Da coragem de nos capacitarmos fora de portas através de um outro olhar interior, sobre nós e o todo do nosso Viver, surgirá o ânimo de ir alinhavando “espaços de amabilidade solidária”.
Por estes dias, na correnteza em catadupa das notícias a propósito do Mundial de Futebol, uma reportagem de duas páginas no jornal PÚBLICO, do passado dia 2, desperta o interesse pelo título, mesmo a quem pouco se interesse por futebol: «Camisolas leiloadas directamente das costas dos jogadores».
Do que se trata? No ano de 2017, dois irmãos advogados de Amesterdão queriam presentear o seu pai, «adepto fervoroso do Ajax», com «uma camisola usada pelo jogador favorito do seu coração». Mas não havia modo de como… Então, «a frustração dos dois irmãos (…) foi a semente que deu início à MWS, actualmente com mais de 220 mil camisolas vendidas», conclui o repórter.

“Deixando para trás pormenores que não se mostram necessários, o conceito do negócio esclarece-se assim: contactados centenas de clubes e federações de futebol (incluindo Portugal), no final de cada jogo, aceitaram o desafio da Match Worn Shirt.” Foto © site Match Worn Shirt (pormenor da capa)
Deixando para trás pormenores que não se mostram necessários, o conceito do negócio esclarece-se assim: contactados centenas de clubes e federações de futebol (incluindo Portugal), no final de cada jogo, aceitaram o desafio da Match Worn Shirt. A partir de então, camisolas ainda suadas, não lavadas e autografadas pelos craques, passaram a ser enviadas para a MWS para posteriormente serem leiloadas… E cada camisola pode atingir valores que vão de pouco mais de 2 mil euros até mais 62.606 euros. Este último lance, que pertencia a uma camisola vestida por Cristiano Rolnaldo, foi superado por uma utilizada por Lamine Yamal, «jovem prodígio do Barcelona», informam os dois irmãos, sem revelarem o valor deste leilão… A grande expectativa dos advogados leiloeiros, como se refere no final da reportagem, está no Mundial de Futebol.
Nestes tempos parcos em sentimentos compassivos, içam-se estandartes de vaidades impulsionadas pelo fragmentarismo social que desencadeia fissuras incontáveis a diversos níveis, e cada vez mais agrestes, onde afecto e cuidado não têm lugar. A imaturidade humana vai conseguindo estabelecer-se como “espaço normalizador”, transformado em “actualidade”. Resta-nos acreditar com o filósofo que a frialdade que desta se desprende, tarde ou cedo, deixará de se dissimular [1].
A banalização desta “actualidade”, que não é presente vívido do quotidiano, é antes porta entreaberta para a mediocridade. A esta o que lhe interessa, o que pretende é o deslumbre fático. Simplesmente por ser deslumbrante, hipnótico como um néon, sem que traduza qualquer experiência ou sentimento.
As palavras acima sublinhadas a negrito indicam só por si como esta actualidade conseguiu tornar-se em “realidade da aparência”. O que se afirma, o que se expressa já não é a construção do tempo presente, do Viver de cada momento feito, concrecto, amadurecido no peneirar do quotidiano. Contrariamente, verificamos que o fervor alardeado não corresponde a zelo ou apelo saído do coração, capaz de tomar em mãos a construção das realidades. Resta a frustração… Mas esta não propícia à semente audácia bastante para germinar.

