Os sínodos, tantas vezes!, são organizados com intenções específicas, transformando-se em verdadeiras “encomendas” para abordar temas previamente definidos. Este fenómeno pode levar a uma orientação dos debates e decisões, por vezes limitando a espontaneidade e a liberdade de expressão dos participantes. Assim, é fundamental refletir sobre o papel dos sínodos na vida comunitária e no desenvolvimento das práticas eclesiásticas. Este tipo de abordagem pode gerar um ambiente em que os participantes se sintam condicionados a seguir uma linha pré-estabelecida, em vez de explorar novas perspetivas ou questionar ideias já consolidadas. Por conseguinte, a autenticidade das discussões pode ser comprometida, tornando-se essencial promover espaços de diálogo verdadeiramente abertos e inclusivos. Só assim os sínodos poderão cumprir a sua missão de serem lugares de escuta, discernimento e construção coletiva, fortalecendo a comunidade eclesial e contribuindo para uma renovação genuína das práticas e valores que orientam a vida comunitária.
Um sínodo é uma assembleia de membros de uma Igreja, geralmente composta por bispos, padres, religiosos e leigos – como é normal numa igreja em pirâmide denominar – , reunidos para debater e decidir sobre questões doutrinais, pastorais ou disciplinares relevantes para a vida e missão da comunidade eclesial. O termo deriva do grego “sýnodos”, que significa “caminhar juntos”, refletindo o caráter colegial e participativo deste tipo de encontro. Os sínodos pretendem ser espaços de escuta mútua, discernimento e tomada de decisões partilhadas, promovendo a renovação e o fortalecimento da vida da Igreja. Uma “encomenda” refere-se a algo que é solicitado ou preparado de propósito, frequentemente com objetivos específicos e previamente definidos. Ou seja, quando se diz que um sínodo é uma “encomenda”, implica que o encontro foi orientado ou dirigido para tratar de determinados temas, muitas vezes limitando a espontaneidade dos debates e influenciando os resultados esperados, em vez de permitir uma discussão livre e aberta. O que se verifica em numerosas ações sinodais.

“O Espírito Santo atua de forma livre e dinâmica no meio do Povo de Deus, inspirando e guiando cada membro independentemente da posição ou função que ocupa na comunidade.” Imagem © Viacrucis
Mas um Sínodo não é uma encomenda! É importante sublinhar que, apesar de algumas assembleias poderem ser direcionadas para determinadas temáticas, o verdadeiro espírito sinodal reside na abertura ao diálogo e na busca conjunta de soluções para os desafios da comunidade. O processo sinodal visa garantir a participação efetiva de todos os membros, promovendo decisões partilhadas e autênticas, livres de condicionamentos externos. No Sínodo, há pessoas que desejam ser ouvidas e participar ativamente nas decisões, reivindicando o seu direito à voz e vez. Este desejo reflete a importância de garantir que a diversidade de opiniões e experiências seja acolhida, tornando o processo verdadeiramente inclusivo e representativo. O envolvimento de todos é fundamental para que as decisões tomadas reflitam as necessidades e aspirações da comunidade, valorizando cada contributo individual no caminho conjunto.
De acordo com a minha opinião, e só minha, o calendário e o tema de um Sínodo devem ser definidos em consonância com o querer do Povo de Deus, refletindo as necessidades e inquietações concretas das comunidades. Este processo participativo assegura que as assembleias não sejam impostas de cima para baixo, mas antes resultem de uma escuta atenta ao sentir coletivo, reforçando a legitimidade e pertinência dos temas abordados. O Espírito Santo atua de forma livre e dinâmica no meio do Povo de Deus, inspirando e guiando cada membro independentemente da posição ou função que ocupa na comunidade. Não reconhece hierarquias ou estruturas rígidas, manifestando-se igualmente através de todos e todas, valorizando a riqueza da diversidade de dons e experiências. Essa presença ativa do Espírito Santo garante que todos possam contribuir para o discernimento coletivo e para a construção de uma Igreja mais autêntica e aberta ao diálogo, promovendo a comunhão e a corresponsabilidade no caminho sinodal. Não são os bispos que fazem o Espírito Santo, pois este atua onde quer e como quer, independente de qualquer estrutura humana. A sua ação é livre e não se limita a cargos ou funções, manifestando-se tanto nas decisões coletivas como nos impulsos pessoais de cada membro da comunidade. Assim, a verdadeira renovação e discernimento nas assembleias sinodais só acontecem quando se permite que o Espírito Santo inspire e conduza todo o processo, sem restrições ou condicionamentos impostos pela hierarquia.
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.
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