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António Guterres
ONU/Loey Felipe O secretário-geral da ONU, António Guterres, discursa na abertura do Debate Geral da 81ª sessão da Assembleia Geral da ONU

António Guterres

Futuro da humanidade depende do modo como enfrentarmos quatro desafios dominados pelo poder

| 22/09/2026

 

A guerra, as desigualdades, as alterações climáticas e a inteligência artificial (IA) são os quatro grandes desafios que a humanidade enfrenta e, ainda que o nosso futuro dependa da forma como os enfrentarmos, é preciso reconhecer que “em todos os quatro desafios a questão decisiva é o poder”, afirmou António Guterres no seu último discurso como secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), cargo que vai deixar no final deste ano.

Guterres falava no início da 81ª assembleia-geral da organização e precisou: “As divisões geopolíticas aprofundaram-se. As desigualdades intensificaram-se. A confiança desgastou-se. A crise climática deixou de ser um alerta distante para se tornar uma realidade quotidiana. E a inteligência artificial avançou a uma velocidade que apanhou de surpresa até mesmo aqueles que a criaram”.

Enquanto isto: “eclodiram guerras com consequências devastadoras que se prolongaram com uma crueldade abominável. Civis foram alvos. Direitos humanos, atropelados. A fome, foi usada como arma. Trabalhadores humanitários foram mortos. E o direito internacional, deixado de lado.”

O balanço que fez sobre os 10 anos à frente da ONU incluiu a referência a “uma transferência extraordinária de poder dos Governos para um punhado de empresas privadas e indivíduos. O poder destes estende-se agora à política, às economias, aos fluxos de informação, ao desenvolvimento tecnológico e ao espaço cívico do qual as sociedades dependem”. Neste movimento percebe-se que “os seres humanos estão a transferir cada vez mais poder para as máquinas — com agentes de inteligência artificial agindo de forma incontrolável e armas autónomas letais passando da ficção científica para a realidade militar.”

Neste quadro, Guterres sublinha que, apesar de enfraquecida por cortes nas contribuições nacionais (sobretudo dos EUA), a ONU é cada vez mais importante porque existe para obrigar “o poder a respeitar regras” e porque “a humanidade precisa de um lugar onde o poder responda a princípios”. Porém, apesar de um sistema multilateral de uma ONU verdadeiramente representativa ser a única resposta possível à “convergência sem precedentes de ameaças que a humanidade enfrenta”, os seus “mecanismos de ação coletiva estão sob crescente pressão”.

Sem referir a guerra contra o Irão liderada pelos EUA, nem a desastrosa intervenção ocidental de duas décadas no Afeganistão, o secretário-geral referiu que construir um futuro de paz e prosperidade terá de começar “pelo reconhecimento — especialmente por parte das superpotências — de que o seu poder não é tão ‘super’ assim”, “os acontecimentos dos últimos anos deixaram isto inequivocamente claro. O poder militar, por si só, não pode garantir a paz. O poder económico, por si só, não pode assegurar a estabilidade. E o poder tecnológico, por si só, não pode garantir a segurança”.

 

O planeta: um esgoto a céu aberto

Alterações climáticas

“Durante décadas as grandes empresas petrolíferas trataram a atmosfera como um esgoto a céu aberto — e lucraram com as consequências.” Foto © Future of Life Institute

Embora sem referir o nome de Trump ou o Estado de Israel, Guterres afirmou que o que se seguiu ao ataque do Hamas em outubro de 2023 “foi uma ofensiva contra os palestinianos em Gaza, com uma escala de mortes e destruição sem precedentes em todos os meus anos como secretário-geral”. Nestes anos “a violência, o deslocamento populacional e a expansão de colonatos na Cisjordânia ocupada vieram arrasar o caminho para a paz e levantar o espectro da limpeza étnica”. E concluiu: Não podemos permitir que a solução de dois Estados desapareça diante de nossos olhos”.

Sobre a Ucrânia, Guterres afirmou: “A invasão em larga escala pela Rússia submeteu um país soberano a uma guerra brutal, em flagrante violação da Carta da ONU”. Mas agora, alertou também, “em partes da Rússia, residências, sistemas de energia e água e transportes têm sido alvo de ataques repetidos, ameaçando as cadeias globais de abastecimento de alimentos e energia”.

Ao abordar os desastres provocados pelas alterações climáticas, o secretário-geral foi particularmente cáustico: “Durante décadas as grandes empresas petrolíferas trataram a atmosfera como um esgoto a céu aberto — e lucraram com as consequências. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, cinco grandes petrolíferas ocidentais embolsaram quase meio milhão de milhões de dólares em lucros. Compare-se isto com os 34 mil milhões desembolsados no último ano em financiamento público internacional para apoiar a adaptação climática dos países em desenvolvimento.”

Regressando aos grandes desafios – as guerras, as desigualdades, os choques climáticos e a disrupção tecnológica – Guterres argumentou que não se trata de crises isoladas, mas de desafios interconectados e definiu-os como “a história do poder” no nosso tempo. Poder que sofreu três grandes alterações na sua dinâmica: a emergência de novos centros de influência económica, política e tecnológica entre os Estados; a transferência de poder de Governos para corporações e indivíduos influentes; e a transferência de poder de seres humanos para máquinas, como a inteligência artificial”.

Ao encerrar o seu discurso, o Secretário-Geral disse que “nosso futuro compartilhado será moldado pela capacidade da humanidade de governar o poder com sabedoria” e que “o maior poder não é o poder de dominar. É o poder de construir um futuro que inclua todos”.  Aproveitou também para reafirmar os pilares da ONU — paz, desenvolvimento e direitos humanos — e alertou para que “fingir que a paz pode ser separada da dignidade, das oportunidades e dos direitos é uma ilusão inaceitável”. Terminou afirmando que o mundo precisa de uma ONU mais forte e deixou esta mensagem pessoal: “Esteja eu onde estiver, manterei a convicção de que a paz é possível”.

Em contraste, Donald Trump, que falou quase logo a seguir ao discurso do secretário-geral para se vangloriar de vários feitos, nomeadamente o de ter acabado com oito guerras, declarou que embora a Organização das Nações Unidas tenha “um grande potencial” deve “parar de impor a agenda de extrema-esquerda de burocratas globalistas que ninguém jamais elegeu”, garantindo que: “Não existirá um governo global e, enquanto eu for presidente, não haverá impostos globais.” Trump convidou todos os Estados que aderiram ao Tribunal Penal Internacional a retirarem-se formalmente dessa “instituição desonesta”.

 

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