[Assunção da Virgem Santa Maria ― 2026]
1. Há fenómenos no universo que suscitam o espanto.
Por mais prodigiosos que sejam os novos avanços científicos,
sentimo-nos ainda muito pequeninos,
como pontas de agulhas num denso novelo de mistérios.
Ao contemplá-los, enchemo-nos de admiração,
de um assombro que nos devolve à idade dos porquês,
cuja alegria transborda sobretudo pelos olhos,
que brilham como os das crianças sorridentes.
Não terá sido isso que experimentámos,
no final da tarde da passada quarta-feira,
ao contemplar o eclipse total do sol?
2. Com câmaras fotográficas, para registar o momento,
óculos escuros ou até mesmo com máscaras de soldadores,
foram muitos os que se deslocaram a Trás-os-Montes,
tornando Rio de Onor, em Bragança, uma espécie de capital do eclipse.
Um pouco por todo o lado, no entanto,
juntaram-se multidões para assistir ao eclipse solar total.
Em Braga, por exemplo, nas escadarias do santuário do Sameiro
reuniu-se uma multidão que parecia uma peregrinação mariana.
3. Por mais admirável que tivesse sido o eclipse solar,
a noite ofereceu outro espetáculo, num esbanjamento de gratuidade,
a quem teve paciência ou disponibilidade para aguardar por ele:
a chuva de meteoros das Perseidas,
também conhecidas como «Lágrimas de S. Lourenço».
Possam estes fenómenos ajudar-nos a celebrar com assombro
o mistério da Assunção da Virgem Santa Maria.

[Palla dell’Assunta de Tiziano Vecellio. 1535. Capella Cartolari-Nichesola. Catedral de Verona. Fotografia © Joaquim Félix]
4. «Apareceu no Céu um sinal grandioso:
uma mulher revestida de sol,
com a luz debaixo dos pés
e uma coroa de doze estrelas na cabeça» (Ap 12,1).
Uma sequência de sinais no Céu é o que proporciona
esta página do Apocalipse cuja plasticidade visual nos espanta.
É uma página que se descerra, como janela profética,
abrindo-se na semelhança do templo de Deus com a sua arca,
para vermos uma mulher revestida de sol, prefiguração de Maria,
que «gritava com as dores e ânsias da maternidade» (Ap 12,2).
Revestida de sol, ela estava prestes a dar à luz a mais bela Luz.

[Dança com o Sol, 2026. M. Lousa. 28ª Edição da Arte na Leira. Casa do Marco. Arga de Baixo, Caminha. Fotografia © Joaquim Félix]
5. Ao longo dos séculos, vários artistas apresentaram esta mulher,
a Filha de Sião, como figura da Mãe do Messias e Mãe da Igreja;
revestida de sol, sim, mas sem se postar à frente do sol.
Jean Lurçat, nome maior do renascimento da tapeçaria,
inspirado nas tradições medievais,
concebeu um cartão inspirado nesta visão do Apocalipse,
para, de seguida, ser tecida uma tapeçaria.
Depois de tecida, a tapeçaria foi instalada
na abside da igreja paroquial do Plateau d’Assy, em França.
Que bela tapeçaria! Visão de encanto! Tapeçaria para a fé!

