem quebrar a comunhão entre os batizados, mas também não sermos internamente dilacerados? No relatório, percebe-se que a não-violência é um princípio que pode guiar debates internos: não reagir com ataques, mas criar espaços de diálogo paciente, assim como participar em iniciativas comunitárias onde nos podemos fortalecer e enriquecer mutuamente – encontros nacionais, ibéricos, europeus ou mesmo mundiais.
Tendo agora este relatório preliminar nas nossas mãos, não precisamos de ficar à espera do documento conclusivo ou da grande Assembleia Eclesial para avaliar o impacto real e a concretização destas reformas nas dioceses de todo o mundo em 2028. Podemos inspirar-nos nele e iniciar um caminho concreto junto das nossas paróquias e dioceses:
- Dinamizando conversas no Espírito sobre a realidade LGBTQI+: momentos paroquiais que escutem testemunhos sem pressão para “resolver” nada, mas com oração e discernimento.
- Formação básica para agentes pastorais: catequistas, famílias, agentes pastorais, padres e pessoas consagradas precisam de instrumentos para saber acolher (inspirado na Amoris Laetitia e nos textos sinodais).
- Uma rede nacional de escuta e acompanhamento: hoje, muitas pessoas LGBTQI+ procuram ajuda e encontram portas fechadas; precisamos de espaços eclesiais seguros, com acompanhamento espiritual, sem juízos sumários. Consulte-se o mapa da Europa com esta iniciativa.
- Aplicar a pedagogia da não-violência: vamos recusar o discurso agressivo (de qualquer lado) e trabalhar na escuta mútua, mesmo quando doer.
De outubro de 2024 a junho de 2026, percorremos um caminho que muitos julgavam impensável. Não há conclusões definitivas sobre ética sexual no magistério – e talvez não as haja tão cedo. Mas já há uma mudança real: a Igreja não fecha a porta ao diálogo com as suas filhas e filhos. Como católica que acompanha de perto a realidade LGBTQI+, isto enche-me de esperança. Porque a esperança não nasce quando tudo está resolvido, mas quando alguém diz: “Senta-te à mesa, quero escutar-te.” Se hoje, em Portugal, ousarmos dar passos, talvez amanhã possamos dizer que sinodalidade não foi uma palavra linda, mas um novo modo de amar.
Poderia terminar esta reflexão com comentários como “não somos questões controversas, mas batizados” ou “os testemunhos não incluíram mulheres ou pessoas trans ou outras realidades de orientação sexual ou identidade de género” ou ainda “para quando a Igreja tem uma abordagem doutrinal para afetividade de modo a não haver batizados de primeira, de segunda ou de terceira?” Mas a verdade é que é através do conhecimento mútuo que avançamos e que colocamos “Cristo no centro”. Não tenhamos medo!!
Referências
Ana Carvalho participa no grupo de trabalho da Igreja Católica do Fórum Europeu de Grupos LGBTI+, foi promotora e dinamizadora do Centro Arco-íris e fundadora do Movimento Sopro e membro honorário da CaDiv – Caminhar na Diversidade. Dinamizou oficinas de trabalho sobre a experiência de acolhimento e de reflexão dos textos bíblicos a partir da experiência LGBTQI+.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.






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