Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.
Publicamos a seguir o quinto texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória. E ficamos a aguardar receber muitos mais em setemargens@setemargens.com.
Shusako Endo (1923-1996) é um autor japonês que pertenceu à pequena minoria católica daquele país. Entre várias obras com êxito internacional, escreveu Uma Vida de Jesus (1973) com o intuito de dar a conhecer aos cidadãos do seu país essa personagem de impacto global, mas quase desconhecida no Japão, onde os cristãos não chegavam a 1% da população.
Endo partiu, é claro, do que diz o Novo Testamento, mas vai além disso, numa conjugação feliz entre o que sabemos pela História e o que ele pôde conhecer do território que teve oportunidade de conhecer ao vivo. Deste modo, dá-nos uma narrativa onde a fé e o conhecimento se conjugam e desafiam todos os que estão interessados em olhar de modo novo não apenas o personagem histórico-religioso, mas também o que viria a ser o Cristianismo destes dois milénios e o que, para ele e muitos outros, pode ser hoje.
Um dos problemas atuais quanto a este tema é a interrogação que a História faz aos relatos do Novo Testamento que não são de natureza historiográfica, mas catequética. O que movia os autores bíblicos não era a fidelidade histórica ao acontecido, aliás atitude ainda não amadurecida naquele tempo, mas a necessidade de anunciar a Boa Nova e de ajudar as comunidades a que se destinavam os textos a viverem de acordo com o projeto da nova fé ou de uma fé renovada.
Desde o século XIX que a crítica ao Novo Testamento e à doutrina da Igreja tem mobilizado tanto os combates contra o Cristianismo, como o aprofundamento da teologia cristã, católica e protestante. No presente, muito desse trabalho está ainda em curso. E não é para estranhar que muitos cristãos e não cristãos tenham dificuldade em situar-se nesse contexto.
A obra de Shusako Endo (D. Quixote) pode dar um bom contributo para quem quer conjugar o que tem vindo a ser transmitido ao longo dos séculos com o conhecimento que os últimos tempos têm obtido. Não se trata de uma exposição histórica deste problema, mas tão só a narração, com sensibilidade de artista, da vida de Jesus tendo em boa conta o que se sabe para lá dos textos do Novo Testamento e da catequese tradicional.
Uma leitura com proveito, atestada pelo êxito internacional desta obra.
José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com










