Quando falamos de sinodalidade o que se anuncia?

Por mim, gosto de pensar sinodalidade colocando o foco na pessoa do outro. O outro com quem me ponho ao caminho começando por escutar ideias, temas, rotas e metodologias que propõe, ouvindo mais e falando menos para melhor o poder compreender. Em liberdade, no despojamento de juízos pré-concebidos ou certezas antecipadas. O outro com quem me disponho a rezar e de à oração entregarmos escolhos que a caminhada nos revelar. O outro, enfim, com quem possa partilhar interrogações e reflexões, na esperança de ambos discernimos destinos inovadores, mais desafiantes, uma boa direção para o caminho.
Evidentemente, recuso pensar sinodalidade como reivindicação ou acesso, a cargos e lugares de privilégio, de igual modo terei dificuldade em compreender o afinco de certos padres a preservarem para si muito daquilo que não é exclusivo da unção presbiteral, sem darem espaço e lugar aos leigos, fomentando o indesejável clericalismo.
Também prefiro não conceber uma agenda sinodal exclusiva, ou preferencial, de temas recorrentes, ditos controversos: celibato, lugar e exercício das mulheres na Igreja, abusos sexuais, comunidade LGBTQIA+, tensão entre movimentos progressistas e comunidades conservadoras.
Estimo, outro sim, ver acontecer sinodalidade a partir de baixo, em pequenos grupos e movimentos, nas paróquias, a partir de experiências simples, refletindo sobre problemas próprios, temas de formação e gestão de assuntos internos, a suscitar consciência, responsabilidade individual e coletiva de cada ser batizado, no ordenamento da Igreja. O sentido da fé – de que fala a Constituição Dogmática Lumem gentium (34-35) – ou seja, aquilo que qualifica todos os cristãos na dignidade da função profética de Jesus Cristo, em ordem ao discernimento de como os caminhos do Evangelho revelam os sinais dos tempos para o presente.

Almoço do Papa Leão XIV com os pobres na Sala Paulo VI, 16 novembro 2025. Foto Vatican Media
A Doutrina Social da Igreja, concretamente para citar apenas os dois últimos pontífices romanos, é pródiga em revelação e ensinamento. Veja-se o legado do Papa Francisco em A Alegria do Evangelho (2013), continuado pelo Papa Leão, Eu te amei (2025) e Magnifica Humanitas (2026) a oferecerem, àqueles que se sentem atraídos por esse desiderato, reflexão e aprofundamento de como, em cada momento, são chamados a intervir na marcha da história e a levar por diante a Igreja de Cristo.
A questão estará em aproveitar, ou não, esses recursos para formação de cristãos mais conscientes das suas responsabilidades. Dito de outro modo, tornar esses meios em elementos transformadores da vida de cada batizado, para a semente poder cair e dar bom fruto.
Nesse sentido, em nada ajudarão comunidades enredadas em opções pastorais fundadas na ruralidade, pouco se importando com uma visão nova, que olhe a cidade no seu todo, verdadeira Pastoral da Cidade a envolver por inteiro as paróquias num único desígnio, salvaguardando-se, evidentemente, a liberdade e carismas próprios. Urge, pois, remar contra mentalidades e estruturas onde “sempre se fez assim”, que se contentam em navegar sem fazer ondas, mantendo tudo como está. Para esses, noventa e cinco por cento da pastoral estará feita, configurada em pequena catequese, batizados, casamentos e funerais, esperando que a parte residual dessa pastoral bafienta, possa chegar por acréscimo. Não, decididamente, o caminho sinodal não se fará por aí!
Uma carta do patriarca de Lisboa

O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, no encerramento da Visita Pastoral à vigararia de Oeiras, 1 de fevereiro. Foto Patriarcado de Lisboa
A propósito de sinodalidade e como exemplo prático valerá a pena salientar a recente carta pastoral do patriarca de Lisboa “Levanta-te, Igreja de Lisboa, e resplandece em Cristo”, sobre a missão da Igreja de Lisboa (Paulinas, 2026).
Aos diocesanos de Lisboa, D. Rui Valério aponta “um itinerário que liga dois grande eventos: o Jubileu da Encarnação de 2025 e os dois mil anos da Redenção em 2033”.
Trata-se de um texto estimulante, estruturado numa narrativa “de escada espiritual” com degraus sequenciais: “redenção, santificação, justificação e sabedoria” (p. 15). Do itinerário, como se descobre, segue e contempla a pessoa viva de Jesus, filho de Deus. Excelente catequese sobre cristologia. Eloquente a apresentação da “Igreja, continuadora da missão de Cristo redentor” exprimindo uma eclesiologia com clareza, sobretudo, quanto à origem, natureza e ação.
O patriarca robustece a carta com citações do Concílio Vaticano II (Gaudium Spes, pp.6 e 8), (Lumem Gentium pp. 14 e 20), fazendo uso e assim significando o valor da Doutrina Social da Igreja na condução da marcha da Igreja de Jesus Cristo, ao logo da história do tempo.
Quanto ao itinerário proposto e importância de sua concretização, sublinham-se algumas orientações de D. Rui Valério:
- “Não há maior dignidade para o homem do que tornar-se amigo de Deus e cooperador do seu Reino” (p. 17);
- “A Igreja deve ser casa, família, onde se experimenta colhimento e sentido de pertença” (p. 23);
- “Celebrar sem evangelizar não cumpre o mandato do Senhor” (p. 36);
- “Trabalhador: faz do teu ofício um apostolado” (p. 37);
- “Os fiéis leigos são chamados a animar cristãmente as realidades temporais, levando Cristo à família, à educação, à economia, à cultura, à política, como fermento do mundo” (p. 37);
- “Fazei da vossa vida uma Eucaristia viva” (p. 38);
- “Continuemos a ser uma Igreja sinodal missionária” (p. 38).
Estes tópicos seriam temas suficientes para orientar discernimento em caminho sinodal!
Por outra parte, a leitura desta carta levou-me a recordar o Sínodo do Bispos de 1974 sobre “Evangelização no Mundo de hoje”. Hoje, como então, os desafios são comuns: evangelizar a Igreja e levar a Igreja a evangelizar a cidade dos homens. Embalado pelo fervor desses tempos, teria talvez apreciado ainda mais a carta do meu Bispo se ela tivesse dado outro enfase à evangelização ad intra [bem sei que está lá o apelo ao estudo da Palavra e boa celebração da Eucaristia, etc.] pela simples razão de que não se pode ser missionário se o missionário não estiver ele mesmo evangelizado. Esta, reconheça-se, continua a ser uma missão da Igreja nunca terminada.
Seja como for, a carta “Levanta-te, Igreja de Lisboa, e resplandece em Cristo” deveria constituir objeto de estudo e reflexão entre as comunidades paroquiais da diocese. Desconheço se sim ou não. Oxalá não seja ela relegada para o pó das prateleiras, onde, infelizmente, na esmagadora maioria das comunidades, jazem documentos da Doutrina Social da Igreja.
Prevaleça, pois, a sinodalidade!
José António Santos é jornalista
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