“Não vos preocupeis a respeito da vossa vida sobre o que comereis ou bebereis, nem a respeito do vosso corpo sobre o que vestireis.Examinai de perto os lírios do campo como crescem!” Foto © Joaquim Félix]
«Não vos preocupeis a respeito da vossa vida sobre o que comereis ou bebereis, nem a respeito do vosso corpo sobre o que vestireis.
Examinai de perto os lírios do campo como crescem!
Digo-vos que nem Salomão em todo o seu luxo se vestiu como um deles.
Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe
e amanhã será lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós (…).
Procurai, antes o reino de Deus e a sua justiça;
e todas as coisas vos serão dadas»[2]
Não é necessário uma reflectida exegese para compreender o chão que Jesus percorria e as vozes doídas que escutava; assim como não lhe foi igualmente indiferente o aparato soberbo que observava, quer na agremiação sacerdotal de Jerusalém, quer na minoria possidente agrária, ambas enleadas no favorecimento político de Roma.
O enraizamento da Existência não se finca na banalidade da aparência, na exaltação do efémero ou da notoriedade narcísica do volátil. O desígnio da vida corrente só adquire consistência no cuidado, na solicitude e no amparo. Foi a sabedoria que Jesus cultivou…
Ele sabia que um sistema construído sobre o dinheiro e os interesses de muito poucos só poderia resultar numa infinda noite lançada sobre os ombros de uma multidão a quem estava proibido o direito de reclamar justiça, sendo-lhe somente permitido cumprir a sentença de suar sob uma cruel desigualdade… E ao final de cada jornada, as suas roupas não gozavam de qualquer valor para serem leiloadas.
Ao afirmar que o único cuidado era a construção da Justiça do reino de Deus, Jesus afirmou o direito de sermos opositores da deriva dos que necessitam de violência, de fome, e de guerras; dos fingidores que espalhafatam míseras benfeitorias e dos seus dos seus acólitos, acomodados nas cadeiras lustradas de poderes diversos, discorrendo eloquências de bem-estar e juras de garantias de futuro às multidões. Estas nem cuidavam em atender, tão vilmente quebrantadas que estavam sob a trama das vantagens de muitos poucos. Tudo sempre germinado pela altivez do dinheiro ou a persuasão das armas.

“Ao afirmar que o único cuidado era a construção da Justiça do reino de Deus, Jesus afirmou o direito de sermos opositores da deriva dos que necessitam de violência, de fome, e de guerras.” Ilustração da Ana Luísa Lewis: Paz.
A Justiça do reino de Deus não conjuga com os discursos dos populismos… Esses não afrontam os que impõem (a muitos) a obrigatoriedade de se sobreviver à custa do suor de doze ou dezoito horas de trabalho, por forma a conseguir chegar ao final do mês. Esses não se compadecem com as mãos gretadas, os ombros caídos ou olhos semicerrados dos que se atafulham nos cubículos suburbanos, corroídos pelo mofo e o aumento desmesurado da renda. E de mais tudo! Porque a eles não lhes é dado sonhar com férias fora das quatro paredes, quando mal conseguem o peixe à mesa ou as sapatilhas dos filhos [3].
A charanga populista desvia o olhar para ignorar a compaixão e a proximidade; aos deserdados proclama discursos altaneiros da sua inacção. Coisa própria de oficiantes do culto das promessas do capitalismo globalizado…
Prevalece a ilusão. Um modelo mais aerodinâmico de determinada marca de carros; um concentrado de um fruto exótico, cuja produção esgota a densidade produtiva de terrenos longínquos; quilómetros infindos de algodão para se ter mais uma camisa ou um vestido, desta vez com riscas azuis; um creme mais macio, uns sapatos com menos ou mais biqueira, quem sabe… E vamos assim por diante, porque a futilidade anuncia-nos que se criaram novos postos de trabalho, mais riqueza (não sabemos para quem), mas sobretudo o PIB está a crescer.
O que fica é apenas a logro de que o mercado funciona, o dinheiro escorre para os cofres, enquanto a vida milhões de seres humanos é encarcerada à velocidade da luz, para não dar azo a pensarem na eventualidade sequer da resistência pacífica.
A resistência pacífica não é uma ideia abstracta. É o direito de dar cumprimento à Justiça do reinado de Deus [4]. Sim, o reinado por se tratar de dar corpo e ânimo a uma convivência humanizadora. Não se trata do igualitarismo dos populistas, mas de justiça. Da justiça fundamentada no acolhimento. De todos, sim, mas sobretudo dos mais frágeis, dos despossuídos, porque a Justiça do reinado de Deus não se acomoda às benesses apregoadas do capitalismo globalizado. Este tem precisamente a sua exacta correspondência no modelo de comércio das camisolas dos jogadores de futebol.
A resistência pacífica alicerça a sua razão na proposta de Jesus: «Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã será lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós!». A nós cabe cumpri-la…
[1] Humano, más humano – Una antropología de la herida infinita, Josep Maria Esquirol, ACANTILADO, Barcelona, 2021; pág. 58. A reflexão do filósofo avisadamente releva: «A falta de humanidade é o prelúdio da desumanidade.»
[2] Do evangelho de Mateus, cap. 6, 25; 27-30; 33
[3] As citações feitas não são generalidades, fundam-se em casos concrectos.
[4] Nos originais gregos escreveu-se reinado (basileia), não significa lugar ou território, mas poder soberano, e que se distingue por ser acção, destino a concrectizar.
Mário Robalo é jornalista
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