Muito já foi escrito sobre a primeira Encíclica de Leão XIV. A minha preocupação, agora, tem que ver com o que, pastoralmente, se vai fazer com ela. É que os importantes documentos do Magistério da Igreja com dimensão social costumam ter muito eco aquando da publicação e, depois, ficam a criar pó nas estantes de quem os adquiriu. Alguns são citados na Magnífica Humanidade, com particular realce para os que foram escritos para assinalar a publicação daquele a partir do qual se começou a sistematizar o que veio a designar-se por Doutrina Social da Igreja (DSI) – gosto mais de Pensamento Social da Igreja Católica – , refiro-me à Rerum Novarum de Leão XIII.
É importante que a Magnífica Humanidade perdure no tempo com o mesmo entusiasmo de agora e chegue a «todos os fiéis católicos, a todos os cristãos, a todos os homens e mulheres de boa vontade» (cf. MH 16). E que ela seja lida, refletida e debatida com muita serenidade, por ser da «máxima importância infundir valores e prudência na programação dos sistemas artificiais (…) para ouvir a própria consciência e em que os modelos de IA (Inteligência Artificial) estabeleçam limites apropriados.» (cf. MH 198). Há que ajustar as reflexões aos destinatários, pois os níveis etários e de conhecimentos da DSI serão muito diversificados. Como já foi referido pelo 7Margens, do dia 1 de junho, o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral editou um conjunto de elementos que poderão ser uma ótima ajuda para quem se disponibilizar a promover e/ou animar estes tempos de reflexão. O segundo capítulo desta encíclica, também, poderá ser um bom recurso para a introdução à DSI.

“Pela relevância que tem, esta encíclica deve ser assumida como uma das prioridades pastorais dos próximos anos, aproveitando todas as oportunidades e contextos possíveis para se fazer o que há muito tem sido adiado: dar a conhecer a todos os católicos os princípios e fundamentos básicos da DSI.” Foto: Livro da encíclica Magnifica Humanitas. DR
Pela relevância que tem, esta encíclica deve ser assumida como uma das prioridades pastorais dos próximos anos, aproveitando todas as oportunidades e contextos possíveis para se fazer o que há muito tem sido adiado: dar a conhecer a todos os católicos os princípios e fundamentos básicos da DSI. Nenhuma instância nacional ou diocesana, criada para a capacitação de agentes pastorais e dos católicos em geral, devia esquecer o estudo da DSI. Não me refiro apenas à Universidade Católica, aos Institutos Diocesanos ou às Escolas de Leigos, mas também ao que é proporcionado pelas escolas católicas e pelo ensino da Igreja nas escolas, bem como na formação de cristãos jovens e adultos em ordem à receção de determinados sacramentos. Como seria bom que, em cada paróquia, nascesse um grupo para ler “os sinais dos tempos” à luz da DSI e fomentar o seu estudo!
Esta encíclica, sem minorar a importância do progresso tecnológico, chama a atenção para a complexidade dos riscos que a implementação da IA possa ter na vida das pessoas socialmente mais fragilizadas. (cfr. MH 77). Há quem já esteja em situação de pobreza, ou a caminho de passar a estar, devido à iliteracia digital. Este desconhecimento compromete a igualdade de oportunidades no acesso a políticas públicas que visam a proteção social e o ingresso no mercado de trabalho. Agora, quem legisla, parte da suposição de existir em casa de cada família portuguesa um computador e uma ligação à Internet e de que todos lidam bem com os processos informáticos. A realidade é outra. As IPSS em geral, e as da Igreja em particular, poderiam estipular dias e horas semanais para que as pessoas que precisem de ajuda, como por exemplo, no preenchimento de requerimentos informatizados, pudessem ser ajudadas. Em paróquias em que não exista alguma IPSS, ou ela não preste este serviço, o mesmo poderia ser prestado pela cáritas paroquial, pela conferência vicentina ou por outro grupo paroquial de ação social. Seria uma tarefa muito nobre e interessante para os jovens que integram os diferentes movimentos juvenis católicos e uma forma de os ir inserido na pastoral social das suas comunidades. Também poderia ter interesse a criação de “oficinas digitais” para a criação de cursos de “alfabetização digital”. Esta seria outra tarefa interessante para jovens, com a vantagem de se tecerem laços de intergeracionalidade.
A Magnífica Humanidade é uma oportunidade para nós – os católicos – enriquecermos mais a nossa formação cristã com um maior e melhor conhecimento da DSI. Porque os «grandes compromissos sociais não são separáveis da relação pessoal com Cristo» (cf. MH 44), Leão XIV convida-nos a «assumir com firmeza a própria responsabilidade na construção duma sociedade mais humana e fraterna.» (cf. MH 91). Se não fizermos esta aposta, estamos a ofuscar a nossa identidade cristã.
Eugénio Fonseca é presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado.
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