[«L’Apocalypse», tapeçaria concebida por Jean Lurçat, em 1947, com a mulher vestida de sol. Igreja Notre-Dame de Toute-Grâce, Plateau d’Assy, França. Fotografia © Joaquim Félix]
6. Permiti, agora, uma pequena pausa na sequência deste pensamento.
Não é tempo de recreio, mas uma graça que endereço para Portalegre.
Guy Franco entrou em contacto com Jean Lurçat, em 1952,
para que ele pudesse visitar a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre.
Visitando-a em 1958, Jean Lurçat foi exposto a uma prova-de-tapeçarias:
apresentaram-lhe duas tapeçarias, a original, tecida em França
― que Guy Fino tinha oferecido à sua esposa ―,
e uma réplica da mesma, devidamente autorizada, tecida em Portalegre.
Convidado a identificar a original,
Jean Lurçat escolheu a que tinha sido produzida em Portalegre.
Reconhecendo a qualidade das tapeçarias de Portalegre, mais tarde,
considerou as suas artesãs como as melhores tecedeiras do mundo.
Talvez por isso, desde 1958 até à sua morte, em 1966,
muitas das suas tapeçarias foram tecidas em Portalegre.
7. Retomemos o pensamento anterior à pausa, até para desenvolvê-lo.
Realização luminosa da imagem profética,
Maria reveste-se de sol; na sua cintilância, porém, não o encobre.
Não é como a lua cheia que, ciclicamente, produz eclipses solares.
Segundo a mais antiga tradição iconográfica cristã,
existem representações de Maria associadas à lua,
mas, ainda assim, normalmente com a lua sob os seus pés,
na forma de quarto crescente ou meia-lua.
Dificilmente a vemos apresentada como a própria lua.
Porquê? Nem mais, para evitar equívocos,
como, por exemplo, a associação aos eclipses solares.

[Maria não é como a lua cheia que, ciclicamente, produz eclipses solares. Fotografia © Joaquim Félix]
Além disso, na iconografia da Imaculada Conceição,
surge muitas vezes com a serpente do jardim terrestre debaixo do seu pé,
como realização do protoevangelho, a boa notícia profetizada no Génesis:
«Porei inimizade entre ti e a mulher,
e entre a tua semente e a sua semente;
esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar» (Gen 3,15).

[«Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente» (Gen 3,15). Fotografia © Joaquim Félix]
8. Revestida da luz de Cristo ressuscitado,
Maria é a melhor concretização da plenitude da humanidade,
enquanto criatura abençoada desde o início até ao fim;
concebida cheia de Graça, permanece na luz da Trindade.
Ela reveste-se de Cristo, a Luz que deu à luz,
na perspetiva com que S. Paulo (cf. Rom 13,2)
nos estimula a viver condignamente no dia já nascido.
A Luz de carne que Maria acolheu no seu ventre,
revelando-se como Sol nascente e sem ocaso,
reveste-a como a rainha «ornada com ouro de Ofir» (Sl 45,9).
Ela não se sobrepõe a Jesus, sol sem eclipses,
que, segundo S. Paulo, «ressuscitou dos mortos,
como primícias dos que morreram» (1Cor 15,20).
Pelo contrário, Maria de Nazaré é apresentada como a estrela da manhã
que reflete a luz de Cristo para orientar os discípulos até à ressurreição.
Esta é, aliás, a teologia servida na constituição conciliar Lumen Gentium,
na qual, a propósito da Assunção de Maria, se sublinha:
«Entretanto, a Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma,
é imagem e início da Igreja que se há de consumar no século futuro,
assim também, na terra,
brilha como sinal de esperança segura e de consolação,
para o Povo de Deus ainda peregrinante,
até que chegue o dia do Senhor (cf. 2Ped 3,10)» (LG 68).

[«Dormitio Virginis». Basilica di Santa Maria in Cosmedin, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]
9. Com isto assimilado, há que evitar equívocos
em relação à Redenção de Cristo e, também, à Assunção de Maria.
Porque oportuno, lembremos o que o Dicastério para a Doutrina da Fé
esclareceu através da Nota doutrinal Mater Populi Fideli,
aprovada pelo Papa Leão XIV, no dia 7 de outubro de 2025
e publicada a 4 de novembro do mesmo ano:
«Nossa Senhora não quis tirar nenhum título a Jesus […].
“Ela não pediu para ser uma quase-redentora ou corredentora: não.
O Redentor é um só e este título não se duplica”.
Cristo “é o único Redentor:
não existem corredentores com Cristo”» (MPF 21).
Recordemos que, já por duas vezes, em 1996 e em 2002,
o então cardeal Joseph Ratzinger se tinha pronunciado sobre o assunto.
Na segunda vez, ele expressou publicamente a sua opinião,
contrária ao título «Corredentora», que alguns queriam atribuir a Maria:
«A fórmula “Corredentora” distancia-se em demasia
da linguagem da Escritura e da Patrística e, portanto,
provoca mal-entendidos…
Tudo procede d’Ele,
como dizem sobretudo as Cartas aos Efésios e aos Colossenses.
Maria é o que é graças a Ele.
A palavra “Corredentora” obscureceria essa origem».
(P. Seewald – J. Ratzinger, Dios y el Mundo.
Una conversación con Peter Seewald, Madrid 2005, p.287-288).

[Maria disse «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38), mas não é «Corredentora». Anunciação do Anjo Gabriel a Maria e pintura de Mark Rothko, numa das celas do dormitório no Convento di San Marco, Florença. Fotografia © Joaquim Félix]
10. O livro do Apocalipse refere outro sinal importante:
«E apareceu no Céu outro sinal:
um enorme dragão cor de fogo,
com sete cabeças e dez chifres
e nas cabeças sete diademas.
a cauda arrastava um terço das estrelas do céu
e lançou-as sobre a terra» (Ap 12,3-4).
A chuva de meteoros das Perseidas não são esse terço das estrelas,
nem tão-pouco as lágrimas de Maria.
Além disso, convém assinalar que a mulher vestida de sol
permanece com a coroa das doze estrelas na cabeça,
cuja simbologia remete não só para as doze tribos de Israel,
mas também para a totalidade do povo de Deus
que peregrina na História iluminado pela Sua graça.

[O povo de Deus peregrina na História iluminado pela Sua graça. Fotografia © Joaquim Félix]
11. Este sinal é importante para compreender a vida de Maria,
inclusive a sua Maternidade e, depois da sua morte, a Assunção;
ela que foi atraída pela mão do Senhor para o lugar que lhe preparou.
A luta que a mulher revestida de sol travou com o enorme dragão
revela que a vida de Maria foi um intenso combate espiritual,
ao ponto de ter de fugir daquele que pretendia devorar o seu Filho.
Não podemos retirar da sua vida o par de asas que o Senhor lhe deu,
nem «as dores e ânsias da maternidade» (Ap 12,2),
nem alguma das sete dores, que ela viveu com e junto de Jesus,
nem qualquer outra que nós, seus filhos, experimentamos.
A diligência que Maria imprime aos seus passos
para se colocar ao serviço de Isabel, sua prima,
suscita-nos um cântico de gratidão pelas imensas graças que,
como Mãe auxiliadora, ela continua a proporcionar
a todos os que, cheios de fé e piedade, lhe pedem intercessão.

[Isabel, sentindo-se honrada com a visita de Maria, exulta de alegria, juntamente com João no seu seio. Fotografia © Joaquim Félix]
12. Como reconhecemos, através da passagem do Evangelho deste dia,
a sua vida não foi apenas um vale de lágrimas.
Maria e Isabel brindam o seu encontro com Cânticos da Montanha!
Isabel, sentindo-se honrada com a visita de Maria,
exulta de alegria, juntamente com João no seu seio,
e exalta como bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento
das promessas que lhe foram transmitidas da parte do Senhor.
Maria, numa improvisação a partir do tema lançado por Isabel,
desenvolve, com o seu olhar e a sua voz de humilde serva,
os motivos de louvor, que recapitulam não só o que Deus fez por ela,
mas também por todo o seu Povo, cumprindo nele a sua misericórdia.
Sem nos faltarem motivos para com elas nos alegramos,
demos graças ao Senhor, com uma antiquíssima oração,
que, sendo própria da festa mariana do dia 15 de agosto,
se encontra no Sacramentário Gregoriano, dos inícios do século VII:
«Digno de veneração para nós, Senhor,
é a festa deste dia,
em que a santa Mãe de Deus sofreu a morte».
Voltemo-nos para a Senhora da Assunção e, num ritmo tropical,
cantemos-lhe uma Ave-Maria, juntamente com Caetano Veloso,
que, no passado dia 7 de agosto, completou 84 anos.
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas da Palavra. Este texto corresponde à homilia de sábado, 15 de agosto, Solenidade da Assunção da Virgem Maria, proferida na igreja matriz da paróquia de Fragoso (S. Pedro), no arciprestado de Barcelos.










